Ibéria de José Saramago é uma utopia indesejada

Diário espanhol analisou ideia de união ibérica

A polémica ideia de uma união política entre Portugal e Espanha, defendida há uma semana pelo escritor José Saramago nas páginas do DN, é vista pela generalidade das fontes ouvidas pelo jornal espanhol El País como uma utopia não desejada.

Encimada por uma ilustração de André Carrilho, sob o título "Ibéria, capital Lisboa", a página 2 do jornal publicou uma reportagem em que as fontes portuguesas reconhecem a influência e o peso da presença espanhola - mas "mais não faz falta".

"Os portugueses já não odeiam nem olham os espanhóis com o rancor e os preconceitos de outros tempos (...) e, ainda que a sua economia dependa em grande medida do comércio com Espanha e adorem ir à Zara ou ao Corte Inglês, antes mortos que renunciar à pátria ou à bandeira para se converterem numa comunidade autónoma e fundirem-se num país de 55 milhões de habitantes chamado Ibéria", concluiu o seu correspondente em Portugal, Miguel Mora.

Miguel Á. Villena, autor do artigo da página 3 com o título "Quatro séculos de costas" e que inclui o retrato do conde-duque de Olivares pintado por Velásquez, afirmou que as fontes espanholas "defendem apaixonadamente" a "necessidade de uma relação cultural mais intensa", "uma mais ampla presença da história e cultura dos dois países nos sistemas educativos de um e de outro lado da antiga raia, de um orgulho comum por Cervantes ou Camões, por Eça de Queirós ou Benito Pérez Galdós".

Para Villena, "nem todos os espanhóis que dedicaram a sua vida ao estreitamento dos laços entre os dois vizinhos peninsulares se mostram favoráveis a uma união política. 'É uma utopia porque, com os dois países na UE, podemos dar como quase concretizada essa união. Em qualquer caso, creio que uma união política não é possível nem desejável'", disse Basílio Losada, catedrático de Filologia Galega e Portuguesa.

Segundo o deputado socialista João Soares, "o sentimento ibérico sempre existiu, mas uma união é impossível. O povo português tem um nacionalismo profundo e, se a Espanha tentasse integrar-nos, viriam à superfície todos os preconceitos anti-espanhóis."

Para Ramón Villares, especialista da História portuguesa na Universidade de Santiago de Compostela, "há que considerar que Portugal se construiu sobre uma hiperidentidade nacional que inclui um enorme receio de Espanha, ou, melhor dito, de Castela. (...) Em suma, o debate de Saramago é interessante, mas há que vê-lo com muita calma".

D. Duarte, herdeiro da monarquia lusa, frisou estar-se perante "mais uma fantasia de Saramago", mas a escritora Inês Pedrosa reagiu com humor: "Temo que tenham diminuído as vendas dos livros do mestre."

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