Dirigentes do PSD e CDS contra discurso sobre ciganos

Posição oficial da coligação que apoia André Ventura é de prudência, mas figuras dos partidos condenaram palavras do advogado

O PSD em silêncio, o CDS a aguardar esclarecimentos. É esta a postura oficial da coligação que apoia a candidatura à Câmara de Loures de André Ventura, que em entrevista ao jornal i retratou os ciganos como vivendo "acima da lei" e "quase exclusivamente dos subsídios do Estado". Mas outras figuras destacadas dos dois partidos não tardaram a condenar as declarações do advogado.

Teresa Leal Coelho, vice-presidente social-democrata, condenou as "afirmações que generalizam comportamentos e só perpetuam os preconceitos e estigmatizam comunidades". "Defendemos uma sociedade inclusiva, solidária e justa no âmbito da qual a diversidade e a multiculturalidade devem ser plenamente respeitadas e celebradas", concluiu a também candidata autárquica, no caso em Lisboa. Já Francisco Mendes da Silva, membro da comissão política nacional do CDS, escreveu que "não há praticamente nada" que o candidato diga que ele "não considere profundamente errado, ligeiro, fruto da ignorância e de um populismo que tanto pode ser gratuito, telegénico ou eleitoralista".

Mais prudente foi o líder da Distrital de Lisboa centrista, que prefere aguardar que "possam ser cabalmente esclarecidas" as declarações sobre a comunidade cigana do candidato à Câmara de Loures. "O CDS é leal às coligações em que está envolvido e, nesta fase, será no interior da coligação que o CDS vai pronunciar-se sobre este assunto. Aguardamos ainda que estas declarações possam ser cabalmente esclarecidas pelo candidato André Ventura", referiu, ontem em comunicado, o líder da Distrital de Lisboa do CDS-PP, João Gonçalves Pereira.

O presidente da concelhia do PSD de Loures (distrito de Lisboa), Ricardo Andrade, defendeu a legitimidade das declarações de André Ventura, ressalvando que "em nenhum momento os sociais-democratas equacionaram retirar-lhe a confiança política. Contactado pelo DN, Carlos Carreiras, coordenador autárquico do PSD, não comentou.

Como seria de esperar, os ataques políticos mais violentos vieram do lado da esquerda, com o PS a pedir "formalmente" ao líder do PSD que retire a confiança política e se demarque das declarações "xenófobas" e "racistas" proferidas contra a comunidade cigana. Uma posição que foi transmitida pela secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendes, em conferência de imprensa, em que esteve acompanhada pela candidata socialista à Câmara de Loures, Sónia Paixão.

Outro dos candidatos à autarquia, Fabian Figueiredo, do Bloco de Esquerda, apresentou queixa ao Ministério Público e à Ordem dos Advogados contra o candidato do PSD-CDS/PPM, por incitar, de forma "friamente calculada", ao ódio contra as pessoas de etnia cigana.

Candidato rejeita acusações

Num comunicado enviado às redação já ao final da tarde, André Ventura rejeitou ter tido qualquer intenção xenófoba ao falar publicamente da comunidade cigana, sublinhando que apenas criticou situações de incumprimento da lei. "O que preocupa a candidatura são questões de segurança e cumprimento da lei na defesa do património público e das pessoas de bem, independentemente da raça ou etnia. [...] Boa parte das pessoas que ficam muito incomodadas quando são denunciadas estas situações nunca se deslocaram a algumas dessas zonas e não têm ideia do barril de pólvora que lá se vive diariamente", refere o candidato.

"Ao longo da minha vida sempre convivi bem com pessoas de várias raças e etnias e diferentes credos. Quando digo que somos tolerantes com algumas minorias refiro-me a certos casos em que manifestamente a lei não é cumprida", explicou. "Nunca foi minha intenção estimular ou aprofundar este tipo de sentimentos no debate público", acrescentou.

Já na quinta-feira passada o candidato tinha falado sobre uma "excessiva tolerância com alguns grupos e minorias étnicas" numa entrevista ao portal Notícias ao Minuto, o que motivou uma queixa à Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial contra o candidato, por parte do cabeça-de--lista do BE, Fabian Figueiredo, por "declarações contra as minorias étnicas". André Ventura arrisca-se a ser arguido num inquérito por suspeitas de discriminação com pena punível de seis meses a cinco anos de prisão. Para isso, basta que o Ministério Público (MP) abra uma investigação pelo crime de discriminação racial, religiosa ou sexual visto tratar-se de um crime público.

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Em 2013, o Governo Passos obrigou-se a três campanhas de sensibilização da opinião pública, até 2020, para combater a discriminação dos ciganos. Em 2017, o candidato do PSD a Loures faz a campanha contra eles; as sondagens dizem que a maioria aprova. De acordo com a autarquia, serão menos de 600 em 204 mil habitantes, estas pessoas que tanto incomodam. Quem são? Que fazem? Como se reconhecem? Viagem a Loures, à boleia de um estereótipo

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