"Se não sabe quem é Doraemon, então não é japonês"

Em versão animada ou em BD (manga), eis um produto nacional com potencial diplomático

Naomi Nishiguchi tem 43 anos e é uma das produtoras da Shin-Ei Animation, a empresa que desenha o Doraemon, personagem inventada em 1969 por Fujiko Fujio, nome de uma dupla de criadores de manga. "Cresci a ver o Doraemon na televisão, eu e todas as crianças japonesas dos últimos 40 ou 50 anos. E os pais também veem. Se alguém não conhece Doraemon, então é porque não é um japonês", diz Nishiguchi a rir-se. Quem também se ri é Atsushi Saito, diretor da Shin-Ei , que acaba de entrar na sala de reuniões carregado de folhas com desenhos.

Chega-se aos estúdios da Shin-Ei Animation depois de uma hora de trânsito a partir do centro de Tóquio. Por aqui não há sinal de arranha-céus, quando muito alguns prédios que não impressionariam pela altura em Lisboa. E quem esperasse uma empresa ultrassofisticada - tipo Toyota ou Sony - a produzir as animações do Doraemon ficaria desiludido. Trata-se de uma pequena empresa, talvez uma centena de trabalhadores no máximo, com salas sem luxos e apinhadas de papéis. E isso, sim, é uma surpresa: Doraemon não é produto exclusivo de computadores mas de muito trabalho manual.

"Precisamos de seis mil desenhos para um episódio", explica Saito, enquanto espalha papéis sobre a mesa. Reconheço o Nobita, o rapaz amigo de Doraemon, o gato cósmico vindo do futuro. E pergunto que pequenos desenhos são aqueles numas das folhas. "É a boca de Nobita. Para pô-lo a falar fazemos estes movimentos e só depois acrescentamos ao rosto do boneco", esclarece o diretor do estúdio de animé.

Tudo nasce sempre com uma reunião para discutir ideias. Depois há um guião para cada novo episódio de Doraemon. O desenho à mão é essencial, não só das personagens como dos cenários. "Aqui está o quarto de Nobita", mostra Saito, puxando uma folha. É só numa fase mais avançada que os computadores entram em cena.

Da sala de reuniões saímos para uma outra onde vários desenhadores trabalham. As mesas de trabalho estão personalizadas, com as fotos de família a serem menos comuns do que os bonecos de animé e manga. Claro, Doraemon é o rei, mesmo que o estúdio tenha igualmente criado Shin-chan, um miúdo de 5 anos cujas aventuras também passam na televisão portuguesa. Numa outra sala já se trabalha com computadores. Mesmo com visitas, ninguém para. A produtividade é uma obrigação num setor em que a concorrência é feroz dentro do próprio Japão, como nota Nishiguchi.

Sobre as receitas, meio segredo. Nada de valores revelados, mas Saito admite que no caso de Doraemon o merchandising rende mais do que os programas e que tem de haver grande vigilância contra os produtos piratas, dos bonecos de peluche às roupas.
Sobre o animé (e o seu parceiro em BD, a manga) servir para promover o Japão, Saito e Nishiguchi concordam. "Não é só dar a conhecer o país como produtor cultural, é também dar o país a conhecer como cultura. Quem vê Doraemon conhece a família e os amigos de Nobita e percebe quais os valores japoneses", sublinha Nishiguchi.

Norihiko Yonehara, jornalista do Asahi em Tóquio, concorda em absoluto. Para este redator da seção de Cultura de um dos grandes jornais japoneses, "a par da tecnologia e dos automóveis, o animé e a manga são uma boa forma de soft power". E dá o exemplo dos Estúdios Ghibli, hoje famosos no mundo inteiro por causa dos filmes de Hayao Miyazaki como Totoro, O Castelo Andante ou A Viagem de Chihiro.

Em Tóquio, Hiroxima e Nagasáqui, o DN viajou a convite do MNE do Japão

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