O fenómeno Cosplay: vestir a pele dos super-heróis

Não basta roupa, acessórios e maquilhagem. O cosplay implica assumir personalidades e maneirismos, numa tentativa de escapismo e fuga à rotina. Cinco cosplayers portugueses explicam os meandros de uma arte que ainda é vista com preconceito pela sociedade e recordam histórias insólitas de um fenómeno cultural nascido nos EUA e ampliado pelo Japão, e que tem crescido por cá nos últimos anos.

Quem é que não gostaria de poder conduzir o batmobile do Batman ou conseguir voar, como o Super-Homem?», questiona Pedro Simões, enquanto encolhe os ombros. Sempre que pode, veste a pele deste último. É assim há meia década. É sob a forma de uma pergunta retórica que o analista de dados de 35 anos tenta explicar o fenómeno do cosplay, a arte de encarnar uma personagem da ficção ou figura da vida real, recriando não só o seu visual como a sua personalidade e maneirismos. Um universo onde cabe um pouco de tudo - da banda desenhada ao anime e manga, passando por videojogos, séries e filmes. A única regra é o costume (fantasia) play (interpretação), os dois termos ingleses que batizam a atividade. A febre está amplamente espalhada mundo fora nos dias de hoje, mas nem sempre foi assim.

Foi no Japão, nos anos 1980, que este fenómeno cultural ganhou raízes e expressão, apoiado na crescente popularidade da animação nipónica.



A sua origem remonta ao final da década de 1930, quando um casal de apaixonados por ficção científica replicou os visuais de personagens do filme A Vida Futura, de William Cameron Menzies, na primeira Worldcon, uma convenção de ficção científica e fantasia em Nova Iorque. Mas foi no Japão, nos anos 1980, que este fenómeno cultural ganhou raízes e expressão, apoiado na crescente popularidade da animação nipónica. Daí para os quatro cantos do mundo foi um salto. Em Portugal, esta prática só começou a ganhar expressão nos últimos anos, a reboque da chegada da Comic Con até nós. Mas há duas décadas que cosplayers portugueses se juntam em encontros, para partilhar uma paixão comum e, acima de tudo, dar asas à liberdade.


"Muitos utilizam o cosplay para fugir um pouco dos seus problemas. É um hobby em que podem explorar a sua criatividade e distanciar-se da vida profissional, familiar, amorosa. Outros utilizam o cosplay como forma de fugir à rotina do trabalho e poderem divertir-se", explica Leonor Grácias, uma das primeiras a fazê-lo no nosso país, e também uma das mais conhecidas. Tem quase 30 anos. A última metade dedicada a esta arte. "Fazia parte do pessoal que era posto de parte, por não gostar do que era considerado normal. Depois, passamos a procurar personagens que nos ajudem a encontrar os nossos traços de personalidade, que nos ajudem a perceber quem somos", acrescenta a fundadora da Associação Nacional da Arte do Cosplay.

Ser um super-herói ou um vilão, com todo o poder platónico que vem implícito, pode também fortalecer a personalidade destes cosplayers. Que o diga Leonel Alves, que veste a pele do vilão Venom nas convenções. "Num nível mais profundo, o cosplay pode servir como uma catarse psicológica e empurrar-nos para uma perspetiva de vida mais autoconfiante, ao mesmo tempo que nos tira da zona de conforto e incita a quebrar barreiras", ressalva o empresário de Tomar. Tem 36 anos e vive a vida de outros há quase duas décadas. No ano passado, venceu o prémio Heróis do Cosplay na Comic Con, pela interpretação do seu antagonista preferido.


Rita Ladeira, de 29 anos, partilha o favoritismo pelos vilões, nomeadamente do mundo de Batman. À superfície, os mais desinformados poderão associar e assemelhar o cosplay a eventos como o Carnaval e o Halloween, mas as diferenças são bem claras, como explica a fotógrafa alfacinha, que gosta de vestir a pele das "versões diferentes" da Harley Quinn e de Ash Williams, do filme de terror Evil Dead, que tem uma "personalidade direta, bruta e desbocada" como ela própria.

"Cosplay implica todo o envolvimento e amor por um personagem, desde o planeamento, encontrar o fato, peruca, a maquilhagem certa, a construção de acessórios, algo que pode demorar anos a aperfeiçoar. Não é ir a uma loja comprar uma máscara barata que depois será deitada no lixo. É um bocadinho de nós", explica Rita Ladeira, cosplayer há cinco anos. Uma das paredes do seu quarto está totalmente forrada com posters dos vilões de Batman e mantém a cor de cabelo verde em homenagem a Joker. "Assim, tenho um pouco dele sempre presente", conta.

Ainda que decalcar a personalidade de quem se veste a pele seja fundamental, o visual é fulcral quando se fala em cosplay.

