Rapaz Lérias: "Estamos a recuperar o que não ficou no contrato"

O contra-almirante Rapaz Lérias é administrador da Arsenal do Alfeite, SA

Engenheiro construtor naval, Rui Manuel Rapaz Lérias integrou a primeira equipa do programa dos submarinos. Saiu em 2004 como chefe da missão, tendo recusado acompanhar a construção na Alemanha "por opção de vida e familiar".

Está no projeto dos submarinos desde os anos 1990. Que balanço faz?

Temos duas fases distintas. A do concurso, que decorreu até 2004, com a assinatura do contrato e que correu com toda a normalidade. Depois houve o processo de construção de seis anos, até 2010, quando veio o primeiro (o segundo em 2011). Houve uma fase de garantia de três anos, mas entraram logo em exploração operacional.

A sustentação ficou assegurada?

Os submarinos precisam de ser mantidos, reparados quando avariam, e esse processo pode ser mais ou menos tratado na fase de aquisição. Se o fizermos numa altura em que ainda não decidimos a compra, estamos numa posição negocial melhor do que depois de os termos comprado e pago.

Foi o que aconteceu...

Foi, de certa maneira. Não conheço em pormenor o contrato porque me desliguei do programa meses antes da assinatura, em 2004... estamos agora a conseguir transferência de tecnologia e recuperar algum conhecimento, que não foi possível concretizar no contrato de aquisição. Conseguimos alguns aspetos do apoio logístico ao longo do ciclo de vida, temos sobressalentes, algumas ferramentas... houve aspetos que não foram conseguidos ao nível do conhecimento, apesar de termos tido gente a receber formação, do Arsenal e da Marinha.

Vários ficaram na Alemanha...

Não sei dizer em concreto quantos funcionários ficaram na Alemanha, mas não será mais que um par de pessoas. Na Marinha também houve alguns oficiais que hoje estão a trabalhar para a TKMS, a empresa proprietária da fábrica que construiu os submarinos.

Eles correspondem às especificações e objetivos pretendidos?

Sem dúvida, supera inclusivamente a expectativa da Marinha quando fez as especificações, as últimas na primeira metade da década de 1990. Quando este programa foi considerado na LPM, ainda falámos em milhões de contos, e a ideia que tenho é que falávamos de três submarinos por cem milhões de contos... 500 milhões de euros. Mas isso foi há quase 30 anos. Julgo que o preço pago [mil milhões de euros] foi, face ao valor dos submarinos, muito interessante. Também contribuiu o facto de estes serem de alguma forma um protótipo, que mais nenhuma Marinha tem.

Teriam de ter estas características e ser tão caros como foram?

Há um aspeto que é o da segurança e da navegabilidade. Em tempo de paz, o submarino é muito útil para operar à cota periscópica (10, 15 metros abaixo do nível do mar). Com os mastros de fora, pode fazer vigilância e detetar sem ser detetado... aí sentem-se as condições de mar. Temos um mar que, na nossa costa, na nossa Zona Económica Exclusiva e de extensão da plataforma continental, é relativamente revolto e agitado. Por isso precisamos de submarinos com determinada dimensão e não quase de bolso, como têm os países nórdicos e que funcionam em zonas abrigadas. Portanto, dificilmente iríamos para um submarino mais pequeno. Diria que a solução é equilibrada, porque consegue conjugar muito bem a sua qualidade e o seu desempenho operacional com um preço relativamente razoável, face ao mercado e aos valores que se conhecem.

Leu o livro Submarinos.pt, do ex-deputado José Magalhães?

Não li, não li... vi extratos no jornal mas não me interessei, até porque na altura estava a correr um processo judicial sobre isso e fui testemunha. Prestei as declarações que tinha de prestar, disponibilizei a informação que tinha.

Diz-se que guarda segredos. Se os revelasse, que consequências haveria?

Não é verdade. Escrevi tudo o que sabia e por isso é que me chamaram para confirmar o que estava nos papéis... tem a minha assinatura e ficou tudo escrito. Aquilo que sabia de facto ficou tudo escrito. Tinha um papel de negociador e técnico-económico, de avaliar se o que estávamos a obter em termos de desempenho operacional era razoável para o preço que estávamos a pagar. E o que escrevi foi precisamente essa análise.

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