Faz 92 anos no dia 29 de maio. Assume que já teria direito a descansar mais e a trabalhar menos, como muitos lhe dizem, mas "não sou capaz. Faz-me falta trabalhar". Foi sempre assim, confessa ao DN Fernando Manuel Archer Moreira Paraíso de Pádua, ou o professor Fernando Pádua, ou o médico do coração, ou o pai da medicina preventiva em Portugal. Aceita todas as designações e até diz que, "se calhar, têm razão", mas com a que mais se identifica e até se sente vaidoso é: "O professor é uma força da natureza.".Duas operações repentinas obrigaram-no a parar em fevereiro. "Foram mais de dois meses. Regressei há 15 dias. Já não aguentava estar em casa." E aos que lhe dizem que devia pensar na recuperação, responde: "Eu fui operado à coluna e a uma hérnia, não estou doente da moleirinha." É o exemplo de como se pode viver longamente e saudável. Acredita mesmo que "a longevidade é um sucesso da medicina preventiva, embora possa haver alguma coisa de especial no ADN.".Para ele a receita é simples e foi isso que tentou ensinar aos portugueses: "Menos sal, exercício físico e nada de tabaco." No entanto, ao DN confessou ter fumado até aos 35 anos, até perceber que poderia ser mortal, mas depois pôs um fim a isso. E no que toca ao sal diz que ainda hoje refila com os pratos que lhe chegam e sente de imediato que o têm em demasia. Porque não há nada mais assassino para os portugueses do que "a gordura, o tabaco e a preguiça". Foi isso que, ainda na década de 1960, o levou a um programa de televisão, O Seu Motor, para explicar aos portugueses que deviam mudar de hábitos e comportamentos..O disseminar o conhecimento foi a mensagem que trouxe de Harvard, onde se especializou em cardiologia, e que tentou seguir à risca, sendo um dos fundadores do Instituto Nacional de Cardiologia Preventiva e da Fundação Fernando Pádua, organismos de que é presidente e que tiveram sempre como objetivo dar cuidados especializados aos portugueses a preços mais acessíveis..Tem projetos para o futuro: continuar a fazer o que gosta, continuar a apostar na cardiologia e no que ainda se pode fazer mais, por exemplo, exames ao domicílio, viver até aos 120 anos, bem-disposto e saudável. Ou, quem sabe, viver até aos 142..Fernando Pádua recebeu-nos no seu gabinete no instituto, onde ainda vai todos os dias, um espaço recheado de memórias. Aqui fica um pouco de uma conversa com mais de duas horas.."Sou um alentejano do coração".Nasceu em Faro, na Sé, mas muito pequeno foi para Almodôvar e depois para o Tramagal [Abrantes]. Isso marcou a sua infância? Obviamente. Sou mais almodovarense do que farense. Sou um alentejano do coração. Mas estas mudanças foram por circunstâncias da vida. O meu pai e a minha mãe casaram-se em Faro, o meu pai trabalhava na fábrica de um tio padrinho que o tinha criado, ele era órfão, a mãe morreu quando tinha 4 anos, e, quando esse tio morreu, os primos mais chegados decidiram deserdar o meu pai, que era um primo afastado e não o quiseram manter na fábrica. A minha mãe voltou a Almodôvar, onde tinha família, e o meu pai e o irmão tiveram de ir ara o Brasil. Eu e o meu irmão éramos muito pequeninos quando isto aconteceu, eu era o segundo filho, o meu irmão tinha apenas mais um ano do que eu, faleceu há poucos meses, mas ainda houve depois uma irmã mais nova. Ficámos em Almodôvar enquanto o meu pai esteve no Brasil. Foram uns dois a três anos. O meu pai voltou e arranjou trabalho numa empresa no Tramagal e fomos viver para lá. Mas fiquei sempre muito ligado a Almodôvar era para lá que ia passar férias. De tal forma que consegui abrir uma delegação da Fundação Professor Fernando Pádua lá. Um dia pedem-me para ir fazer uma conferência