Pistolas desviadas da PSP foram apanhadas em Espanha

Suspeitas de tráfico internacional de armas estão também a ser investigadas. A PSP perdeu o rasto a mais de 50 Glocks

O pior receio em relação ao desaparecimento das, pelo menos, 50 pistolas Glock que estavam guardadas na Direção Nacional da PSP - o quartel-general na Penha de França, começa a consolidar-se: pode estar envolvida uma rede de tráfico internacional de armas que contou com a cumplicidade de agentes desta polícia.

Na semana passada, as autoridades espanholas comunicaram à PSP que tinham apreendido a suspeitos detidos, numa operação policial, três pistolas Glock com a inscrição "Forças de Segurança", a mesma que está gravada nas armas utilizadas pela PSP, GNR e SEF. Foi confirmado que pertenciam ao lote das armas desaparecidas da Direção Nacional, adensando a apreensão da hierarquia em relação à dimensão e aos efeitos deste desvio que já levou à suspensão preventiva de dois agentes.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) confirmou ao DN a abertura de um inquérito, sem adiantar detalhes, por se encontrar "em segredo de justiça". O impacto do caso é agravado pelo facto de ser a PSP a força de segurança que tem a competência exclusiva para todos o controlo, licenciamento e fiscalização de armas no nosso país.

O Ministério Público (MP), no entanto, deu um voto de confiança e delegou na própria PSP a investigação, mas a Direção desta polícia já tinha instaurado processos disciplinares aos dois agentes responsáveis pelo armeiro e pelo registo e controlo das armas, tendo suspendido ambos preventivamente. Caso seja confirmado o crime de tráfico internacional a investigação poderá ter de ser alargada à Polícia Judiciária, que tem competência exclusiva de investigação desta categoria de criminalidade.

A investigação está a ser executada por uma equipa especial, liderada por um chefe que tem histórico em operações e investigações que têm como suspeitos elementos da própria PSP. O processo foi desencadeado quando, no final de janeiro último, numa operação de rotina no bairro da Pasteleira, no Porto, foi apreendida a um dos suspeitos uma pistola Glock, com a mesma inscrição das que são utilizadas pelos polícias - "Forças de Segurança". O suspeito de tráfico de droga era um civil de 21 anos, residente no bairro. Na operação foram também apreendidas 24 munições da Glock (9 mm) e quatro carregadores.

Consultado o registo interno de armas da PSP foi verificado que o número de série daquela Glock fazia parte do lote que estava no quartel-general da PSP. Já receando o pior cenário, a Direção da PSP ainda despistou a possibilidade de se tratar de um erro de registo, daquela arma ter sido perdida e o seu "dono" não o ter comunicado.

Foi dada uma ordem a todos os comandos para que fizessem uma verificação pessoal e presencial de todas as armas distribuídas. Cada polícia teve que apresentar a sua pistola para que o número de série fosse confirmado com o número do seu crachat. A medida foi designada "conciliação de registo" ou "conferência de material". Cerca de 20 mil dos 21 mil agentes da PSP têm esta arma e, segundo fontes da força de segurança, ainda estava a decorrer esta semana.

O departamento de "apoio geral" também foi alvo dessa conferência e foi aí que se constatou que, pelo menos, 50 pistolas tinham desaparecido. Pelo menos porque, segundo fontes que estão a acompanhar o processo, neste momento "não há certezas absolutas de nada, nem confiança absoluta nos registos e controlo que está feito". Ao que o DN apurou o último inventário das armas neste departamento foi feito há cerca de um ano e, nessa altura, o registo dizia que todas as armas estavam guardadas. "Neste momento não se sabe se as armas estavam mesmo lá ou se os responsáveis se limitaram a assinar de cruz, sem verificar se estavam ou não", assume a mesma fonte.

A investigação estava a correr com todo o sigilo, mas a suspensão dois dois agentes do armeiro, no final da semana passada acabou por chamar a atenção de várias pessoas que estão colocadas na sede da PSP. O Diretor Nacional, Luís Farinha, e o Diretora Nacional Adjunto para as Operações, António Magina, tudo fizeram para manter o caso fora dos holofotes mediáticos, para não prejudicar a investigação. Contudo, ontem ao início da tarde, depois do DN ter enviado algumas questões à PSP sobre o caso, o ministério da Administração Interna avançou com um comunicado. O MAI limita-se a confirmar toda a situação. "Em causa está o extravio de cerca de 50 armas de 9mm, tendo os factos sido participados ao Ministério Público, para efeitos de investigação e apuramento de responsabilidades criminais", é escrito na informação.

Porque é que estas armas não estavam distribuídas aos agentes e guardadas na Direção Nacional, foi uma questão que o DN colocou à direção da PSP e que ficou sem resposta. As pistolas Glock foram compradas pelo ministério da Administração Interna, num procedimento iniciado por António Costa, em 2007, quando tutelava este ministério, no governo de José Sócrates. Mais de 40 mil destas armas, consideradas o "Rolls Royce" das pistolas, foram distribuídas à GNR e à PSP, durante um processo de entrega que durou até 2012.

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