Mãos que serviram o basquetebol do Benfica servem agora a Deus

Jean-Jacques marcou uma era no Benfica e foi eleito o melhor jogador africano de sempre. Tem o curso de educação física, vive em Luanda, é conselheiro da federação e pastor
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Jean-Jacques da Conceição é um nome incontornável na história do basquetebol nacional e internacional, tendo sido eleito em 2011, no 50.º aniversário da FIBA, como o melhor jogador africano de sempre e selecionado para o Hall Fame internacional. Na década de 90 liderou o dream team do Benfica que encantou Portugal e a Europa. Hoje é conselheiro, empresário e pastor da igreja da Assembleia de Deus Pentecostal, em Luanda...

Com 2,03 metros de altura e a Bíblia nas mãos, o antigo basquetebolista impõe a presença (ver imagem). Os longos braços, que antes serviam para fazer afundanços espetaculares, servem agora para afagar a cabeça dos fiéis como quem tem uma missão de vida.

"Tenho um dia muito acelerado em Luanda. Não tenho alternativa se não acordar cedo. Começo por fazer o meu exercício, tenho de fazer a manutenção física [risos]", brincou Jean-Jacques, que, além da "vida desportiva", como lhe chama, é também empresário. Em que área? " Há coisas que é melhor não se saber publicamente [risos], mas sou um homem de negócios e um homem de fé. Sou pastor há muitos anos, acho que há mais de dez anos na Assembleia de Deus, em Luanda", respondeu o antigo atleta, explicando: "Sempre fui ligado à palavra de Deus, desde Lisboa. Quando Deus chama, nós podemos resistir no início, mas acabamos sempre por atender a chamada."

E o pastor Jean-Jacques da Conceição atendeu. Agora leva a palavra de Deus a várias províncias de Angola, mas, principalmente, no Cassenda, em Luanda: "Nas orações e nas leituras da Bíblia sou reconhecido, as pessoas reconhecem-me e recebem-me com muita alegria, e isso deixa-me muito feliz. Mas não gosto que as pessoas vão à igreja só para me ver e tirar fotos."

Começou no futebol...

Foi eleito o melhor basquetebolista de sempre do continente africano - "foi bonito e mostrou que o desporto angolano em África está bem no topo"-, mas poucos sabem que começou no futebol. Era guarda-redes do Bangu FC e só aos 17 anos mudou para o basquetebol. "Naquela altura formaram a equipa do Inter, que é hoje a equipa da polícia, e no Bangu havia muitos jogadores que eram da polícia, então foram requisitando para o Inter. O 1.º de Agosto foi buscar os militares e o Inter foi buscar os polícias e o Bangu ficou sem equipa e acabou por fechar", contou o angolano ao DN.

E porque escolheu ir para o basquetebol e não deu sequência à carreira no futebol? "Foi uma oportunidade, era bom com as mãos [risos]...", atirou o antigo jogador do Benfica, que tem um filho (Jacques da Conceição) a jogar no Galistos FC (Barreiro). Mas bonito seria vê--lo no Benfica: "Sim, gostaria de o ver onde eu joguei."

Escolheu os cestos em vez das balizas e fez parte do dream team do Benfica treinado por Mário Palma, com Carlos Lisboa, Mike Plowden ou José Carlos Guimarães: "A nossa equipa tinha nível internacional. Tenho saudades dos duelos com o FC Porto. Eles podiam estar mais fracos, mas quando enfrentavam o Benfica eram sempre fortes. Só que o Benfica era sempre... o Benfica."

"A minha melhor história no Benfica foi quando virámos uma eliminatória. Era à melhor de cinco, perdemos os dois primeiros jogos em casa e fomos a Oliveira de Azeméis vencer a Oliveirense nos outros três jogos e fomos campeões! Joguei muito nesse ano. Para nós era fácil virar os resultados. Tínhamos o falecido Mike, o Carlos Lisboa, o José Carlos Guimarães, o Steve Rocha...", recorda.

Na década de 1990 teve oportunidade de ir para os EUA, mas acabou por não acontecer e foi ficando no Benfica: "Já era bem pago e tinha de mudar tudo na minha vida. Só se me pagassem um salário que eu não pudesse recusar. E nessa altura a NBA não era a loucura e espetáculo que é agora."

Foi várias vezes campeão na Luz e ainda andou por Espanha e França, até voltar a Lisboa para ser tricampeão com a Portugal Telecom. Aos 40 anos disse adeus aos cestos, mas nunca se afastou dos pavilhões. Tirou o curso de educação física, mas nunca fez uso dele. "Apenas uso as bases para o treino. Nunca quis ser professor ou treinador de alta competição. O melhor para mim é ensinar as crianças, brincar com elas..."

O adeus aos pavilhões e ao basquetebol de alto nível já foi há mais de uma década, em 2004. "Foi difícil, mas quando deixei de jogar já estava preparado para seguir uma carreira de dirigente. Sou conselheiro da federação e faço parte da direção do 1.º de Agosto, na secção de basquetebol", explicou Jean--Jacques, ele que chegou a ser vice--presidente da Federação Angolana de Basquetebol e viu o 1.º de Agosto, onde a aventura do basquetebol começou, batizar o pavilhão multiusos com o nome dele.

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