e quando chego lá percebi que era na casa onde tinha vivido que ia falar, eles em Almodôvar não sabiam..E a vida no Tramagal? Foi importante. Foi lá que eu e o meu irmão começámos a escola primária. Eu era bom aluno e ele também. Aprendi a ler ao contrário [ri-se]. A minha mãe ensinava o meu irmão a ler e eu punha-me à frente deles a ver o que estavam a fazer, então fui aprendendo a ler com o livro ao contrário. Um dia a minha mãe deu comigo a ler o Diário de Notícias ao contrário e ficou espantadíssima. Mas tivemos de sair porque os meus pais queriam que eu e o meu irmão estudássemos e a escola no Tramagal só tinha até à terceira classe. O meu pai, que trabalhava na Duarte Ferreira, que era uma grande empresa, mais tarde até começou a fabricar camiões para a Guerra Colonial, pediu a transferência para Lisboa para podermos continuar a estudar..Isso aconteceu na década de 1930, não foi? Já nessa altura os seus pais tiveram uma visão diferente do que era normal para a época... Eles tinham muita capacidade de olhar para futuro. O meu pai foi para o Brasil trabalhar, não correu bem e voltou. Mas saiu daqui. A minha mãe foi sempre muito habituada a viajar e a ter gosto em aprender. O meu avô foi diretor do Banco Ultramarino e viajava muito quando ela e os irmãos eram pequenos. Ele ia para a Guiné, Angola, Timor, e levava os filhos. A irmã da minha mãe, Maria Archer, que se tornou uma grande escritora, tinha orgulho em dizer que tinha a quarta classe e não mais do que isso, mas eles eram todos letrados, não de forma oficial..Sentiu diferença quando veio para Lisboa? Vim para Lisboa e fiz a quarta classe com distinção, numa escola da Penha de França, que ficava ao início da Rua General Roçadas. Acho que a escola ainda lá está. Sabia tudo, adorava Geografia, conhecia todas as linhas de comboio, tudo sobre as colónias. Adorava pensar que um dia ia a Angola. Mas depois fui para o Liceu Gil Vicente e tornei-me um mau aluno. Até ia perdendo o ano por faltas. O liceu era grande, tinha uma enorme cerca onde jogávamos à bola, à volta eram campos onde apanhávamos caracóis e eu deixei-me ir. Era aluno do 1.º ano B e ia deixando ir tudo por água abaixo..Mas isso não aconteceu... Não, mas os meus pais mudaram-me de liceu. Fui para o Passos Manuel, que ficava mais perto da minha casa. A empresa do meu pai ficava em Santos e eles procuraram casa ali ao pé. Ficámos a morar na Calçada Marquês de Abrantes, n.º 38, 2.º andar. Lembro-me disto tudo como se fosse hoje. E inscreveram-me no Passos Manuel, que depois veio a ser o liceu de muitas celebridades. Olhe, o Presidente da República também andou lá. Eu gostava do liceu. Eles tinham um centro da Mocidade Portuguesa e os alunos mais velhos ajudavam os mais novos a estudar, começaram a puxar por mim e eu comecei a recuperar o estudo. Um dia o professor de Português disse ao reitor que havia dois alunos que tinham feito dois trabalhos muito bons, era eu e outro colega. O reitor falou comigo e aquele elogio bateu-me na cabeça. Pensei que, afinal, até poderia ser bom aluno, eu andava com complexos desde o Gil Vicente. A partir daí comecei a melhorar gradualmente e tornei-me o melhor aluno de Matemática do liceu. O que prova que um professor também faz um aluno..E como é que a medicina aparece na sua vida? Lembra-se do dia em que percebeu que queria ser médico? Lembro-me muito bem e foi mais ao menos por acaso. Podia ter sido engenheiro. Tinha acabado o liceu e ainda não sabia o que queria ser. Os meus pais achavam que, como era bom aluno, tinha de ir para Engenharia ou para Medicina. Nesse tempo, e muito judiciosamente, a admissão ao ensino superior fazia-se na faculdade que se