"É Tão bom!" Os Amigos do Gaspar no cinema

Dia especial no Batalha Centro de Cinema. Estreia-se hoje, com a presença de Sérgio Godinho, <em>Os Amigos do Gaspar: Uma Reunião na Cidade</em>, de Duarte Coimbra. São 35 minutos de puro deleite de cinema. Uma curta que dá nova vida à série juvenil que em 1986 criava um imaginário novo na RTP. Até dia 11 deste mês, há mais sessões para ver no Porto deste projeto, um musical ingénuo, tão infantil como adulto, comissariado pelo Batalha.
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Há cinema e não televisão nesta revisitação de Os Amigos do Gaspar, série juvenil exibida há mais de 30 anos na RTP. Agora é uma curta-metragem cuja estreia mundial é esta noite no Batalha Centro de Cinema. A linguagem desta curta-metragem de meia hora é a de um musical ingénuo, tão infantil como adulto. Os Amigos do Gaspar: Uma Reunião na Cidade, de Duarte Coimbra, o cineasta da curta-metragem Amor, Avenidas Novas, monumento de um certo cinema júnior português destes dias.

Projeto comissariado pelo próprio Batalha Centro de Cinema, a intriga junta as personagens criadas por Jorge Constante Pereira e João Paulo Seara Cardoso em diversos locais da cidade do Porto. Um grupo de amigos marionetas que interage com adultos entre alguns quadros musicais, precisamente os clássicos da banda-sonora de Sérgio Godinho. Aliás, as letras destas canções icónicas acabam por ser o guia deste argumento escrito por Coimbra e Guilherme Blanc, precisamente o homem que dirige artisticamente o novo Batalha.

"Apesar de apenas ter feito duas curtas sinto que há sensibilidades que lá víamos que são transpostas para aqui, sobretudo a ligação com o musical, algo que me interessa sempre. Aliás, é algo que sempre me vai continuar a interessar. Foi isso que me cativou neste convite, ainda para mais com canções do Sérgio Godinho", salienta o jovem realizador lisboeta. Na verdade, há um cuidado na depuração da imagem, dos tempos de cinema. Uma leveza que se afasta de qualquer tentação de fazer teledisco. Duarte Coimbra compõe as subtilezas dos bonecos dentro das canções de Sérgio Godinho com um "savoir faire" de veterano.

Guilherme Blanc, que funcionou como mestre de encomenda, argumentista e produtor, fala de um certo espírito portuense em toda a génese da curta: "A série e o filme falam de valores e de preocupações universais - as nossas inquietações continuam a ser as mesmas que a Marta e o Gaspar sentiam, por exemplo. Mas existe, claro, um trabalho de escrita sobre idiossincrasias do Porto, e a principal talvez seja mesmo o facto de no Porto se valorizar e ao mesmo tempo criticar certas dinâmicas sociais, com espírito de "gozo", e de se conseguir exprimir amor e amizade de uma forma frontal e desempoeirada". É esse ar desempoeirado que faz parte do charme desta pequena grande delícia. "Um dos objetivos que mais me interessou foi o de desvincular um conteúdo audiovisual do formato de estúdio, para o qual foi pensada e concebido originalmente, e traduzi-lo numa linguagem de cinema ligada a imagens reais, quase documentais. Por outro lado, é muito interessante a complexidade do exercício de produção e filmagem de figuras manipuladas em confronto com a escala real da cidade, das suas ruas, e "perturbações" urbanísticas. Desde logo porque é disso que as músicas falam, dessas vivências adaptadas. Quisemos que o álbum fosse uma base rígida", vinca Blanc.

"Quando entrei para o projeto senti que o Guilherme Blanc já tinha as ideias bem definidas, senti que este era um passion projet dele. O meu desafio foi então encontrar as minhas ideias no meio de tanta definição. Acabou por ser muito interessante. Por exemplo, com o ator que faz de Sérgio Godinho, o Mauro Hermínio, a minha intenção era que ele transportasse o espectador de canção em canção, sobretudo num filme que não conta uma história de encantar ou tem uma estrutura narrativa clássica - é quase antes um documentário musicado sobre o Porto. O Mauro não podia ter resultado melhor: é um humano no meio dos bonecos. No outro dia via o Má Raça, de Leos Carax, e o Mauro lembrou-me o Denis Lavant", conta Duarte Coimbra, cineasta que desconhecia Gaspar e os seus amigos.

Esta reunião de verão num Porto tão genuíno como gentrificado é mais um dos filmes encomenda do Batalha. Guilherme Blanc prefere não falar de uma tendência de cinema: "Esta encomenda, tal como o filme do Basil da Cunha, 2720, que este ano ganhou tantos prémios, não caracteriza a missão do Batalha em si. São projetos que nascem do desenvolvimento orgânico do nosso programa, da forma como pensamos o nosso contexto, e de uma vontade de trabalharmos entre a memória e o que é "contemporâneo"". O diretor artístico refere também a necessidade e a importância de um cinema pensado para os mais jovens: "a produção desse tipo de conteúdos fílmicos terá, pelo menos, potencial de crescimento do ponto de vista do seu público. Verificamos no Batalha (e sabemos que é uma tendência generalizada) que há um público ávido e muito vasto para esse tipo de cinematografias".

Certo e garantido é que este Os Amigos do Gaspar volta a colocar as canções de Sérgio Godinho nos nossos ouvidos. É arrepiante voltar a ser contagiado por Canção dos Abraços e É Tão Bom e reencontrar ou encontrar amigos como o Guarda Serôdio, o Manjerico, a Marta ou a Dona Felismina. "Acho que a simplicidade dos dispositivos cénicos da série amplificavam o texto e o valor da música. Isso ficou tão marcado na minha memória que este projecto parte precisamente do álbum enquanto história", recorda Blanc. Em breve, depois do Porto, esta nova vida destes amigos será mostrada em Lisboa e em auditórios por todo o país.

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