SEA3PO. "O que está em causa é a liberdade de nos inspirarmos nas imagens dos outros"

Chama-se Catarina Lowndes mas é conhecida por Sea3PO. Tem 800 mil subscritores no YouTube, 345 mil seguidores no Instagram e acaba de lançar um single que já soma 1,1 milhões de visualizações. É ativista contra o Artigo 13º e explica ao DN porquê.

Quando foi conhecida a intenção da União Europeia de regular os direitos de autor na internet, que ficou conhecida como o artigo 13º, Catarina Lowndes, ou seja SEA3PO, foi uma das youtubers que se manifestaram. Fez um vídeo em que parodia o que aconteceria no seu canal caso não pudesse mostrar nem falar de outras referências (como músicas, imagens ou marcas), e defende que o YouTube já tem um sistema de copyright. Esta entrevista foi feita por e-mail e ficou uma pergunta por responder "por motivos legais e contratuais": se recebe royalties por direitos de autor.

Sente uma grande responsabilidade por ser um ídolo juvenil?

Sim. O facto de ter tantos seguidores, e que estão a atravessar uma fase fulcral no seu crescimento, leva-me a pensar e a analisar os temas que exploro e a linguagem e a abordagem que assumo.

Preocupa-se com o tipo de conteúdos que disponibiliza?

Claro. E com a forma como os exponho. Assumo a minha personalidade, mas abordo todas as temáticas com cuidado, pensando que é importante que quem me segue perceba que não temos de encaixar num molde para podermos ser bem-sucedidos.

Há temas que não aborda?

Abordo assuntos com os quais me relaciono e em que acredito. Tento não partilhar demasiado a minha vida privada e familiar, até porque acredito que é importante viver o momento sem partilhar constantemente nas redes sociais.

O que para si está em causa com o artigo 13.º?

É uma questão complicada devido à falta de clareza em relação às implicações do artigo 13º. Eu percebo o artigo, compreendo a sua importância e concordo com o seu conceito, mas não com a forma como é atualmente proposto.

"A internet não é completamente livre, razão por que existe a deep web. Fico feliz que não seja totalmente livre, porque isso implica que existam regras, regulamentos e condições que fazem da internet um espaço mais seguro"

É muito importante recorrer a imagens, sons, textos de outros autores? Sente que se não o fizer o seu trabalho fica limitado?

Para mim não é o uso das imagens de outras pessoas que está em causa, mas sim a liberdade de nos inspirarmos nelas. A maioria do conteúdo que utilizo é livre de royalties porque o YouTube já é bastante rígido com questões de direitos de autor. Não estou a falar de plágio, até porque nunca faria um upload de uma música de um artista alegando que era minha, por exemplo, mas se fizer um vídeo que a integre, porque sou fã do próprio, ou porque me senti inspirada, ou até se quiser produzir um meme, deveria ter liberdade para me expressar.

Acredita mesmo que a internet é um espaço de liberdade?

A internet não é completamente livre, por isso existe a deep web. Fico feliz que não seja totalmente livre, porque isso implica que existam regras, regulamentos e condições que fazem da internet um espaço mais seguro, um pouco à semelhança da realidade, na qual não podemos fazer determinado tipo de coisas, porque são ilegais.

Sente-se livre?

Depende da perspetiva. Sou livre para fazer o que quero, mas todos temos de nos conformar até certo ponto para podermos viver e conviver em sociedade. Ainda assim, sinto que sou livre de acreditar no que quero e de questionar as minhas crenças, e isso para mim é muito importante.

Tem 28 anos. O que significa para si o 25 de Abril? Como aprendeu? Lembra-se da importância da data a 25 de Abril todos os anos?

Foi um marco importante para a nossa sociedade. Aprendi em casa e na escola, e é uma data pela qual tenho um imenso respeito, pelas consequências relacionadas com a vertente político-social do país, o vincar da democracia e a nossa liberdade. Assim como tenho uma profunda consideração por quem deu a cara por esta conquista pelo nosso país. Acredito que devemos ser livres para ser quem somos e lutar pelos nossos sonhos, sem medos.