escolhia. Hoje é uma tontice não ser assim. Um aluno entrar em Medicina só porque tem 19, e não porque quer mesmo ser médico. Isso faz que hoje ainda tenhamos médicos que sabem fazer contas, mas que depois não têm paciência para ver doentes nem espírito de sacrifício. É uma asneira o acesso não ser por faculdades e ser um acesso geral..Mas como é que foi parar a Medicina e não a Engenharia? Quando saí do liceu fiz logo a admissão a Medicina e fiquei. Andava a preparar-me para fazer admissão à Engenharia, o que só podia fazer em outubro, sabia que era mais difícil, e tinha um amigo que era muito bom em matemática e que já tinha entrado em Engenharia, depois até foi um dos diretores do Instituto Superior Técnico, e acabei por decidir ficar em Medicina. Não estudei mais Matemática e fui gozar férias para Almodôvar. Portanto, foi assim. Não foi porque andei a brincar aos médicos em pequenino.."Quando vi o meu primeiro doente, não conseguia perceber se estava vivo ou não".Não se arrependeu da escolha? Não. Na faculdade fui o melhor aluno do meu ano. Ainda mal tinha acabado o curso e já um professor, que tinha consultório em Alcáçovas, me estava a pedir que o substituísse por 15 dias. Eu disse-lhe. "Ó professor, mas ainda ontem estava aqui a aprender consigo e já me está a pedir para o substituir?" Estava assustado. E ele respondeu-me: "E eu não sei o que tu sabes? E olha que vais receber dinheiro." Aceitei, mas foi um dos períodos mais infelizes da minha vida..Então porquê? Fiquei instalado no quarto de uma pensão. Logo no primeiro dia, já noite cerrada, estava mau tempo, não havia eletricidade e vão chamar-me para ajudar um rapazinho que se tinha sentido mal e que parecia estar a morrer. Foi o meu primeiro doente - conto isto muitas vezes, porque me lembro de ir a caminho e de me sentir a arder de medo. Lembro-me do ruído dos meus passos na gravilha e de pensar: "Coitada da Maria Antonieta, devia ter sentido o mesmo que eu quando foi para a guilhotina." Eu cheguei lá e não conseguia perceber se o rapaz estava vivo ou não. Entro num quarto onde ele estava deitado e onde havia umas oito ou dez senhoras vestidas de preto, eram tias, primas, nem sei, mas todas queriam ver o médico que tinha chegado naquele dia. Eu pus-lhe o estetoscópio no peito e não conseguia ouvir o coração, não sabia se batia ou não. Mas comecei a falar com ele e falou comigo, portanto, pensei, "ele está vivo". Fiz-lhe um exame rápido e disse-lhe que o melhor era ele no dia seguinte ir ter comigo à casa do povo onde lhe poderia fazer um exame mais pormenorizado. Assim foi. Recebi 20 escudos pela consulta daquela noite, sempre achei que foi o dinheiro mais mal ganho na minha vida. Eu nem conseguia perceber se o rapaz estava vivo ou não, e nunca fui capaz de gastar esse dinheiro. Ainda o guardo. É uma nota com um Santo António..Mas acabou por ficar ou regressou a Lisboa? Fiquei quase umas três semanas, quando tive de me vir embora a população tinha gostado tanto de mim que não queria que eu viesse. Mas voltei porque o meu grande sonho ao escolher Medicina não era propriamente ser médico, mas ser professor, entrar na carreira académica, mas não fazia ideia de que um dia poderia chegar a catedrático. Só cheguei a professor catedrático aos 39 anos, mas, mesmo assim, na altura, era o mais novo em todo o país..Antes do doutoramento e de chegar a professor catedrático passou por Harvard, foi aí que se graduou em Cardiologia? Foi. Mas antes de Harvard ainda aconteceu outra coisa. No liceu eu tinha sido o melhor aluno. Eu não sabia, mas havia um prémio para esse aluno. Um dia recebi em casa uma carta do Rotary Clube de Lisboa a dizer que o conselho da minha