Loures. Um laboratório da política nacional?

Limitações dos transportes públicos estão no topo das prioridades de todos os candidatos

É o sexto concelho do país, em número de residentes, mas continua a debater-se com a imagem de subúrbio da capital, onde 25% da população sai todos os dias para trabalhar em Lisboa. Autarquia ganha pela CDU em 2013, depois de três mandatos socialistas, conta agora com um polémico candidato do PSD

Nas noites eleitorais autárquicas, Loures costuma entrar nas contas nacionais pelo duelo a dois que há décadas ali se trava entre PS e PCP. Mas, no próximo dia 1 de outubro os holofotes não deixarão de estar sobre os resultados do PSD, que leva à disputa um candidato que conseguiu congregar as críticas do CDS ao BE. Há quem lhe chame um laboratório do caminho que um discurso populista pode fazer em Portugal. Ou sublinhe que em Loures também se escolhe "que direita queremos para o país".

Antes da querela política propriamente dita, que planos têm os candidatos para os próximos quatro anos? Loures é o sexto município do país em população residente (mais de 200 mil pessoas), fica a um passo de Lisboa, mas uma viagem da capital para Loures pode envolver três autocarros, com bilhetes e tarifas diferentes, e facilmente uma hora e meia de viagem. Dentro do concelho o panorama não é melhor - há localidades que a partir das seis da tarde deixam de ter transportes públicos. Razão suficiente para todos os candidatos elegerem a mobilidade como uma aposta para o próximo mandato.

Para Bernardino Soares, atual presidente da câmara - à frente de uma coligação firmada há quatro anos entre a CDU e o PSD - este é um dos pontos centrais para os próximos quatro anos. "25% da população trabalha ou estuda em Lisboa e a maioria desloca-se em transporte privado. Loures está confinada a transporte rodoviário, que é muito insuficiente", aponta o autarca. "Os transportes são um enorme problema, é uma matéria que está para além das nossas competências. E tem sido inibidor de que algumas empresas se fixem no concelho, o que é muitíssimo grave", defende. Por Loures espalham-se cartazes a apelar à subscrição de uma petição pública, promovida pelo executivo municipal, a exigir a extensão da linha de metro para lá da fronteira de Lisboa. Em 2009, a notícia fez títulos de jornais - "o metro vai finalmente chegar a Loures" - , mas oito anos passados nem metro, nem sequer a intenção: os planos do Metropolitano não passam pelo concelho vizinho. A exigência consta da agenda de todos os candidatos, tal como a da extensão das linhas da Carris ao município.

Bernardino Soares reclama para a governação da CDU uma "diminuição dos impostos" e o equilíbrio das contas - "No final de 2013 a dívida a fornecedores era de 26 milhões de euros, no final de de 2016 era de 2,7 milhões". Fala de um município que entrou para o mapa cultural, de uma "revitalização urbana", de uma aposta na Educação que é a "melhor forma de combater a exclusão". Admitindo que há bairros problemáticos em Loures, recusa a imagem de um concelho em ebulição social: "Temos mais de 120 nacionalidades. Entendemos isso como uma riqueza".

Sónia Paixão repete a candidatura de 2013, tentando devolver aos socialistas a câmara que lideraram durante três mandatos, até 2013. A governação da CDU foi "uma desilusão", diz a candidata, defendendo que a grande aposta que se viu em Loures foi em "publicidade e propaganda". E se alguns passos foram dados a CDU "teve muita sorte com o facto de estar um governo do PS à frente do país". Mobilidade, melhoria dos transportes públicos (como a CDU, o PS defende a extensão do metro a Loures e o alargamento da Carris a Sacavém e Camarate), revitalização urbana e uma maior aposta no turismo são outras apostas da dirigente socialista, que diz querer apostar num concelho "amigo da família".

À esquerda, Fabian Figueiredo, cabeça-de-lista do Bloco (que avança em aliança com o Livre e o MAS), é menos crítico com a atuação da CDU. Admite que a situação financeira está melhor, mas vai acrescentando que é preciso ir mais longe - "há um longo caminho a fazer para uma governação à esquerda do município". Passando pelos transportes, habitação, pelo combate ao desemprego e à precariedade, para que Loures seja dotada de uma "rede pública de creches e lares de terceira idade".

André Ventura, o candidato do PSD que saltou para o centro da polémica depois de ter dito que os ciganos "vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado" e que se acham "acima das regras do Estado de Direito", elege como prioridades a mobilidade ("um concelho sem mobilidade é um concelho sem qualidade de vida"), o desemprego e a segurança . Quer videovigilância, um reforço dos meios policiais - "Enquanto eu for presidente da Câmara não vai haver bairros em que a polícia não consegue entrar", garante.

À direita do PSD, o CDS parte em condições particulares para as autárquicas, depois de ter rompido a coligação com os sociais-democratas. Pedro Pestana Bastos admite as dificuldades de uma campanha que só agora dá os primeiros passos. Mobilidade (o CDS quer uma "CREL ferroviária a chegar a Loures) e Educação são duas traves mestras do programa, resgatado ao acordo de coligação.

"Escolher que direita queremos"

Do CDS ao BE, há um entendimento comum quanto ao que representam as próximas autárquicas em Loures - as eleições locais extravasaram as fronteiras do município e transformaram-se num plebiscito ao caminho que pode fazer em Portugal um discurso populista. "Temos que escolher que direita é que queremos para Loures e para o país", diz Pedro Pestana Bastos, que não poupa nas palavras contra o candidato social-democrata: "Fez declarações xenófobas, próximas das declarações de partidos de extrema-direita na Europa. Quando o PNR aplaude as declarações de André Ventura, alguma coisa está mal. É a primeira vez em 30 anos de democracia que se dá este passo". Também o Bloco defende que está em causa mais do que a governação de Loures. "O PSD quer fazer de Loures um laboratório de trumpificação da política portuguesa", acusa Fabian Figueiredo, defendendo que o candidato laranja não é um epifenómeno, mas o resultado de uma "radicalização do PSD". Quanto à CDU e ao PS a palavra de ordem é agora desvalorizar. "Não há qualquer sítio do concelho que seja um barril de pólvora", diz Bernardino Soares. Sónia Paixão é ainda mais sucinta: "Não vou comentar devaneios políticos".

E o que diz o próprio? André Ventura diz não estar preocupado com as acusações de racismo e xenofobia. Nem com o apoio que lhe foi expresso pelo PNR. "Eu escolho os meus apoios. Sou apoiado por partidos moderados, rejeito qualquer associação a esses movimentos. A minha preocupação é sentir que a direção do PSD está solidária e alinhada", diz ao DN.

A situação política em Loures deixa uma incógnita quanto a uma futura solução governativa no município, caso os resultados eleitorais se aproximem dos de há quatro anos. "Não tenho qualquer acordo prévio para o futuro", é tudo quanto diz Bernardino Soares. "Se ganhar convido a CDU a fazer parte deste projeto. Ao contrário, pode ter a a certeza que eu não estarei lá", garante André Ventura.

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