UE debaixo de fogo dentro de casa no ano do "vai ou racha"

Frauke Petry, Marine Le Pen, Matteo Salvini, Geert Wilders, Harald Vilimsky e Marcus Pretzell

São cada vez mais os dirigentes políticos que lutam contra a União Europeia e os partidos anti-integração estão cada vez mais fortes nas sondagens

A União Europeia nasceu do ódio. E do medo. "Na década de 50 não havia qualquer tipo de amor entre França e Alemanha, nem razões para confiança mútua, cinco anos após o fim da guerra", diz ao DN Eckart Stratenschulte, diretor da Academia Europeia em Berlim. Foi a necessidade de manter a paz que levou os países a juntar os trapos num casamento de conveniência. "A UE atravessa tempos difíceis porque este ímpeto fundador perdeu importância. A paz é um dado adquirido e os países não estão de acordo em qual deve ser o objetivo seguinte", acrescenta o analista.

Ao mesmo tempo têm vindo a surgir líderes que pretendem fazer marcha atrás na integração e derrubar as paredes do edifício imaginado no pós-guerra. A existência de movimentos antieuropeus não é novidade, mas "os ataques contra a integração são hoje mais amplos e visíveis do que no passado", sublinha ao DN Kai Arzheimer, professor de Ciência Política na Universidade de Mainz. O politólogo português António Costa Pinto faz a mesma leitura: "Com a saída do Reino Unido da UE e com a chegada ao poder de Donald Trump, podemos falar numa vaga com maior impacto."

Os números mostram que os partidos anti-União Europeia começam a ganhar outra consistência eleitoral. Na Holanda, Geert Wilders do Partido para a Liberdade tem vindo a liderar as sondagens para as eleições de 15 de março. Em França, Marine Le Pen da Frente Nacional é uma das favoritas à vitória na primeira volta das presidenciais, marcada para 23 de abril. Na Alemanha, a AfD (Alternativa para a Alemanha) parece preparar-se para conseguir entre 10% e 15% dos votos nas legislativas de 24 de setembro e posicionar-se como terceira maior força no parlamento germânico. Em Espanha, o Unidos Podemos (coligação de extrema-esquerda) de Pablo Iglesias somou 21,2% e quase ultrapassou os socialistas do PSOE. Em Itália, onde talvez possa haver eleições neste ano, os populistas-nem-de-direita-nem-de-esquerda do Movimento 5 Estrelas de Beppe Grillo vão surgindo nas sondagens taco a taco com o Partido Democrático do ex-primeiro-ministro Matteo Renzi.

Estará a Europa, tal como a conhecemos, em perigo? "Sim, o risco é real. Os líderes políticos estão convencidos de que a UE está a atravessar a pior crise da sua história. Tal como Thomas Ossowski - um importante diplomata alemão, responsável pelas relações com a UE - disse nesta semana, o ano de 2017 será o do "vai ou racha" para a união", sublinha Stratenschulte.

Apesar das distâncias entre eles, até que ponto Marine Le Pen ou Frauke Petry, da AfD, que se situam na direita radical, jogam na mesma equipa que Iglesias ou Grillo? Será mais aquilo que os une ou o que os separa? O diretor da Academia Europeia não tem dúvidas: "Enquanto tiverem um inimigo comum, que é uma UE plural e colorida, não estarão preocupados com as diferenças." Arzheimer, porém, não está de acordo. "Não fazem parte da mesma equipa. O euroceticismo de esquerda agita-se contra a agenda neoliberal, mas não é nacionalista em si. Já Le Pen e os seus aliados são principalmente nacionalistas e adotaram algumas das posições da esquerda apenas porque elas são populares entre os eleitores."

Os líderes anti-UE rejubilaram e inspiraram-se com a vitória de Trump. Quais poderão ser as consequências para a Europa das políticas da nova administração norte-americana? "O melhor cenário é que ele se preocupe menos com a UE do que os seus antecessores. Não seria bom, mas seria gerível. O pior será se começar a tentar destruir estruturas como a NATO através da cooperação com Vladimir Putin", refere Stratenschulte. Para Arzheimer, Trump também poderá ter um efeito inverso: unir os europeus contra a sua retórica e o seu estilo.

"Ainda é incerto se os partidos populistas vão dominar as democracias europeias. Na Europa de Leste e do Norte temos alguns sinais preocupantes, mas, para já, o maior impacto vem do Reino Unido e das consequências para a UE da administração Trump", defende Costa Pinto. Será 2017 o ano do regresso dos muros, ou o momento em que a UE, que nasceu do ódio e do medo, se apaixona por si própria? A resposta começa a ser dada em março, na Holanda, com a vitória ou a derrota de Geert Wilders e do seu Partido para a Liberdade.

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