Ameaçada pela proximidade das forças russas e castigada pelos bombardeamentos aéreos, no início da invasão da Ucrânia, Kiev é, seis meses depois, uma cidade descomprimida que já se permite a exibição de troféus de guerra, mas também dos seus dilemas..Quando as forças russas começaram a abandonar, no final de março, as posições que mantinham às portas da capital ucraniana, para se concentrarem na frente do Donbass (no leste do país), a cidade recomeçou a sua vida, mas não totalmente onde a tinha deixado, adaptando-se à sua nova normalidade..Se há seis meses, cerca de metade da população, estimada em 3,5 milhões antes da invasão russa iniciada em 24 de fevereiro, se colocou em fuga, deixando para trás uma "cidade fantasma", hoje o cenário é radicalmente diferente..A maioria dos controlos militares foi removida, os transportes públicos voltaram a circular, o comércio reabriu, os trabalhadores regressaram às empresas, os espetáculos de ópera e de ballet estão de novo nos palcos, os restaurantes, bares e cafés enchem-se de clientes, entre manifestações patrióticas na forma de bandeiras nacionais e insultos ao Presidente russo, Vladimir Putin, e as discotecas vibram de música, mas só até às 23:00, hora de recolher obrigatório..Além das limitações de movimentos, entre o trauma dos primeiros dias de guerra e os receios de que ela volte a Kiev, o toque frequente das sirenes de alarme aéreo acaba por ser o sinal mais evidente para os seus habitantes de que esta continua a ser a capital de um país em guerra..Há poucos dias, Valentina Kurdyukova assistia a um espetáculo de uma banda filarmónica no Teatro da Ópera, quando este foi interrompido pelo alarme. "Mas os músicos continuaram a tocar nos abrigos canções patrióticas, tentando animar as pessoas. Este era o concerto em que queria estar, não queria outro, e vai ficar na minha memória como o concerto de uma vida"..Para a empresária de 34 anos, esta é também a "atmosfera espritual" que deseja absorver nestes tempos, entre "uma guerra terrível e cruel" e "também paradoxalmente bonita pela forma como une os ucranianos, levando-os a acreditar em si próprios, na Ucrânia e no Exército"..Para Valentyna, o regresso às rotinas, às salas de espetáculos, restaurantes e cafés é também uma forma de resistência. "Temos de viver com isto e não ceder. É isso que os russos querem: acabar com a nossa cultura, com a nossa língua, com a nossa nação. Então, tenho de assumir a minha responsabilidade e continuar a frequentar estes lugares, ser corajosa e prosseguir a minha vida"..Numa entrevista recente, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, disse que entende o desejo dos habitantes de Kiev de descomprimir após todo o sofrimento dos últimos meses. "Eles estão vivos, querem ter a sensação de que a vida continua e não se pode ficar deprimido a toda a hora. E é ótimo para a economia"..Ao mesmo tempo, entende a incredulidade de habitantes de outras regiões do país, onde a guerra continua a ser travada com intensidade: "Eles olham para Kiev e dizem: 'Como é que se pode ficar sentado nos cafés quando as pessoas estão a morrer aqui?' Eles também estão certos", prosseguiu Zelensky, acrescentando: "As atitudes são diferentes, e ambas estão corretas de certa forma"..Para Valentyna, esse é um sentimento de culpa que não deseja assumir, porque sair de casa e praticar os seus 'hobbies' é algo que a faz sentir "viva e saudável" face ao abalo psicológico que carrega desde 24 de fevereiro e nada lhe garante que os russos tenham desistido da capital ucraniana.."Não é preciso que seja em Kiev para sentir os acontecimentos da guerra como se tivessem ocorrido aqui", comenta, dando o exemplo do bombardeamento, na quarta-feira, da estação ferroviária de Dnipropetrovsk, que provocou pelo menos 25 mortos, entre os quais dois menores. "Sofremos por cada canto deste país, porque estamos unidos e conhecemos gente em toda a parte"..Como forma de combater a fadiga de guerra e elevar a motivação da população Kiev, as autoridades locais colocaram na rua Khreshchatyk, uma das principais da cidade, dezenas de blindados e viaturas militares russas destruídos pelo Exército ucraniano, numa parada militar alternativa