Dez músicas em que se canta a vida no Reino Unido

É incontornável. A música criada nas Ilhas Britânicas influencia a cultura ocidental desde os anos 50 do século passado. Independentemente do estilo, muitas das canções são imagens cantadas de épocas da sociedade do Reino Unido.

PENNY LANE (1957), THE BEATLES


A quantidade de drogas que na época ingeriam coloca a maioria das letras de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band no limiar do percetível para os comuns (ou saudáveis) mortais. Ainda assim, discreta entre as músicas do que é considerado um dos melhores discos dos Beatles, Penny Lane passa como uma das melhores descrições da vida em Inglaterra, ou Liverpool no caso em particular. Penny Lane é nome de bairro, mas também de rua na cidade natal do quarteto mais famoso do mundo. Tinha um "barbeiro com fotografias de todas as cabeças que teve o prazer de conhecer", que fazia toda a gente "parar e dizer olá", tinha um banqueiro com quem as crianças troçavam, um bombeiro com fotografias da rainha no bolso. Era a vida "debaixo dos azuis céus suburbanos" de Liverpool, cantada pelos seus habitantes mais famosos.

WATERLOO SUNSET (1967), THE KINKS


Um rio velho e sujo, pessoas tão ocupadas que provocam tonturas e luzes de táxis demasiado brilhantes seriam, à partida, um cenário pouco aprazível. Mas a magia dos Kinks e de Ray Davies, vocalista e autor da música, imortalizaram-nas no cancioneiro britânico. Inspirada nas caminhadas do músico pela zona, quando em jovem rumava à escola e, mais tarde, nas caminhadas com a mulher ao longo das margens do Tamisa, a história do casal que se encontra na estação de Waterloo fez de Waterloo Sunset um dos grandes clássicos da banda. Mais direta a letra não podia ser: "Desde que olhe para o pôr do Sol em Waterloo estou no paraíso." Quanto ao casal apaixonado? "Milhões de pessoas a circular como moscas à volta do metro de Waterloo/ Terry e Julie atravessam o rio onde se sentem seguros/ e não precisam de amigos/ desde que olhem para o pôr do Sol de Waterloo estão no paraíso."

GOD SAVE THE QUEEN (1977), SEX PISTOLS


1977 foi o ano do 25.º aniversário do reinado da rainha Isabel II. Não menos importante, foi também o ano da explosão do punk, primeiro em Inglaterra, depois no mundo. Foi também o ano em que os Sex Pistols se afirmaram definitivamente como os porta-estandartes do movimento musical mais espinhoso da história e muito graças a Nevermind the Bollocks. E ao single não faltou polémica. Primeiro porque God Save the Queen foi banida da BBC, depois porque muitos acharam que a paragem na segunda posição das tabelas de vendas tinha sido forçada oficialmente. O ponto alto aconteceu no dia das comemorações oficiais. Para promover o disco, a banda alugou um barco com o nome da monarca e lançou-se ao rio. Ao largo do Parlamento britânico tocaram Anarchy in the UK, ao largo de Westminster correu pior: quando tentaram tocar God Save the Queen, a polícia cercou o barco, cortou-lhe a eletricidade e forçou a atracagem. Na margem, a banda escapou à prisão. Richard Bronson, fundador da Virgin, que assinara o aluguer do barco, nem por isso.

ENGLISHMAN IN NEW YORK (1988), STING


A música levou-o a trocar Inglaterra por Nova Iorque, mas nem por isso a adaptação foi fácil. Os Police tinham ficado para trás, a carreira a solo só estava a começar e a solidão apertou. Anos mais tarde, Sting haveria de lembrar que nessa altura as manhãs de sábado eram passadas entre os conterrâneos, em pubs, a ver as transmissões do futebol inglês e a matar saudades da cerveja inglesa. Para a música a nostalgia também passou. Em Nothing Like the Sun, o segundo disco a solo, Englishman in New York destaca-se. Na música supostamente inspirada na história de Quentin Crisp, escritor britânico que anos antes fizera a mesma viagem, ficamos a saber que um inglês não bebe café, mas chá; que um cavalheiro anda mas nunca corre e que, em caso de dúvida, as raízes britânicas evidenciam-se na pronúncia ao falar ou quando se caminha de bengala na Quinta Avenida.

PARKLIFE (1994), BLUR


Serve de palco a concertos, tem história de protestos civis, tem lago, campos de ténis e pista de equitação, em Londres o Hyde Park é um dos pontos de paragem obrigatória, tanto para locais como para turistas. Foi dessa tradição que nasceu o nome do disco e do primeiro single da carreira dos Blur, Parklife. "É sobre a classe dos parques: dos homens do lixo aos pombos e aos corredores. Coisas que víamos todos os dias no caminho para o estúdio. No fundo, um resumo de tudo o que os Blur representavam: diversão e fazer o que nos apetece", contou Graham Coxon, guitarrista da banda, ao The Guardian. Tal como o disco, o single tornou-se um sucesso em Inglaterra e serviu de alicerce para o lançamento de uma das maiores bandas britânicas das últimas décadas.

