"O Benfica tratou mal um símbolo do clube e tentou tapar buracos"

Segunda parte da entrevista de verão a Nelson Évora

Na próxima segunda-feira, Nelson Évora estará a competir em Londres para se tornar campeão do mundo. Recuperou a forma física e psíquica, revalidou o título de campeão europeu indoor. Assegura que, como sempre, lutará pelas medalhas, de preferência o ouro. Irá continuar a lutar até 2020, para competir nos Jogos Olímpicos de Tóquio, altura em que pondera deixar as pistas de atletismo. No futuro, mais depressa se vê com "uma mulher maravilhosa e três filhos" do que como treinador.

Está há quase um ano em Espanha. O que mudou a nível de treinos?

Posso dizer que sou uma pessoa sortuda. Não queria usar esta expressão outra vez, mas tenho de o fazer. Acabei por trabalhar com um dos atletas que era meu ídolo de criança - que passei madrugadas a ver saltar, vi milhares de saltos dele -, que é o Ivan Pedroso. Passou a ser o meu treinador, mas também um amigo, com quem partilho parte da sua experiência como atleta e treinador, o que está a ser muito enriquecedor para mim. Talvez eu precisasse deste lado para um dia mais tarde dar a outros esse conhecimento.

E a nível das rotinas?

A rotina de um atleta não muda muito.

Como é uma disciplina técnica, os treinos poderiam ser diferentes.

Sim, são duas escolas completamente diferentes. O professor João Ganço tem uma linha muito própria, bebeu muito da escola russa no que é a metodologia de treino. O Ivan foi atleta da escola cubana, que foi alimentada de início por métodos russos, mas como têm características genéticas completamente diferentes, seguiu outro caminho. Os atletas cubanos seguiram uma filosofia diferente, mais ligada à performance instantânea e sempre presente. A metodologia russa tem meses muito pesados de treino, grandes volumes de treino. A linha do Ivan tem pequenos pormenores da escola cubana, é preciso estar hoje bem, amanhã e sempre.

Uma progressão mais contínua.

Sim, acredita-se que há que construir, mas não se pode destruir para depois construir, porque não há nada melhor do que as nossas capacidades.

Está no seu pico de forma?

Estou em muito boa forma, estou feliz, o que é o mais importante. Estou em muito bom momento de forma e, acima de tudo, tranquilo para desfrutar este mundial e, se possível, dar mais uma grande alegria ao povo português.

E já disse que "treina com Ferraris".

Esse comentário foi malvisto, mas a realidade é que trabalho com Ferraris. Tenho uma colega de treino que mede 1,93 e que salta 14,80 todos os dias, um tempo que é sempre para medalha olímpica ou campeonatos do mundo e europeu. Outra que ganhou a medalha de prata no Campeonato de Europa de sub-23. Um colega dois anos mais novo do que eu e que foi medalha de bronze e de prata em campeonatos do mundo ficou atrás de mim em Berlim no campeonato do mundo. E tenho um treinador que foi nove vezes campeão do mundo e saltou mais de nove metros, bateu o recorde do mundo, que só não foi válido por questões políticas. Diga-me lá?

Entretanto, revalidou o título de campeão europeu indoor. E agora?

Agora vem o Campeonato do Mundo, os Ferraris são outros, por isso há que estar pronto para dar resposta.

O que é que podemos esperar?

Vou sempre para as medalhas, de preferência de ouro. Luto sempre pelas medalhas, desde os 7 anos. Contra a estatística, mais uma vez, que até me bloqueiam a entrada em meetings internacionais, contra a ciência, contra tudo, lá estarei para comprovar o contrário.

Foi um cubano, Pichardo, que o Benfica contratou para o substituir. É o seu grande rival em Portugal?

Querem dizer que ele é o meu rival, mas o meu principal rival sou eu. Como pode imaginar, tenho 26 anos de atletismo e não posso falar do meu rival. Se existisse um atleta que tivesse começado quando eu e continuado a competir ao mais alto nível, poderia dizer: "É o rival da minha carreira." Pichard é mais um, outros vieram e eu cá continuo. Respeito-o enquanto atleta e pessoa e é dentro da pista que temos de mostrar o que valemos. Existe esta rivalidade Benfica-Sporting, mas isso é para fanáticos; para mim, ele é apenas mais um.

Rivalidade que se agudizou quando trocou o vermelho pelo verde, com cada um dos clubes a tentar contratar atletas do outro. Sentiu isso?

Não. O que aconteceu aconteceu e não me vou prolongar mais sobre isso. O Benfica tratou mal um símbolo do clube e tentou tapar buracos a qualquer custo. Tenho pena de que o estejam a fazer porque existem valores. Não estou a falar do clube, mas de uma pessoa, mas cada um faz o que sabe e o que pode.

