Estreias. Os mistérios (in)sondáveis do mundo digital

Um filme que filma ecrãs? Mais do que a originalidade do seu conceito, Pesquisa Obsessiva é um vigoroso thriller, alimentado pela dinâmica do circuito virtual. Já está nas nossas salas
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Contar uma história exclusivamente através de ecrãs de computadores, iPhones e câmaras de vigilância. Com esta premissa ousada e inovadora, a primeira longa-metragem do indo-americano Aneesh Chaganty poderia não ser mais do que um curioso exercício de cinema a piscar o olho aos tempos modernos; ou melhor, uma simples reprodução cinematográfica - sem grandes preocupações narrativas e dramáticas - da experiência digital que domina os nossos dias. A ideia seria que, diante do grande ecrã da sala escura, o espectador se sentisse o tempo todo "online". E, com efeito, logo aí Pesquisa Obsessiva marca pontos, uma vez que concretiza tal sensação. Tudo acontece no filme como se a vida das personagens se resumisse a esse "estar ligado". O que, não ficando nada longe da realidade, nos leva ao ponto central deste thriller: como investigar o paradeiro de uma pessoa através do mapa de impressões deixadas pela sua interação nas redes sociais? Por aqui se entende que há mais qualquer coisa para além da mera originalidade da experiência fílmica proposta. Há gente como nós por trás destes ecrãs.

Vamos então a pormenores. Em Pesquisa Obsessiva, um pai (John Cho) desorientado com o desaparecimento da filha adolescente, envolve-se na investigação policial esquadrinhando em todas as contas online da jovem indícios do que pode estar na origem do seu sumiço. Na última videochamada em que comunicaram, ela disse-lhe que estava num trabalho de grupo. E é por essa pista dos colegas da escola que começa a exaustiva odisseia virtual deste homem, entre leituras de comentários a posts e documentos guardados nas pastas do computador, que lhe vão revelando um inesperado perfil psicológico da filha. Quem são os amigos dela? Por onde andava quando dizia que ia às aulas de piano? O que fazia com o dinheiro que ele lhe dava para essas aulas? Este tipo de interrogações doentias começa a atormentá-lo, na mesma medida em que a agente responsável pelo caso (Debra Messing), muito profissional, tenta amenizar o pânico.

Perante este cenário, o que faz Pesquisa Obsessiva funcionar enquanto objeto cinematográfico é então o quadro íntimo que Chaganty trabalha desde o princípio - quando o pai está a ver vídeos em que aparecem a mulher e a filha, fornecendo janelas para a história daquela família, antes do desaparecimento -, aliado à fluidez narrativa do thriller, com um desfecho surpreendente. A própria desenvoltura do argumento, na articulação entre o contexto público e o privado, põe-nos a refletir sobre a complexidade da nossa vivência na era digital. E, finalmente, na sua elementar questão formal e conceptual - a de assumir o ecrã de cinema como um monitor - temos aqui um desafio a que vale bem a pena responder. À falta de melhor definição, esta é uma alucinante viagem aos recantos obscuros do mundo digital. Esse que é, ao mesmo tempo, o problema e a solução para tudo.

*** (Bom)

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