O trabalho é detalhado e longo e pode oscilar em termos orçamentais, dependendo da ocasião e do investimento de cada um. No caso de Ágata Rodrigues, de 24 anos, a paixão por vestir a pele de outros "surgiu logo em criança", mas é nos dias de hoje que a jovem da Maia vê frutos deste interesse. "Motiva-me a sensação de realização a nível artístico. Sendo eu designer de comunicação, levo o cosplay como uma parte do meu trabalho, em que posso criar algo diferente e mostrá-lo ao mundo para ser apreciado", conta. Ágata, que interpreta habitualmente a versão de Esquadrão Suicida de Harley Quinn.



A maioria dos cosplayers portugueses, contam os próprios, fazem os seus próprios fatos, parcial ou totalmente, até porque o cosplay assenta, por norma, numa lógica do it yourself. Para o autodidata Leonel Alves, foi assim que aconteceu. "Comecei por fazer vilões do Homem-Aranha com pele de látex e silicone, depois passei para os fatos com músculo [enchimento] por baixo. Não tirei nenhum curso, fui aprendendo e melhorando com os erros e sugestões de amigos e de colegas", explica o empresário.

Sobre os visuais que levam a eventos como a Comic Con, este grupo de cosplayers, que se reúne regularmente em encontros, fala em valores ecléticos. Quanto aos mais baratos, alguns fixam-nos nos 20 euros, outros nos 60. Os mais caros chegam aos quatro dígitos. Há quem fale em "mais de mil euros" e até em "dois mil euros".


Pedro Simões, um Super-Homem de Almada nas horas vagas, explica que muitos conseguem ganhar algum dinheiro com a venda de fatos feitos por si. "Há casos de quem foi premiado pela qualidade dos seus fatos, tendo conseguido, com isso, afirmar-se nesta arte e ganhar projeção. Há quem tenha um negócio próprio de criação de fatos e acessórios e os venda para o estrangeiro. Não se limitam a ser cosplayers", explica.

A sociedade ainda olha com preconceito para o cosplay

Mesmo com o crescimento recente do cosplay em Portugal, ainda existem ideias predefinidas em relação a quem o pratica, associando a atividade a uma espécie de síndrome de Peter Pan. "A vida de um cosplayer por cá tem extremos. Há quem aprecie o trabalho, mas ainda há muitas mentes fechadas, que acham que quem faz cosplay simplesmente não cresceu. Não vive no mundo real. E é triste", conta Ágata Rodrigues.

Leonor Grácias, que se apaixonou por este mundo dos "desenhos animados que passavam na televisão, na década de 1990", conta que sentiu discriminação na pele, por ser "uma cosplayer antiga". "O preconceito só acontece porque há falta de informação correta. Infelizmente, não é só a sociedade que, por vezes, nos acha um bando de miúdos mascarados. Entidades que usam cosplayers para eventos e familiares são os primeiros a apontar-nos o dedo e a associação [que criou] tem tentado combater essa negatividade", explica a jovem que já venceu "mais de 50 prémios". Para ajudar a informar sobre esta arte, acaba de lançar o Manual de Cosplay, o primeiro livro do género a ser lançado por cá. Conta com dicas práticas para iniciantes mas também aborda a história deste fenómeno. "Sei que [a obra] irá valorizar o trabalho de muitos cosplayers portugueses", frisa a jovem, que ajudou a organizar a Comic Con Portugal nas primeiras três edições.

Na verdade, não faltam histórias insólitas nas suas participações em iniciativas de cosplay. "Uma vez, conheci um Batman alternativo, que usava um visor LED na sua máscara e que sentia choques sempre que lhe escorria o suor da testa para as sobrancelhas, por causa do calor", conta Pedro Simões



Apesar de tudo, não se pode olhar para esta atividade da mesma forma como se olhava há uma década. "Basta ver os números de visitantes em eventos. A cada ano, superam o recorde da edição anterior. O público já começa a reconhecer que, para além do entretenimento, há uma componente muito criativa e artística no cosplay, vivida de forma dedicada e perfeccionista por nós", acrescenta Pedro Simões, que já fez parar o trânsito em Paris, ao atravessar uma passadeira, durante a Comic Con da capital francesa. "Os condutores perguntavam-me porque não voava em vez de caminhar", ri-se.

Na verdade, não faltam histórias insólitas nas suas participações em iniciativas de cosplay. "Uma vez, conheci um Batman alternativo, que usava um visor LED na sua máscara e que sentia choques sempre que lhe escorria o suor da testa para as sobrancelhas, por causa do calor", conta Pedro Simões. Já Leonel Alves ainda hoje se lembra das "centenas de pessoas que fizeram fila" na Comic Con de Londres para tirar uma fotografia consigo vestido como Venom, como se de uma estrela da pop ou da sétima arte se tratasse. «Foi uma experiência intensa e fiquei exausto, mas foram dias inesquecíveis», relembra. Afinal, já se sabe, quem corre por gosto...

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