THIS IS ENGLAND (1985), THE CLASH


É a única música de que o mundo guardou memória do sexto e último disco dos Clash. This Is England também foi o último single da banda, mas mais do que isso revelou-se um fiel retrato do país a meio da década de 80. Joe Strummer, vocalista, é autor da letra da música em que as raízes punk da banda já mal se ouvem. A crise na indústria britânica é retratada com a "sombra negra" na linha de montagem da Triumph, é lembrada a guerra das Falklands onde "não se via glória", há referência à crescente violência racial perante a "polícia sentada a olhar" e nem falta um refrão cantado ao jeito de um cântico de futebol. Ao longo da carreira, os Clash abanaram o Casbah, nunca resolveram o dilema entre ficar ou ir e nunca ninguém esqueceu o chamamento por Londres, à despedida poucos ligaram, mas ficou o punk mais dançante que Inglaterra alguma vez ouviu.

GHOST TOWN (1981), THE SPECIALS


Os anos 80 não foram uma década fácil em Inglaterra e os Specials estavam numa posição privilegiada para o contar. Nome grande do movimento de ska, género nascido do reggae, estavam em palco para assistir ao advento do movimento skinhead britânico em todas as suas vertentes - os da direita racista e os da esquerda anarquista - e aos inevitáveis confrontos. Escrita a partir de Londres, onde a banda vivia (em Tottenham), a cidade em causa é Coventry. Na letra está a violência que marcava a noite britânica em 1981 - "Esta cidade está a transformar-se numa cidade fantasma/ todos os clubes foram fechados/ este lugar (cidade) está ficar uma cidade fantasma/ as bandas não tocam mais/ demasiadas lutas na pista de dança" -, mas também a crise financeira - "Não se encontra emprego neste país/ Não dá para continuar mais/ As pessoas estão a ficar zangadas" - que assolava o Reino Unido nos primeiros anos de Margaret Thatcher. Talvez por ser certeira, chegou a número um das tabelas britânicas.

LET ENGLAND SHAKE (2011), PJ HARVEY


Em 2010, PJ Harvey temia que o sangue dos britânicos não voltasse a ferver. O "Ocidente dorme/deixem Inglaterra tremer", cantava Harvey antes de lamentar o fim dos "dias dançantes" do seu país. Com o extra de ter apresentado a música num programa em que o então primeiro-ministro também estava, na faixa seguinte do disco Harvey deixa uma ode a Inglaterra, The Last Living Rose. "Europeus chatos/ levem-me de volta para a bela Inglaterra", começa por dizer antes de manifestar até a vontade de ver "o nevoeiro por cima das montanhas", de passear por "becos malcheirosos ao som de uma banda sonora de espancamentos" e de ver "o anoitecer no rio". Vontade de ver agitação, aversão a europeus e capacidade de encontrar conforto em cenários sombrios? Mais britânico é impossível.

GOODBYE ENLAND (2010), LAURA MARLING


Aos 28 anos, Marling já tem seis discos no currículo e, mesmo que ainda não tenha conseguido o salto definitivo para as grandes plateias, há muito que arrasta consigo um considerável número de fãs. Resultado do Brit Award ganho com o disco de estreia ou das sucessivas nomeações para os prémios Mercury? Talvez, mas seguramente por se ter tornado uma das melhores vozes da folk britânica. Em Goodbye England (Covered in Snow), single do seu segundo disco, Marling transforma um passeio com o pai para declarar o seu amor a Inglaterra e manifestar as saudades que sentia nas digressões que então começavam a tornar-se mais intensas. "Quero ficar por aqui, para sempre, no frio/ Posso ter frio, mas eu sou só pele e osso/ e nunca gosto mais de Inglaterra do que quando está coberta de neve."

IRISH BLOOD, ENGLISH HEART (2004), MORRISSEY


Filho de pais irlandeses, em 2004 Morrisey gabava-se do sangue irlandês, enquanto assumia o coração inglês, país onde nasceu. No entanto, se o homem-forte dos Smiths nunca foi conhecido pelo bom feitio, também não é aqui que contradiz a sua reputação. Em Irish, Blood, English Heart, o maior sucesso a solo, o tom é de ataque. Morrissey canta as saudades que tem do tempo em que ser inglês não trazia mal ao mundo, em que não envergonhava estar ao lado da bandeira; avisa que todos estão fartos dos partidos e apela mesmo a que se cuspa no nome de Oliver Cromwell (líder político e militar do século XVII, acusado de promover massacres religiosos) e que se renuncie à linhagem da coroa que "sempre" o saudará.

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