Podemos olhar para este thriller de várias maneiras. Perceber que está lá uma fórmula sóbria, mas bolorenta, de thriller de resgate, mas também não rejeitar o seu lado de mensagem cristã de evangelização. Sound of Freedom quer ser um panfleto de tal maneira que é lícito quase corroborar com os indícios de ser um objeto de propaganda QAnon, o tal movimento político de extrema-direita que veicula teorias de conspiração, entre as quais a de que Donald Trump está a lutar contra uma cabala de pedófilos liberais. O tema do filme é a denúncia das redes de venda de crianças à indústria da pedofilia, mas é sempre bom lembrar que os filmes não são melhores, nem piores, em função da sua temática e, mesmo como exercício de suspense, este título do estúdio cristão Angel tem problemas estruturais. Problemas de ritmo, problemas de ares de série B requentada..Como explicar as receitas astronómicas nos cinemas americanos? Talvez pela forma como o marketing da Angel Studios foi incisivo nas redes sociais para um público cristão que foi na cantiga do sermão: no genérico final há um apelo para o espectador comprar bilhetes via QR Code para a família e amigos. Um "boca-a-boca" agressivo e com uma mensagem online com técnicas de influência fortíssima..A história, supostamente muito verdadeira, segue as ações de um agente federal americano, Tim Ballard, que por conta própria foi para a América do Sul para tentar desmantelar uma rede de tráfico sexual de menores, em particular após ter salvado das garras de um pedófilo um menino das Honduras que lhe pede para resgatar a irmã, levada para um bordel na Colômbia e, mais tarde, para os confins da selva colombiana onde se torna o brinquedo sexual de um guerrilheiro rebelde..As ações de Tim, muitas vezes sem cobertura policial, levaram à captura um cartel de bandidos que fazia milhões com a transação sexual dos corpos de crianças raptadas. Como ele refere, "nenhum filho de Deus pode estar à venda". Uma frase que talvez tenha feito com que Mel Gibson se aliasse à produção de um filme que estava na gaveta da Fox desde 2018..Por muito nobre que seja alertar, sob a capa de entretenimento puro, para o flagelo do tráfico sexual infantil, Som da Liberdade sofre de uma gestão narrativa excessivamente suportada em manipulação emocional, em especial na forma pornográfica como se filma a dor das crianças (quase sempre em close-up...). A par disso, a presença de James Caviezel em modo de anjo perfeito enjoa a bem enjoar. O seu melhor momento de interpretação é quando o filme já terminou e aparece com a tal mensagem de peditório, muito emocionado, a jurar que é a comprar bilhetes para o filme que podemos agir contra este flagelo da pedofilia..Para lá do barulho da controvérsia da "culture war" a que se sujeitou, a seu favor, há uma certa solidez dramática que não é inteiramente desaproveitada. É caso para reconhecer que é um dos poucos casos em que não há espalhafato nas explosões ou perseguições..dnot@dn.pt