"O cuidar do outro devia ser mais reconhecido na sociedade"

Ângelo Valente é animador sociocultural no Centro comunitário da Gafanha do Carmo

O animador sociocultural Ângelo Valente diz que os portugueses estão a começar a gostar mais de si próprios, mas o país ainda tem um longo caminho a percorrer. "Gostava muito de ver as melhores pessoas do país nos cargos de decisão. A política é uma carreira tão agressiva que afasta os bons."

Na lousa que segura nas mãos exibe o seu lema de vida: multiplicar a felicidade, dividindo-a. É assim desde sempre. Ângelo Valente, de 34 anos, nasceu com lábio leporino e fenda do palato, uma má formação que o obrigou a ser submetido a mais de 20 intervenções cirúrgicas até aos 19 anos. Por ser diferente, sofreu bullying e ainda hoje passa por episódios difíceis, mas aprendeu a aceitar-se exatamente como é. É um distribuidor de alegria. Era assim na escola, nos hospitais por onde passou e é assim agora junto dos idosos com os quais trabalha. "De certa forma, a minha postura sempre foi diferente, quer pela espontaneidade, quer pela alegria, quer pela preocupação em tornar o ambiente melhor."

Há cerca de sete anos que trabalha no Centro Comunitário da Gafanha do Carmo. Tem o curso técnico-profissional de animação sociocultural e, ao lado de Sofia Nunes, gerontóloga, fez que o centro se tornasse provavelmente na instituição de apoio aos idosos mais mediática do país. Fazem vídeos com milhares de visualizações, distribuem abraços, realizam sonhos. Tornaram-se um modelo que é seguido em Portugal e lá fora. O segredo? "O amor. Esta é muito mais do que uma ideia romântica. Aqui, aceitamos as pessoas como elas são e gostamos muito delas. Quando isso acontece, elas transformam-se."

Para o país melhorar, defende que tem de valorizar aquilo que as pessoas são capazes de fazer. "Infelizmente, o trabalho em Portugal é pouco prestigiante", lamenta. Refere-se, por exemplo, à profissão do cuidador. "Trabalhamos num sítio onde as pessoas ganham o ordenado mínimo para tomar conta do outro, que devia ser algo mais reconhecido na sociedade, porque é das coisas mais prestigiantes da função humana." Vivemos numa sociedade onde "auxiliares de saúde, de geriatria e enfermeiros vivem em condições salariais mínimas", mas não se refere apenas às remunerações. "Antes de sermos mediáticos, dizíamos que trabalhávamos num lar de idosos e a reação era: "Oh, coitadinhos." Agora "toda a gente quer trabalhar aqui".

Não lhe faltam ideias para o país, mas há uma que considera essencial: "Os portugueses têm de gostar mais de si próprios." Se isso acontecer, acredita que tudo vai correr melhor. "Até já estamos a começar a fazê-lo", muito graças às vitórias no Europeu de futebol e na Eurovisão e ao turismo. "Foi preciso os turistas virem para cá e dizerem que a nossa terra é incrível para nós despertarmos para o facto de que ela é incrível." Acredita que estamos melhor desde que a troika saiu, precisamente porque as pessoas gostam mais de si mesmas, mas há um longo caminho a percorrer. "Gostava muito de ver as melhores pessoas do país nos cargos de decisão. A política é uma carreira tão agressiva que afasta os bons."
Com todas as qualidades e o potencial que o país tem, Ângelo acredita que pode muito bem transformar-se na Florida da Europa. "Temos um dos melhores climas para envelhecer: o inverno não é rigoroso e o verão também não." Por isso, sugere, é preciso trabalhar "os 800 quilómetros de costa portuguesa" para chamar os reformados estrangeiros.

É apaixonado pelo país, pelo trabalho, pelo surf, pela sua terra. "Praia da Vagueira, a melhor praia do mundo." Os olhos brilham e o sorriso rasga-se quando fala da sobrinha. É um homem de emoções. "São a nossa principal ferramenta." Todos os dias, das 09.00 às 10.00, Ângelo e Sofia ligam o computador na sala de estar e cantam com "a família" que formaram com os utentes. O resultado - os sorrisos - está à vista de todos. Mas não basta querer. Nos workshops e conferências que dão pelo país perguntam-lhes como se faz. "Não há uma regra. Não podemos dizer que devem chegar à sala e dizer "olá" com um ar feliz. Se não sentires, não vale a pena fazeres isto noutro sítio."

Quem entra no Centro percebe, desde logo, que aquele é um sítio bom para envelhecer. Mas será assim no resto do país? "Moro num sítio onde em cinco minutos estou num hospital, mas já trabalhei num sítio onde demorava duas horas a chegar e onde esse hospital foi fechado. Vi velhinhos que morreram por causa disso", conta. Por isso, "gostava que as oportunidades fossem iguais para todos".

Recentemente, Ângelo visitou um lar em Oiã que acolheu uma família de refugiados. "A integração daquelas pessoas foi super inspiradora". Erradamente, lamenta, a sociedade associa "energias muito negativas aos refugiados", sem se lembrar de que "fugiram de coisas muito mais terríveis do que aquelas que levaram uma parte da população de Portugal a fugir".

Há cerca de um mês, Ângelo tornou-se, a título voluntário, responsável pela comunicação do Beira-Mar. É um "comunicador nato", mas diz que não corresponde aos "padrões de comunicação". Quando o mediatismo começou, chegou a ser afastado de entrevistas televisivas "por não falar bem" e, mais recentemente, foi legendado num programa. "É como teres uma bola à tua volta: tu és diferente." Portugal não será "dos piores países do mundo a lidar com a diferença", mas "os padrões ainda estão muito marcados".

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