"Vero amor delle lettere"

A forma das letras pode transportar-nos para épocas diferentes, mesmo quando não se lê o significado do texto. Esta é uma breve (muito breve) história de como a forma, por vezes, se sobrepõe à fonética.

Se há máxima que melhor traduz um dos objetos que mais admiro no mundo do design é esta: o meu verdadeiro amor pelas letras.

Gosto de olhar para as formas e descobrir o que elas me dizem. Não falo das formas fonéticas, aquelas que todos identificamos. Um "A" é um "A" e pode ter variados sons, mas é um "A", significa um "A". Os sons do alfabeto são o elemento que nos liga, que nos une no mundo, pois é essa a grande característica deste nosso alfabeto: cada símbolo é um fonema.

Mas um "A" não é um " A " e muito menos um "A" é um "A".

Refiro-me às formas! As mesmas formas a que Giambattista Bodoni se refere no seu Manuale Tipografico dizendo que "a beleza dos textos reside na letra. E assenta em quatro virtudes fundamentais: regularidade, nitidez, bom gosto e graça".

Independentemente do que isto queira dizer, pois não estamos numa aula de História, o facto é que todos nós, mais ou menos conhecedores, conseguimos encontrar uma definição para estas quatro palavras no contexto da construção de um texto.
Divertido também é escrever sobre a construção de um texto, quando na verdade, falo na combinação de letras, em que as palavras, as frases, tudo, é irrelevante. Escrever sobre texto, no caso deste texto, é falar sobre a forma das letras, e isso é divertidíssimo! Pelo menos para mim...

No início do século XX, com a Arte Nova, as letras ganham toda uma nova dimensão! Não só se admitia um desenho mais livre, mais orgânico, como estas formas, as tais que todas juntas formam palavras e frases, foram elemento central do arranjo gráfico de um objeto de design gráfico de enorme importância: o cartaz! Sim, esse mesmo, o de papel colado nas paredes. Autênticas obras de arte, nem que seja pelo facto de terem sido assinados por pintores como Alphonse Muncha e Henri de Toulouse-Lautrec. A letra, a forma da letra, ganha uma nova dimensão nesta época, que, digo eu, é aqui que a letra ganha a importância da forma, quando a forma vai para além do significado fonético. É aqui que a letra ganha a dimensão do significado, mas na sua forma e nos arranjos visuais a partir das suas formas.

Cada letra, melhor, cada forma, tem o poder de nos projetar para uma época, para um contexto, e isto sem ler o texto!
As caligráficas inglesas conseguem-no, as funcionalistas dos anos 1950 como a famosíssima Helvetica também o fazem, as blackletters então atiram-nos diretos para a Idade Média!
Divertido também é olhar para o cruzamento das épocas com a criação de determinados tipos.

Nos anos 1930, por exemplo o jornal Times, encomenda uma letra, a Times, uma das mais belas letras com serifa, e ainda hoje a utiliza. Na mesma década surge a escola que ainda hoje é uma referência, apesar da sua duração curta: a Bauhaus. Fruto do experimentalismo emanado pelo estilo Bauhaus, surgem os primeiros alfabetos sem maiúsculas e outros completamente geométricos, frios, direitos, duros, uma alternativa aos com serifa.

Nos anos 1950 a Helvetica! Essa mesmo. A mais usada de todos os tempos. A que todos usam e bem. A que foi copiada pela Microsoft, cuja "cópia" tem o nome de Arial. Tudo fruto do open source e dos direitos de autor, mas isso dava um texto novo com muito, mas mesmo muito menos interesse.

Entramos nos 80 e com o advento informático nunca foi tão fácil criar tipos de letra e, melhor ainda, nunca foi tão fácil difundi-los, passá-los, vendê-los e mostrá-los. Foi também a partir daqui que surgem movimentos tipográficos como a Emigre, uma espécie de coletivo que explorava formas tipográficas digitais, dando ao mundo um sem-fim de possibilidades.

Nos anos 1990, com a democratização do computador pessoal, surge o fenómeno Comic Sans! Sim, essa mesmo. E pasmem-se, aquilo até faz sentido! Não como nós a usamos agora, claro. Este tipo de letra foi desenhado por Vincent Connare e não tinha como objetivo substituir os tipos de letra habitualmente usados em texto. Não!!! A letra foi desenhada para resolver um problema de comunicação no Microsoft Bob, uma plataforma da Microsoft anterior ao Windows 95. A história é simples, este software tinha um cão chamado Rover que "falava" com os utilizadores através de uns balões de banda desenhada com texto em Times New Roman. E convenhamos, balões em Times? Não fazia sentido. Não fazia, não! Não faz.

Connare afirma ainda que não havia a intenção de incluir este tipo de letra noutras aplicações. Mas foi. E olhem no que deu! Admito que muitas vezes é melhor usar a Comic Sans em vez da Times. E com este argumento o Windows 95 lá ganhou um tipo de letra no seu sistema que ainda hoje nos persegue. Pelo menos a mim! Se muitas vezes é melhor usar um tipo de letra como a Comic Sans, acreditem que não estamos a falar de currículos! Nem de propostas de emprego. Nem de coisas sérias tão-pouco.

E pensar que este advento da letra impressa começou com um fulano numa garagem, muito ao estilo das garagens onde a Google, a Apple, a Microsoft e outras começaram. Gutenberg nos meados do século XV, também teve a destreza empreendedora destes colegas digitais. Pois adaptou um sistema mecânico de impressão, o do chinês Bi Sheng, e veio assim revolucionar o mundo.

Carlos Rosa, doutorado em Design, é diretor do IADE desde julho de 2017. É também designer independente e consultor, tendo sido galardoado pelo Centro Português de Design com o Prémio Nacional de Design. Integrou a shortlist de galardoados para o prémio internacional Design Research Award atribuído pelo International Institute of Information Design, e foi considerado "Ícone de Design" pela revista Computer Arts. Escreveu para o Observador e para o Público, agora escreve e ilustra para o Diário de Notícias.

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