"Quando os vídeos são demasiado produzidos, parecem falsos. Não temos de encaixar num molde para podermos ser bem-sucedidos"

Há alguém na sua equipa que veja os vídeos antes de serem difundidos?

Sim, tenho dois elementos que veem os meus vídeos, por forma a evitar falhas na edição e eventuais gafes no meu discurso, mas os conteúdos são sempre produzidos por mim.

Algum teve de ser mudado por causa do conteúdo?

Não, até hoje nenhum. Creio que isso se deve em parte ao cuidado que tenho quando estou a produzir os meus conteúdos, e também graças ao apoio da equipa que me acompanha.

O livro Como Ser Um Unicórnio [ed. Manuscrito] aborda, através de uma história, uma questão que afeta muitas crianças, o bullying. No final deixa uma mensagem de esperança. Contar esta história faz passar melhor a mensagem?

Sem dúvida que sim. O livro foi uma evolução muito orgânica, e uma forma muito natural de contar uma história que representa uma realidade tão atual e tão transversal a tantas gerações.

Porque decidiu escrever um livro?

Decidi escrever esta história porque também fui vítima de bullying, e senti que era necessário falar da minha experiência de forma sincera e positiva.

Estudou Antropologia Cultural e foi na tese que se interessou pelos vídeos e pelo YouTube. Lembra-se o que a fascinou na altura?

Havia um canal no YouTube que eu adorava, de uma rapariga chamada Michelle Phan, que fazia tutoriais de beleza. O que a distinguia era o facto de os tutoriais não serem muito normais, mas sim histórias incríveis que me faziam sentir bonita. Sempre achei que era fantástica a forma como os vídeos podiam tocar uma pessoa a quilómetros e quilómetros de distância.

Fez o curso de realização de cinema e agora no canal YouTube faz vídeos caseiros, aparentemente simples. Esta simplicidade é muito trabalhada?

Quando falamos de YouTube, muitas vezes a prioridade é quantidade, e isso significa uma qualidade reduzida. No entanto, não acho que isso seja uma coisa má, porque penso que uma qualidade um pouco menor é importante porque é mais realista.

Quando os vídeos são demasiado produzidos, parecem falsos e difíceis de relacionar. Eu não quero perder a minha ligação com a minha comunidade.

Qual a diferença entre a Catarina aluna de cinema e a Sea?

Honestamente, sinto que sou a mesma. Continuo a ser uma nerd de filmes de terror que prefere ficar em casa a ver filmes em vez de ir a festas, continuo a aprender a falar japonês e a querer fazer as pessoas felizes.

Também foi ghost writer de cantores e tem agora um primeiro tema em nome próprio, Player 2 [Warner Music]. O que representa esta entrada no mundo da música?

Eu já estive numa banda no passado e sempre amei o universo da música. Esta entrada mais oficial representa mais um passo no realizar deste sonho.

Canta em inglês e gravou o videoclip em Tóquio. Gostaria de ser uma artista internacional?

Canto em inglês porque estudei e vivi nos EUA e acabo por escrever mais facilmente nessa língua. Em relação a ser internacional, adoraria, mas a verdade é que o meu foco, para já, é o lançamento do meu álbum no mercado nacional.

É portuguesa e brasileira, estudou nos EUA, fala com muitas palavras em inglês e é apaixonada pela cultura japonesa. Como vê a cultura nos próximos vinte anos? As culturas nacionais vão diluir-se?

Vivemos num mundo onde todos os dias as fronteiras estão a desaparecer, as culturas se fundem e novas aventuras e oportunidades surgem. Vivemos um momento muito entusiasmante.

BIO

Catarina Lowndes

É a maior youtuber feminina portuguesa, com 800 mil subscritores do seu canal online. Tem 28 anos, estudou realização de cinema na Universidade de Tampa, nos EUA. Já foi digital marketing manager e vocalista de uma banda. Usa o nome artístico de Sea3PO, misturando a alusão ao mar com a personagem C3PO do Star Wars. Editou um livro infantil, Como Ser Um Unicórnio.