faculdade lhes tinha indicado que eu tinha sido o melhor aluno do curso, e eles tinham um prémio para mim se eu aceitasse. Na altura, eram três contos de réis, mas tinha de me comprometer a almoçar com os rotários durante seis meses. Foram seis meses em que comi do bom e do melhor na Casa do Alentejo. Os almoços eram semanais e permitiram-me conhecer pessoas proeminentes da sociedade, os números um de todas as classes profissionais. Por exemplo, na medicina o número um era o professor Gentil Martins. E assim fui-me chegando aos melhores na medicina e comecei a receber o melhor de cada um deles..Mas como foi parar a Harvard? Fui através do Rotary International, que lançou um programa de cem bolsas para distribuir pelo mundo. E aqui em Lisboa disseram-me: "Nós nunca tivemos um bolseiro português, quer arriscar?" Eu arrisquei. Quando fiz a minha carta de candidatura coloquei todas as investigações em que já tinha participado. Portanto fiz render o meu peixe. Expliquei os exames que já fazia com o professor Eduardo Coelho, com cateterismos, e disse que queria ir aos dois melhores centros de cardiologia do mundo, um era no México e o outro em Boston, nos EUA, que era Harvard. Eles deram tanto valor a isso que me aceitaram. Ganhei cem contos de réis e fui para Harvard durante um ano..Foi de lá que trouxe o conceito de medicina preventiva? Foi. Aprendi muito com o professor White, que, na altura, era um dos protagonistas mundiais. Foi lá que comecei a minha tese de doutoramento. Mas foi por causa de Harvard que me casei à pressa, para a minha mulher ir comigo..Como é que conheceu a sua mulher? Na faculdade. Ela tinha andado no Liceu D. Filipa de Lencastre, em Lisboa, e escolheu Medicina. Era a melhor aluna do ano dela e eu era o melhor aluno do meu ano. Fazíamos parte de um grupo de estudantes, até com mais raparigas do que rapazes, e foi assim que a conheci. Ela formou-se, ainda exerceu medicina, começou no IPO de Lisboa, mas depois foi comigo para os EUA. Eu comecei a trabalhar muito e a ganhar bem e ela foi diminuindo a prática..Voltando a Harvard, nunca pensou ficar lá? Isso era quase obrigatório ficar lá como investigador, mas eu não quis. Vim para cá para ajudar o meu país, não foi para ajudar a minha carreira. Comecei lá a tese de doutoramento e se tivesse ficado até a teria apresentado mais cedo. Mas eu quis voltar a ensinar e a trabalhar com o professor Eduardo Coelho. Já agora, deixe-me dizer que outra coisa que o nosso governo tem feito muito mal é dar bolsas e não obrigar os bolseiros a voltarem ao país. O que acontece é que depois acabam por ficar nesses países, porque lhes pagam mais dinheiro. Temos perdido cabeças e cabeças..Quando veio dos EUA trabalhou muito, não foi? Já se queixou dessa altura... Sim, era o hospital, o consultório, a tese... não sei como aguentei. Houve muitas noites em que me deitei às quatro da manhã, outras em que me deitei às dez, mas quando os filhos iam para a cama, levantava-me e voltava a trabalhar. Eu não tinha muita necessidade de dormir, mas não sei como aguentei. Tive ajuda de alguns colegas. Há um que não posso esquecer, um cirurgião que se entusiasmou tanto com o meu trabalho que me ajudou e chegou a perder noites a trabalhar comigo, o Dr. Sousa Dias..Acha que conseguiu mudar os comportamentos dos portugueses? Acho que sim. Ainda no outro dia um colega recordava que quando começou a exercer as pessoas entravam no consultório e pediam logo para medir a tensão, não sabiam sequer o que isso significava, mas "o professor dizia que tinha de ser assim". Enquanto estive em Harvard, o professor White sempre me disse que as pessoas têm sede de saber e era preciso passar