O apocalipse já não é o que era

Um homem e uma mulher num cenário apocalíptico: reinventando elementos da ficção científica, "Agora Estamos Sozinhos" é um curioso exemplo da produção independente americana
Publicado a
Atualizado a

Um homem vagueia pelas ruas de uma cidade deserta. Entra numa casa, noutra casa... Em todas elas, consuma os mesmos gestos: desinfeta os espaços e recolhe os mortos. Cada cadáver é embrulhado numa manta que ele transporta na sua carrinha, depois arrastando-a até àquilo que é uma paisagem de muitas dezenas de campas...

Quem é este homem interpretado por Peter Dinklage? Será que estamos perante um tradicional filme apocalíptico? Mas, afinal, em matéria de apocalipse, o que é isso da "tradição"?

Digamos que Agora Estamos Sozinhos, filme assinado pela americana Reed Morano, começa por nos afastar dos clichés da ficção científica. Não se trata de um confronto com extraterrestres, não há naves a circular pelos céus. Se o leitor necessita de uma comparação, talvez possamos evocar a série televisiva The Walking Dead, embora suprimindo os zombies: o mundo foi atingido por um mal devastador e a sobrevivência faz-se através dos restos que ficaram nas casas e nos supermercados. E também lendo ou relendo os livros da biblioteca pública em que o protagonista trabalhava.

Se ele está só ou não, saberemos um pouco mais à frente. Assim, quando aparece a personagem interpretada por Elle Fanning, algo de inquietante faz com que entre eles se estabelece uma convivência distante e desconfiada. Para lá dos rituais das mais básica sobrevivência, será possível nascer mais algum laço? Seja como for, a pergunta inicial renova-se: estão ou não sozinhos?

Dizer mais do que isso seria retirar ao leitor/espectador o prazer da (sua) descoberta. Em qualquer caso, sublinhemos o essencial: Agora Estamos Sozinhos é um caso particular de um cinema austero, por certo minimalista nos meios, mas capaz de superar as suas óbvias limitações de produção através de um subtil trabalho de registo/recriação dos espaços.

Certamente não por acaso, Reed Morano decidiu assumir também a sua condição habitual de diretora de fotografia, trabalhando os espaços e a luz de Agora Estamos Sozinhos através de uma calculada transfiguração. Em vez da ostentação de meios e explosões (não poucas vezes completamente gratuita), deparamos aqui com cenários "naturais" que, a pouco e pouco, vão adquirindo uma nova dimensão, tão bizarra quanto perturbante.

Estamos, enfim, perante um exemplo de um cinema "made in USA", genuinamente independente, ligado ao espírito do Festival de Sundance. Foi lá que Agora Estamos Sozinhos teve a sua primeira exibição pública, em janeiro deste ano, acabando por arrebatar um Prémio Especial do Júri.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt