A língua incorrupta e outras relíquias de Santo António em Pádua

Foi a caminho de Pádua que Fernando de Bulhões morreu a 13 de junho de 1231 e é lá que estão os seus restos. A começar pela língua, que segundo a lenda estava intacta 32 anos após a morte, dá nome a uma festa comemorada em fevereiro, e está exposta na basílica daquele que na cidade é conhecido como Il Santo.

Quando o caixão foi aberto viram algo de estranho na caveira: uma porção de carne com aspeto vermelho e fresco. Era a língua do santo, que foi encontrada perfeitamente preservada. Nesse momento, o chefe geral dos franciscanos, Bonaventure de Bagnoregio, que viria a ser também santificado, expressou a sua alegria e surpresa com palavras que foram incorporadas na oração da festa de 15 de fevereiro (a festa da língua): "Oh língua bendita, sempre louvaste o Senhor e levaste outros a adorá-lo! Agora vemos claramente quão grande foi o teu valor perante Deus"."

Frisando que "a língua é uma das partes mais frágeis do corpo", e que "é das primeiras a decompor-se", este franciscano, que dirigiu a Basílica de 2005 até à sua morte, em 2016, interpreta aquilo que crê um milagre

A descrição é da autoria de Enzo Poiana, então reitor da Basílica de Santo António em Pádua, numa entrevista em 2013, quando a cidade italiana celebrou os 750 anos da exumação de Fernando de Bulhões, aliás Santo António, e da descoberta da sua "língua milagrosa".

Frisando que "a língua é uma das partes mais frágeis do corpo", e que "é das primeiras a decompor-se", este franciscano, que dirigiu a Basílica de 2005 até à sua morte, em 2016, interpreta aquilo que crê um milagre: "Ao preservar a língua de Santo António do apodrecimento, Deus mostrou-nos que aprovou a missão dele e em particular a sua pregação, que ele levava a cabo através da língua e das cordas vocais."

A exumação terá ocorrido a 8 de abril de 1263, 32 anos após a morte do lisboeta Fernando de Bulhões, e ocorreu porque o corpo daquele que entretanto, e num tempo recorde até hoje inigualado - menos de um ano -, fora, a 30 de maio de 1232, proclamado santo pelo Papa Gregório IX estava sepultado numa pequena igreja (Santa Maria Mater Domine, ou Mãe de Deus) e entretanto fora construída uma basílica em sua honra - que terá sido completada pelo ano 1310 - para onde ia ser transladado.

A língua, assim como uma parte da queixada e do braço esquerdo, foi logo ali retirada para ser exibida em relicário; também uma parte da pele e do cabelo teriam o mesmo destino e um pedaço de um pé. O resto dos restos foi colocado num sarcófago de mármore, em sacos de seda escarlate bordada a ouro: um com os ossos, outro com as vísceras e outro com o hábito castanho de franciscano. O relicário original da queixada, datado de 1349, foi doado à basílica em 1350; a língua foi colocada num "tabernáculo" à parte, protegida por vidro.

É a data da colocação da língua no relicário e em exibição que é celebrada em Pádua na "festa da língua", que inclui procissão e cuja data é 15 de fevereiro, e não a da sua "descoberta", que foi em abril; a cidade dedica assim dois dias festivos ao santo, já que assinala também o 13 de junho - numa celebração que decorre ao longo de 13 dias, desde 31 de maio, e que é crismada de Tredicina (de 13 dias) e que atrai anualmente dezenas de milhares de peregrinos.

Um inventário de 1396 atesta que o relicário da queixada era já o que hoje está em exibição: construído como um busto, de prata e pedras preciosas, com a queixada colocada no local da boca; o rosto teria uma "máscara" amovível de prata que permitiria tapar e destapar a relíquia (essa máscara terá desaparecido rapidamente, sendo substituída mais tarde por outra; hoje, a queixada está protegida por uma "montra" convexa de material transparente).

Parte da ossada do braço esquerdo estava também incluída na peça; ao longo dos anos, porém, pedaços desses ossos foram sendo retirados para oferta (incluindo os que estão no museu antoniano em Lisboa, parte de um osso de um dedo e de um braço, oferecidos à cidade em 1968) e em 1672 o que restava foi colocado em relicários à parte.