o conhecimento para a sociedade. E foi o que fiz. Hoje as pessoas vão primeiro ao Dr. Google antes de irem ao médico.."Nunca tive lições, mas gostei sempre de comunicar e era preciso falar para as pessoas".Mas a comunicação social também ajudou... Os jornais naquela altura começaram a falar do conceito da prevenção, a rádio também e depois a televisão tomou conta de tudo e eu tive a sorte de conseguir ter um programa onde podia falar com as pessoas, como se estivesse cara a cara, ainda antes do 25 de Abril, em que explicava uma série de coisas. O programa teve um grande sucesso. Havia colegas que estavam contra mim e que achavam que só queria protagonismo, por falar de medicina com as pessoas, mas outros diziam-me para não desanimar, porque o que havia era muita inveja, que sempre foi uma coisa muito portuguesa. Olhe que mais tarde soube que havia uma taberna em Alfama onde as pessoas começaram a ir para ver e ouvir o meu programa. Todos tinham de se calar. As pessoas contavam-me estas coisas. No Ribatejo, houve uma terra que comprou à pressa um gerador de eletricidade para as pessoas poderem ver o programa na casa do povo. Sempre gostei de ensinar e de falar às pessoas. Nunca treinei, nunca tive lições, mas gostei sempre de comunicar..Como é que se chamava o programa na televisão... O Seu Motor. Era um programa que alertava as pessoas para vários hábitos comportamentais. Por exemplo, se não se mexessem era como se deixassem o carro na garagem durante muito tempo. Quando queriam que pegasse, não pegava, era preciso meter-se óleo. Isto para se dizer que se tinham de mexer todos os dias. Era preciso falar uma linguagem simples e era isso que fazia. Tive colegas que estavam contra, que disseram coisas incríveis, para mim era um desgosto, mas nunca parei por causa disso. Sabia que tinha razão..Foi difícil quando começou a fazer esse tipo de medicina? Fiz muitos amigos na medicina. Fui professor rapidamente e quando houve uma vaga para professor agregado concorri, tive de responder a 12 módulos e recebi 12 bolas brancas dos professores. Depois, entregaram-me logo um serviço em Santa Maria, era pequeno tinha 18 camas, os alunos nem cabiam no espaço para me ouvirem ou para verem o doente. Era quase pior do que quando fui para Alcáçovas. Mas uma coisa dessa época ficou no meu coração. O Daniel Sampaio, o irmão do Jorge Sampaio, e a namorada eram meus alunos e um dia foram pedir-me desculpa, porque iam fazer greve, não iam às aulas, mas foram explicar-me que isso não tinha nada que ver comigo, mas com as condições que tínhamos. Disseram-me mesmo: "Isto é uma anedota." Olhe que naquela altura os revolucionários virem dizer-me que iam fazer greve e que isso não tinha que ver comigo, deu-me uma grande satisfação. Isto foi no inicio dos anos de 1960, eu estive naquele serviço de 1954 a 1964. Depois, deram-me um serviço maior..As condições eram assim tão más? Já pensou o que eram 18 camas para ensinar 300 alunos. Ainda por cima eu queria fazer coisas novas, queria inovar, e por isso tinha de improvisar. A certa altura criei um quarto com uma janelinha com uma enfermeira a vigiar. Foi assim que nasceu a primeira UTIC [unidade de tratamento intensivo para coronários]. Não era uma verdadeira UTIC, mas foi este quarto que levou ao desejo e à concretização de um sonho que era o de poder vigiar os doentes numa unidade separada das enfermarias, com toda a aparelhagem e com cuidados intensivos.."Havia muita gente a tentar destruir a luta pela prevenção, tive de fazer alguma coisa".Hoje aceita as designações que lhe atribuem: o médico do coração, o pai da medicina preventiva... Até fico vaidoso. E penso que, se calhar, têm razão. Mas