"Olha, foi mais uma que morreu"

Entrevista a Carla Maia de Almeida, autora do livro "Em Nome da Filha".

"Pelo menos no meu tempo não terei a sorte de assistir a isso." "Isso" é o fim da violência doméstica, questão que a jornalista e escritora Carla Maia de Almeida retrata no livro Em Nome da Filha. Uma reportagem com mais de uma centena de páginas em que desfilam dezenas de casos de agressões a mulheres, desde crianças até bem adultas. O mais difícil não foi encontrar mulheres nesta situação: "É difícil ouvir, desgravar, ler, reler, sublinhar e depois escrever. Comovi-me muito ao escrever, no entanto não há ponta de lamechice neste trabalho", explica.

Esta questão está na ordem do dia. Foi o que a fez despertar para o problema?

Em parte sim, mas a família é um dos meus temas literários - para não dizer que é o tema. Quis compreender os comportamentos, as motivações, as repercussões e alguns meandros que existem por trás das famílias disfuncionais. O que se sabe sobre a violência doméstica é realmente pouco. Sabemos dos casos pelos jornais, rádio, televisão, mas muito na perspetiva do efeito de choque, não da compreensão do fenómeno. Isto gera um efeito perverso, que é de não irmos além da superfície. Acabamos por nos cansar e desligamos, "Olha, foi mais uma que morreu!"

Foi difícil a recolha dos depoimentos?

Não tive dificuldade nos contactos, porque garanti anonimato e o nome da Fundação Francisco Manuel dos Santos é sinónimo de credibilidade. Mas foi difícil ouvir, desgravar, ler, reler, sublinhar e depois escrever. Comovi-me muito ao escrever, mas creio que não há ponta de lamechice neste trabalho.

Como se explica que após uma revolução nos alegados brandos costumes nas últimas quatro décadas esta violência se mantenha na ordem do dia?

Não acredito nessa teoria dos costumes. Somos um povo ameno e pacífico, mas no que diz respeito aos costumes podemos ser muito truculentos, porque é preciso pensar nos séculos que antecedem essas "últimas quatro décadas" que refere. A violência, aqui como no resto do mundo, está na ordem do dia, e exerce-se contra os mais fracos: mulheres e crianças. O último relatório da Organi- zação Mundial da Saúde diz que uma em cada três mulheres vai ser vítima de agressões físicas, psicológicas e sexuais pelo simples facto de ser mulher. Tenho a certeza de que se todos tentássemos perceber o que é a violência doméstica, estaríamos mais atentos. A prevenção é fundamental.

Os portugueses foram surpreendidos com a violência no namoro...

Foram surpreendidos pelos dados da investigação quanto à violência no namoro, porque esta sempre existiu. Nota--se, por um lado, uma embriaguez do poder por parte dos rapazes, imitando os piores exemplos que veem no mundo e, por outro, uma falta de rede de apoio para as raparigas terem consciência de que nada disto "é normal" e aceitável. Para ambos, os dados revelam manifesta incompreensão do que é uma relação afetiva plena e sadia, na qual ferir o outro, conscientemente, é intolerável.

Do que viu e ouviu, será possível ultrapassar-se a passividade que decorre da violência psicológica contínua?

Do que vi e ouvi, os relatos são coincidentes: a violência psicológica chega a ser mais marcante do que a violência física. Há palavras e ações que têm um efeito devastador na psique humana, especialmente quando praticadas de uma forma sistemática e ritualizada. É claro que, quando há agressão física, a violência psicológica está inerente, é o desrespeito pelo corpo do outro, pela totalidade do seu ser. Mas a violência psicológica ocupa um espaço tremendo no esquema mental e emocional da vítima. É insidiosa e muito destrutiva.

Refere a perpetuação do ciclo da agressão. Será contrariado pelos jovens?

Uma coisa é o ciclo da agressão numa relação conjugal, que obedece a um comportamento mais ou menos padronizado. Outra é o perpetuar da visão distorcida das relações de intimidade, em que há sempre dominador e dominado, e a violência torna-se admissível. Desde logo, porque não é assim entendida!

Chocou-a ter de usar a palavra "puta" tantas vezes nesta narrativa?

Chocou-me em que sentido? "Puta" é um dos insultos mais frequentes nos casos de violência relacional, não só entre adultos como entre adolescentes. Reproduzi o que ouvi, dentro de um contexto e de um enquadramento. Numa reportagem sobre violência doméstica seria um absurdo usar floreados.

O atual papel da comunicação social e das redes sociais está a destruir os mitos da misoginia ou é complacente?

A misoginia não é um mito, é uma realidade bem inculcada que se manifesta de mil e uma maneiras. Desde o comentário de café que rebaixa as mulheres, "as gajas que são isto ou aquilo", até aos casamentos impostos a meninas de 11 anos ou às vinganças "de honra" que permitem a um homem atirar ácido sulfúrico para a cara de uma mulher, sem que daí venha mal ao mundo.

Ainda se pode acusar a Igreja de colaborar no encobrimento destas práticas ou é só em relação à família?

As mentalidades são sempre o mais difícil de mudar, e na sociedade portuguesa essas duas instituições têm um peso enorme. Para a maior parte das pessoas, quando a violência doméstica lhes bate à porta, o sentimento predominante ainda é a vergonha. Mais do que acusar, temos de ouvir e agir.

Uma situação que foca é o da repercussão nos filhos. Não é muito ignorado?

A violência doméstica em que as vítimas são as crianças e os adolescentes daria tema para outra reportagem.

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