O génio de Mozart visto por quem o inveja

O Teatro Nacional D. Maria II abre a temporada com Mozart visto pelo olhar invejoso do compositor da corte austríaca do século XVIII Salieri. Chama-se "Amadeus", tem encenação do britânico Tim Carroll e estreia-se na quinta-feira.
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A peça, do também britânico Peter Shaffer, parte da rivalidade que o poeta e dramaturgo russo Aleksandr Pushkin criou entre os dois compositores na sua obra "Mozart e Salieri", de 1831, e dela disse o autor: "A origem de 'Amadeus' está num desejo antigo de celebrar Mozart, mas a peça não é, na verdade, apenas sobre Mozart. É também sobre Salieri. É sobre a natureza do sentido de injustiça de um homem".

"É sobre Salieri e Mozart, um deles é um dos maiores génios de sempre e o outro é apenas um compositor muito bom. E o compositor muito bom decide que não consegue viver num mundo em que não é ele o melhor compositor. Deus deu a genialidade a um homem muito menos merecedor dela que ele e, então, ele decide vingar-se. Salieri destrói Mozart no decurso desta peça", resumiu hoje, em declarações à Lusa, Tim Carroll, prestigiado encenador de clássicos e ópera.

"Shaffer -- prossegue o encenador -- partiu do ângulo de Mozart estar a ser ignorado em vida, do facto de que, na realidade, quando ele morreu, já tinha sido esquecido. Shaffer que era, ele mesmo, um crítico de música, imaginou que Salieri, enquanto compositor, deve ter identificado o génio de Mozart; que, mesmo tendo toda a gente esquecido Mozart, Salieri deve ter prestado atenção à sua música e deve ter ouvido a sua música e dito 'isto é verdadeiramente bom'".

Em seis semanas apenas, Tim Carroll pôs de pé este espetáculo, a convite do diretor artístico do D. Maria II, Diogo Infante, que representa o papel de Antonio Salieri e contracena com Ivo Canelas, como Wolfgang Amadeus Mozart, João Lagarto (imperador austríaco José II), Carla Chambel, José Neves, Luís Lucas, Manuel Coelho, Martinho Silva e Rogério Vieira, entre outros, todos devidamente enfarpelados pelos Storytailors.

"Tivemos seis semanas e, em Inglaterra, esse é um período de tempo bastante razoável, por isso, não é um choque trabalhar durante um período assim. Tem sido um verdadeiro prazer. Os atores são muito fortes, profissionais e muito criativos e divertidos", sublinhou.

Sobre o desafio de dirigir um grupo de atores portugueses, o encenador elogiou a qualidade do inglês falado por todos eles, sobretudo por Diogo Infante, e observou que "desse ponto de vista, tem sido fácil falar com eles".

Agora, "é claro que quando estão a representar -- acrescentou -- não posso dizer nada sobre exatamente que palavras deverão sublinhar, etc.. Mas, na realidade, também não gosto de dirigir atores assim. Prefiro falar sobre a natureza essencial de cada momento: Estão a dizer a verdade à outra pessoa? Estão a tentar tornar a situação melhor? Têm uma intenção, quando falam? Se tiverem isso, então a forma como dizem a deixa vai resultar por si mesma".

Se tivesse de fazer um convite direto ao público para ir ver a peça, eis o que diria Tim Carroll: "A música de Mozart atravessa esta peça e, quando vimos vê-la, podemos pensar que adoramos Mozart, mas no final, compreenderemos porque é que o adoramos".

"Amadeus" estará em cena na sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II até 06 de novembro, de quarta-feira a sábado às 21:00 e aos domingos às 16:00.

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