no início havia muita gente a tentar destruir a luta que se estava a fazer pela prevenção. E por isso pensei que tinha de fazer alguma coisa com mais impacto e que não deixasse dúvidas sobre este tipo de medicina. Falei com o professor Pereira Miguel, que era o meu principal apoio, com o meu filho, José Manuel, que era psiquiatra, e com um outro colega e amigo, o Dr. Pais Lacerda, para me ajudarem. Foi assim que conseguimos trazer a Portugal um cardiologista americano de renome, o melhor cardiologista inglês e um médico da Organização Mundial de Saúde para fazerem uma conferência sobre medicina preventiva. Eles cheios de boa vontade vieram e aceitaram fazer a conferência na televisão e num programa em direto. Cada frase que diziam eu ou o Pereira Miguel tínhamos de traduzir. Foi miraculoso. No dia seguinte não houve um único médico que eu tivesse visto a dizer mal do que eu dizia ou de mim. Nunca mais ninguém me desmentiu..A mensagem da medicina preventiva tinha passado... Nesse dia a mensagem passou para a população e para muitos médicos também. Como digo, alguns calaram-se para sempre, deixei de ter opositores. Mas o importante é que o conceito de medicina preventiva ficou de tal maneira instalado que tempos depois o Ministério da Saúde aceitou a proposta de criação do Instituto Nacional de Cardiologia Preventiva. A nossa ideia era dar cuidados em cardiologia a todas as pessoas e de forma mais barata. Tentámos que fosse uma coisa muito grande, mas não havia dinheiro. Portanto, começámos num centro de saúde da Columbano Bordalo Pinheiro. O ministro da altura disse-nos que ficaríamos a trabalhar lá dentro e a fazer cardiologia preventiva e a preços muitos baixos. Ainda hoje temos preços incríveis de oito e dez euros por consulta. Mas, sabe, é das coisas que eu levo: este instituto e a fundação com o meu nome. Tem-se feito aqui muita coisa. A fundação agora vai dar apoio ao povo moçambicano, depois daquelas desgraças todas. A vice-presidente da fundação vai anunciar isso no Facebook, eu não sou facebookista..Mas é um comunicador nato. Foi isso que o ajudou a convencer as pessoas a deixarem de comer sal, a fazerem exercício, a deixarem de fumar? Acho que tive imensa sorte. Eu falava e as pessoas percebiam. Nos anos 1970, Portugal tinha uma grande mortalidade por doenças do coração. E começou a baixar nessa década. Aliás, esta foi considerada a década gloriosa do coração. Conseguimos falar de alimentação, da falta de exercício, do tabaco, do sal em excesso que era usado, etc. Sabe que uma das grandes vitórias que sinto que consegui foi ter levado a Maria de Lourdes Modesto para a televisão. Ela ensinou a cozinhar sem sal. Metade dos hipertensos melhoraram à custa dela. Ela chegou a fazer sessões na universidade a mostrar como se fazia pão e salgadinhos sem sal..Fumou até aos 35 anos e não dispensa a Coca-Cola.Como é o seu dia-a-dia? Todos os dias venho ao instituto. Agora, chego pelas 11.00, antes era pelas 08.00. Depois pelas 17.00 saio. Às vezes trago uma sanduíche ou como qualquer coisa por aqui. Mas ainda vejo exames, faço relatórios. Ontem à noite estive em casa a ver relatórios de Holter. Tem de ser. Tive de parar um bocado porque fiz duas operações muito recentemente, mas não consigo ficar em casa sossegado.O professor é o exemplo de que é possível viver saudável até aos 92 anos. Como é que conseguiu? Há qualquer coisa no ADN que permite que haja pessoas que vivam mais tempo do que outras, mas eu não fumo, ando, faço exercício, não como exageradamente. Todos os dias ainda protesto com a comida que me trazem e que tem demasiado sal. Já sei que no dia seguinte tenho de comer tudo sem sal nenhum. Mas