visando o dia da independência nacional, assinalado na mesma quarta-feira em que Dnipropetrovsk foi atacada..Esta rua, que atravessa a praça que testemunhou a Revolução Laranja, em 2003 e 2004, e os protestos do Euromaidan, dez anos mais tarde, era um deserto quase completo após a invasão russa, com todo o comércio encerrado, e os únicos vestígios de vida apenas podiam ser encontrados num controlo militar, entretanto removido, e num pequeno grupo de voluntários a encher sacos de areia, quando Kiev era uma "cidade fortaleza"..Bohran, um produtor de cinema de 19 anos, era um dos voluntários e, quando questionado pela Lusa, nos primeiros dias de março, se algum dia os russos ultrapassariam aqueles sacos de areia, pediu tempo para pensar e apenas respondeu: "Vamos dar o nosso melhor".."Olhem para eles agora", afirma em desafio, seis meses depois, no mesmo local, outro Bohran, contemplando a exibição de carros russos destruídos. "Isto significa que a Rússia não conseguiu fazer nada, mesmo sendo o segundo exército do mundo, mais os seus tanques. Agora estão vazios, morreram todos, e pelo menos estes já não podem fazer nada", prossegue o estudante de 20 anos, proveniente de Kharkiv, uma das cidades mais fustigadas pela guerra na Ucrânia, falando junto de um jardim que assinala com pequenas bandeiras nacionais os nomes dos "ucranianos e estrangeiros mortos por Putin" nesta "estúpida guerra"..Ao longo da extensa e monumental rua Khreshchatyk, estão exibidos grandes blindados, como o MSTA-C ou Akacia, T-72 e T-90, 'Grads' (lança-'rockets', carros de assalto, viaturas de comunicações, de transporte, destruídos em várias regiões do país, e quase todos carbonizados, pairando um cheiro persistente de ferro queimado..O estado de algumas destas viaturas denuncia o que lhes aconteceu. A torre de um blindado foi arrancada por um tiro de artilharia, que se encontra exposta ao lado da carcaça do que restou do veículo, outro ficou com a dianteira desfeita, outros ainda, poucos, estão quase intactos. Mas todos foram agora tomados pelos ucranianos, que deixam pintadas inscrições nos veículos destruídos com os nomes das cidades atingidas pela guerra.."Diziam que iam tomar Kiev em três dias e seriam recebidos com flores. Afinal, chegaram ao centro de Kiev, mas com nuances", ironiza Oksana Joahannessen, uma fotógrafa de 38 anos, que não tem dúvidas sobre o efeito positivo desta exposição: "Isto faz-nos acreditar ainda mais no exército ucraniano e aliviar um pouco do 'stress' do dia-a-dia e do sobressalto das sirenes de alarme aéreo"..No que era uma rua de ausentes, as viaturas russas chamam agora milhares de ucranianos, alguns deles envoltos em bandeiras nacionais, levando crianças pela mão, antes do regresso às aulas, previsto para 1 de setembro.."É uma grande exposição e um bom exemplo da coragem da Ucrânia e dos seus soldados e as pessoas estão a gostar. Elas vivem as suas vidas normais e pacíficas, mas também precisam ver que isto não acabou e é preciso força", comenta Aliakessandri Apeikin, 35 anos, um bielorrusso que se apresenta, ao contrário do Presidente do seu país, Aleksandr Lukashenko, aliado de Moscovo, "um amigo da Ucrânia", onde é voluntário na recolha de donativos para o Exército..E é nele sobretudo que pensa Sasha, 21 anos: "Temos um inimigo poderoso e as pessoas estão unidas, cansadas mas os nossos soldados estarão muito mais do que nós e agora podemos ver os resultados". O estudante de engenharia até se esforça por manifestar pesar pelos russos que morreram naqueles carros de combate, mas este sentimento equilibra-se logo a seguir.."Nós não pedimos esta guerra. Eles também atacaram as nossas cidades e matam ucranianos, incluindo mulheres e crianças", afirma, à sombra da sede do município de Kiev, de arquitetura estalinista, onde um cartaz enorme exige, em inglês, "Libertem os defensores de Mariupol", numa alusão aos militares ucranianos detidos pelos russos ao fim de vários meses de resistência do complexo siderúrgico de Azovstal.."Continuamos a acreditar que vamos ganhar, mas vai demorar mais tempo do que pensávamos", afirma ainda o estudante. "O próximo inverno vai ser duro. Venha o que vier, estamos prontos".