Pode concretizar?

Passei os momentos mais importantes da minha carreira no Benfica, sou um atleta formado no Benfica e que foi campeão olímpico [2008, em Pequim]. Podemos ter muitos campeões olímpicos comprados, mas sendo eu da formação e ter atingido o que atingi, era um símbolo do clube. Não se deixa um símbolo fugir da forma como aconteceu. Tenho muitos bons momentos no Benfica, mas vivi esse momento com grande tristeza, não ser tratado como achava que devia ter sido. Por isso, falei em tentar tapar buracos a qualquer custo.

Na sua página do Facebook, também na do Comité Olímpico, ainda aparece como benfiquista. Quererá dizer que a ida para o Sporting é só um interregno até regressar ao clube do coração?

Só demonstra que esses órgãos trabalham de uma forma muito lenta. Na minha própria credencial em competições mundiais aparece uma foto do Benfica. Não me cabe a mim ligar para mudarem a minha situação como atleta. É só um aparte engraçado.

Pensa terminar a carreira no Sporting?

Quero terminar a minha carreira no Sporting. Estou a ver as coisas de um outro ângulo, a conhecer um clube que, não vou mentir, passei a carreira a ver ganhar. O Sporting sempre foi campeão e tinha o professor Moniz Pereira como o chefe máximo das modalidades. Estou feliz nesta família e surpreendido pela positiva com a grande organização e preocupação para com os atletas, são tratados como seres humanos. Tenho esse elogio a fazer, ao presidente e a todos os que estão abaixo dele.

Li que tem piores condições de treino em Espanha do que tinha em Portugal.

Isso não tem nada a ver com o Sporting. O meu treinador é um cubano que vive em Espanha, em Guadalajara, tive de mudar de treinador e vivo em Espanha. As condições são piores, não vou mentir, treino ao frio. Existe a preocupação da Federação, através da minha bolsa do Comité Olímpico, em dar condições para desenvolver o meu trabalho, mas a realidade é que sinto que grande parte do que ajudei a construir com a minha carreira não vou poder usufruir, tive de emigrar. Mas acredito que foi este o caminho que tinha de seguir e talvez seja o é que preciso para fazer o que ainda tenho na minha mente.

Saiu por questões económicas, disse que "acima de tudo era profissional"?

Falou-se muito das questões económicas, não vou mentir, estou a ganhar muito mais [ri-se]. Para os que ficam com inveja disso, sim, estou a ganhar muito mais do que quando estava no Benfica. Mas não é o dinheiro que me move e posso dizer-lhe uma coisa: fiz mais dinheiro quando estive lesionado, em 2012-2013 do que enquanto atleta. Tenho mais tempo para trabalhar, para aceitar propostas de marketing e de publicidade. Tenho propostas de milhares de euros, mas para não chegar cinco minutos mais tarde, por saber que vai influenciar o meu trabalho, não ganho esse dinheiro. O meu trabalho está em primeiro lugar. Sou atleta. O dinheiro nunca foi uma prioridade para mim. A questão Benfica-Sporting nunca foi monetária, as pessoas podem duvidar, mas o que pensam para mim é igual, durmo da mesma forma, estou de consciência tranquila. Os que mais pensam em dinheiro são os que menos ganham nesta vida. Os que pensam na essência das coisas, em fazer as coisas bem, são os mais bem-sucedidos, mais felizes e são recompensados.

Quantas competições ganhou?

É impossível saber, compito desde os 7 anos.

Tem prevista uma data em que deixará a carreira? A meta são os JO de Tóquio?

Os próximos Jogos Olímpicos são o meu objetivo, não penso em mais um dia depois disso, pensarei no momento. Mas, em princípio, Tóquio será o final da minha carreira. Assim o penso, mas nunca sabemos o que vem depois, as coisas nunca são como planeámos. Em Espanha, há uma atleta, a Ruth Beitia, que chegou a fazer uma competição de despedida, voltou a treinar e foi aí que atingiu o pico de forma, em quatro anos ganhou tudo o que tinha para ganhar. Prefiro levar este ciclo olímpico passo a passo para que possa lá chegar na melhor forma mas, para já, são os campeonatos mundiais.

Parece estar nos seus horizontes ser treinador?

Não, passar um pouco do meu legado não quer dizer que tenha de ser treinador. Não ponho de parte, mas não é algo que tenha em mente como sendo óbvio. Um atleta que atingiu tanto tem a obrigação de dar o seu contributo. Evitam-se muitos problemas para as novas gerações, dando exemplos e que não são exemplos teóricos. O que se aprende nas universidades é tudo teoria, na prática as coisas são diferentes. Por isso, os melhores treinadores do mundo não foram feitos nas universidades, mas pela sua grande experiência.

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