ser saudável tanto tempo? Não há dúvida de que é a medicina do comportamento que tem o sucesso todo. Por exemplo, lembre-se de que só passar a medir a tensão, ou seja passar a fazer o controlo da tensão arterial, e o retirar o sal foram as coisas principais na década gloriosa de 1970. Continuo a dizer que o tabaco, a gordura no sangue e a preguiça são os três assassinos dos portugueses..Nunca fumou? Aprendi a fumar em Almodôvar aos 12 anos e fumei até aos 35. Um dia li um artigo de um professor inglês sobre porque é que morriam os médicos ingleses e percebi que uma das maiores causas de mortalidade que unia quase todos os médicos era o fumo. Esse professor concluiu, na atura, que o fumo provocava a morte por cancro do pulmão, e deixei de fumar. O tabaco é uma droga e como todas as drogas dá bem-estar. E era uma droga acessível... bem, agora até já a canábis é acessível [ri-se]..Foi difícil parar de fumar? Não, eu fumegava... não fumava mesmo. E parei quando tinha muitos doentes e tinha de estar ao pé deles..Os seus filhos nunca fumaram? Não, sempre lhes disse que se quisessem que fumassem, mas que não o fizessem porque algum colega fumava e lhes dizia para fumarem. Podem fumar mas têm de saber o que o tabaco faz, se quiserem até podem fumar à mesa, mas nunca nenhum deles fumou. É o que eu digo, se nunca fumarem é mais fácil..E com a alimentação? Nunca comi exageradamente. Mas sempre comi mais peixe do que carne e muita salada. Por exemplo, um truque para se comer menos é começar pela sopa, depois uma salada e só depois o peixe ou a carne. Assim come-se muito menos quantidade. Mas ainda faço três refeições ao dia, o jantar é mais ligeiro..E o vinho? Nunca bebi vinho. Nunca gostei muito, em casa sempre tive água ou Coca-Cola [ri-se]. Habituei-me a gostar na América. O gasoso ajuda-me na digestão..Então é mesmo o comportamento que nos faz saudáveis? Costumo dizer que quando se vai ao médico, que o médico se deve preocupar e pensar mais como fazer a correção dos comportamentos dos doentes do que dar-lhes logo medicação. Por exemplo, alguém com colesterol elevado, o médico deve dar uma chance ao doente antes de lhe dar medicação. Deve dizer-lhe para não comer gorduras, para andar, pelo menos, mais de 30 minutos por dia, e que não deve fumar. Há muitas coisas que se conseguem corrigir no comportamento das pessoas, mas o tabaco é muito difícil para a maioria, portanto a melhor maneira é nunca começar a fumar. Para quem fuma é muito mais difícil parar e depois até ameaça os outros. Na praia, ainda peço a quem está na barraca ao lado que apague o cigarro..Ainda vai a praia? Claro. Fui no ano passado e já tenho tudo marcado para este ano. Vou sempre para a Ericeira. O mar é bravo, mas eu gosto. Agora só tomo banho pela mão dos meus filhos, mas tomo sempre....Quantos filhos tem? São três. Os três Manéis ou os cinco Manéis, comigo e com a mãe, que é Maria Manuela. Dois são médicos, mas todos juraram que não iriam para medicina. O José Manuel, o mais velho, dizia que não queria levar a minha vida, e quando chegou à altura de escolher um curso, foi para Medicina. É psiquiatra. O do meio, Fernando Manuel, também disse a mesma coisa. Dizia até que na família já havia muitos médicos, mas foi isso que escolheu também. É internista e foi diretor do Hospital de Portalegre, mas cansou-se do cargo. É o pai do Vasco. O mais novo, o João Manuel, já apareceu na fase dos computadores e não quis mesmo nada com a Medicina. Seguiu Informática..Sei que tem dois netos, com quem tem uma relação muito especial. O Vasco e a Mafalda. Eu também queria que tivessem ido para Medicina, o Vasco ainda trabalhou comigo no instituto, mas seguiram