Hoje, as relíquias de Santo António que ficaram em Pádua, e que serão visitadas anualmente por cerca de cinco milhões de pessoas, o que faz do templo um dos mais visitados da religião católica, estão em exibição na Capela do Tesouro da basílica, numa capela barroca construída no final do século XVII. Além da língua e da queixada, estão expostos uma parte do pé, pele e cabelo, e ainda as cordas vocais (retiradas do sarcófago em 1981, quando este foi aberto e os restos examinados por cientistas).

A língua roubada e o pão do santo

A história da língua de Il Santo, ou o Santo, como é referido Santo António na cidade mas também a sua basílica - que hoje, de acordo com as descrições, se assemelha a uma pedra escura e já correu mundo, tendo em 2013 feito um tour pelos EUA e depois pelo Sudeste Asiático -, inclui ainda um episódio bizarro, narrado pelo cronista franciscano Bartolomeu de Pisa (frade dominicano biógrafo de Francisco de Assis e cuja morte terá ocorrido em 1347). Este conta que um alto frade franciscano quis roubá-la, mas não conseguindo sair com ela da basílica a escondeu num altar. Teria revelado a sua localização a outro frade que por sua vez só no seu leito de morte, 34 anos depois dos factos, violaria o segredo. Esta segunda descoberta da relíquia foi igualmente considerada "um grande milagre".

"Milagres", aliás, de acordo com o que é proclamado, é o que não falta ao lisboeta. Além de um alegado tocar dos sinos em Pádua e Lisboa, "sem que ninguém os tangesse", no momento da sua morte, um dos mais celebrados é o que deu origem à tradição do "pão do santo", e que terá ocorrido em 1263, precisamente o ano em que foi exumado. Diz respeito a uma criança, que daria pelo nome de Tommasino e teria 20 meses, a qual, conforme as versões, se terá afogado num recipiente em casa ou num ribeiro.

A mãe teria pedido a Santo António que o ressuscitasse, prometendo que se assim fosse ofereceria o peso do filho em pão aos pobres. A criança voltou à vida e ela cumpriu a promessa; terá aí começado na cidade a tradição do "pão de Santo António", oferecido aos pobres em "pagamento" de favores concedidos pelo santo, e que ainda hoje faz parte das celebrações de Santo António, com cestos de pão a serem distribuídos após a missa nos dias que o celebram.

Sendo Fernando de Bulhões considerado um intelectual do seu tempo, admirado pela sua oratória e conhecimentos e um pregador dedicado à conversão - daí vem um dos seus cognomes ou alcunhas, a de "martelo dos heréticos", não deixa de ser curioso que a sua popularidade esteja sobretudo ligada a histórias de prodígios e a folclore. E que a sua ligação a Itália - e a Pádua - tenha sobrevindo, de acordo com o que é relatado, por acidentes: no primeiro caso, devido a uma tempestade que levou para as costas da Sicília a embarcação em que seguia de Marrocos, para onde se havia deslocado como missionário, a caminho de Lisboa; no segundo, porque Fernando de Bulhões, já sob o nome religioso de António, terá pregado tanto no norte de Itália como no sul de França, e só esteve na zona de Pádua no final da vida.

Terá, por exemplo, fundado a primeira escola da Ordem de Francisco de Assis (que conhecera na cidade do seu nome) em Bolonha; foi nomeado Custódio dos Frades Menores na região francesa de Limoges e em 1227 Superior Maior da província de Romagna (que correspondia a todo o norte da atual Itália), cargo que teria exercido até 1230. Só nesse ano terá seguido para Pádua, onde andaria a pregar nas igrejas da região até se acoitar, doente, no castelo de Camposampiero, a cerca de 25 quilómetros da cidade. Diz a lenda que sentindo-se mal durante uma refeição pediu para ser levado para Pádua, mas não chegou lá: morreu em Arcella, hoje um subúrbio de Pádua, num convento de freiras.

Este artigo foi originalmente publicado na edição do DN de 11 de junho de 2019

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