Durão Barroso em silêncio perante ataque de François Hollande

"Moralmente é inaceitável" que o ex-presidente da Comissão Europeia tenha aceitado ser chairman da Goldman Sachs International, disse ontem o presidente francês

A França não para de criticar Durão Barroso por este ter decidido aceitar ser presidente não executivo da Goldman Sachs International.

Depois do comissário socialista Pierre Moscovici e do secretário de Estado dos Assuntos Europeus, Harlem Désir (que pediu a Barroso que reconsiderasse), bem como também do MNE francês, Jean--Marc Ayrault, ontem foi a vez de os ataques serem protagonizados pelo próprio presidente da França, François Hollande.

Falando numa entrevista televisiva concedida a propósito das comemorações francesas, ontem, do seu dia nacional, Hollande - que no dia 19 estará em Lisboa - disse que a decisão de Barroso "juridicamente é possível mas moralmente é inaceitável". Barroso - recordou o chefe do Estado francês - "foi presidente [da Comissão Europeia] durante dez anos" em que se deu a crise do mercado imobiliário subprime, na qual o Goldman Sachs foi "uma das entidades principais". Além do mais, o banco norte-americano "aconselhava os gregos sobre como esconder os números" das suas finanças públicas. Em declarações ao DN, um deputado do PSD, Duarte Marques, contestou a autoridade de Hollande para criticar Durão: "É o que faltava agora um socialista francês a dar lições de moral", disse, recordando que a única vez que a Comissão Europeia caiu em bloco foi por causa de um escândalo em que esteve envolvida uma política francesa, Edith Crésson.

Às críticas da hierarquia política francesa somaram-se as de um sindicato que representa funcionários europeus. O sindicato Renovação e Democracia defendeu que a decisão de Durão "afeta os funcionários" da Comissão Europeia. "Os funcionários desta instituição a que presidiu durante dez anos são também vítimas da sua decisão, que só teve em conta os seus interesses privados, enquanto a simples decência nunca deveria levá-lo a aceitar tal função", considerou o sindicato, numa carta aberta.

Na carta, o presidente do sindicato, Cristiano Sebastiani, apelou ainda à renúncia ao cargo, "nomeadamente pela aplicação do artigo 245" dos tratados, que estipula que os membros da Comissão Europeia assumem o "compromisso solene de respeitar, enquanto estiverem em funções e após a cessação das mesmas, as obrigações decorrentes do cargo, nomeadamente o dever de honestidade e discrição relativamente à aceitação, após essa cessação, de determinadas funções ou benefícios". E "neste caso" é claro o problema da compatibilidade entre a aceitação deste lugar com "os deveres de integridade e discrição".

As críticas internacionais têm contrastado com a sua ausência em Portugal. Anteontem, na SIC Notícias, nem Pedro Santana Lopes - que lhe sucedeu em 2004 no cargo de primeiro-ministro em 2004 quando Durão trocou a chefia do governo português pela presidência da Comissão Europeia - nem António Vitorino (comissário europeu de 1999 a 2004) lhe criticaram a decisão. "Tem todo o direito de aceitar", disse Santana Lopes, enquanto Vitorino preferiu dizer que a Goldman Sachs, ao contratar Durão, está a procurar apenas resolver os seus problemas com Bruxelas. Seja como for, concluíram ambos, o passo de Durão significa que este não poderá nunca mais voltar à política portuguesa.

Sampaio aceitou ir à AR

Durão Barroso está também convocado para ir ao Parlamento falar da invasão do Iraque em 2003, que como primeiro-ministro apoiou. Tal como em relação ao Goldman Sachs, o ex-primeiro-ministro mantém-se silencioso. O DN tenta desde há alguns dias obter um comentário seu - mas em vão.

Jorge Sampaio, então presidente da República, também foi convidado para ir à AR (comissão de Negócios Estrangeiros) falar do Iraque e aceitou. Estão também convocados os então ministros dos Negócios Estrangeiros e da Defesa, Martins da Cruz e Paulo Portas. Desconhece-se se estão disponíveis.

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