áreas diferentes. O Vasco tirou Gestão na Católica e a Mafalda está a acabar mestrado na área da Biologia. O Vasco saiu do curso e começou a fazer estágios e a ganhar muito bem, e pouco depois decidiu montar logo o seu próprio negócio. Ele disse logo ao pai: "Quero trabalhar para mim." Um dia fomos sair e ele estava dizer-me que gostava de ter um restaurante. "Um restaurante?" Estranhei, mas não é que naquele mesmo dia, quando íamos a andar, olhámos para um letreiro que estava numa porta em que dizia vende-se. Era um avô que estava a vender o café da neta, que não tinha gostado da experiência. Comprou o espaço e fez o restaurante dele - o Dom Queijo, ali serve aos clientes metade de queijo e metade de conversa.."O pior na medicina é não estar disponível para o doente".Acompanhou várias fases da medicina, como é que olha hoje para o setor e para a classe médica? Um bocadinho desanimado. Nós somos os mesmos que éramos há anos. O que gostava para começar é que a admissão a Medicina se fizesse por faculdade e não por um exame geral. Mas isto serve para qualquer profissão. Se a medicina fosse grátis para todos, ia ver que só ia para médico quem quisesse muito, porque pessoas que tenham a vida tão dedicada aos outros como os médicos não há..Mudaram as condições na medicina, mas a classe não... A classe mudou no sentido da desmotivação, da raiva até, de cada vez mais lhe tirarem as condições de trabalho..A falta de condições de trabalho é o pior hoje na medicina? O pior na medicina é esta não estar disponível para o doente. Eu não sou ministro, nunca pensei nisso. Gosto de fazer, não gosto de mandar fazer, mas mudava algumas coisas..Já muito se fez na medicina e na cardiologia preventiva, mas ainda há mais a fazer? Claro. Há muito a fazer. Se todos fizessem o que eu faço todos viveríamos mais tempo, é uma verdade que vamos ter mais idosos. Há tempos li na revista Time que qualquer bebé nascido hoje pode durar até aos 142 anos. É preciso é que estes bebés comecem logo a ter uma vida saudável.Que projetos tem para o futuro? Continuam a ser os mesmos: lutar pela disseminação do conhecimento partindo do princípio de que as pessoas querem saber, vão conhecendo, aprendendo e mudando os seus comportamentos. Estive parado uns meses, mas já recomecei e voltei a pegar no Big Bang da Saúde, uma newsletter sobre cardiologia preventiva. Ainda a mando de 15 em 15 dias, em português e em inglês, para milhares de pessoas. Se estas pessoas que a recebem a lerem e a enviarem nem que seja só para dez pessoas, há sempre cada vez mais pessoas informadas sobre os hábitos que devem ter. O problema hoje é que temos cada vez menos apoios e donativos, e era preciso para se fazerem ainda mais coisas, como por exemplo exames ao domicílio, para as pessoas que não podem deslocar-se..Sente que a cardiologia preventiva nunca foi bem tratada? Sinto, costumo dizer que não sei pedir. Julgo que aquilo que faço ajuda as pessoas, mas é preciso muito mais. A cardiologia nunca foi bem tratada pelo lado político..Li que o professor gostaria de viver até aos 120 anos saudável e bem-disposto... Depois de ler a Time tenho esperança de viver até aos 142 anos..É isso que mais deseja, viver muitos anos? O que mais desejo é estar vivo, com os olhos a ver, a cabeça a trabalhar e a continuar a fazer o que gosto. Sinto-me alimentado pelas coisas que vou fazendo. Passar na rua e toda a gente me conhecer, alguns até virem agradecer-me porque mudaram os seus hábitos de vida, é uma grande compensação. É o meu alimento. O doente melhorar é a melhor coisa que pode acontecer a um médico. Não é o dinheiro, é o doente, a pessoa a quem o médico está a dedicar-se, melhorar.