Schulz contra Merkel nas eleições, mas "geringonça" pouco provável

Martin Schulz e Sigmar Gabriel

Analistas ouvidos pelo DN veem como muito difícil que o candidato dos sociais-democratas do SPD e novo líder do partido consiga aliança com o Die Linke e com Os Verdes

Faltam oito meses para o apito final, que serão as eleições legislativas de 24 de setembro. O jogo não está fácil. As sondagens mostram um SPD preso na casa dos 21%, distante da CDU de Angela Merkel, que regista 37% das intenções de voto. Para tentar virar o resultado, os sociais-democratas decidiram fazer uma substituição. Sai Sigmar Gabriel e entra Martin Schulz. O homem que na semana passada deixou o lugar de presidente do Parlamento Europeu prepara-se para assumir a liderança do SPD e vestir o equipamento de candidato às legislativas. Já fez o aquecimento e está junto da linha lateral prestes a entrar em campo. Só falta que o partido, em reunião no próximo domingo, confirme a passagem de testemunho.

Em menos de duas semanas, Martin Schulz deixa de ter um pé em Estrasburgo e outro em Bruxelas e finca os dois em Berlim. Sem qualquer experiência na política interna alemã além de ter sido presidente da câmara de Würselen, a sua terra natal, passa a liderar o segundo maior partido e assume a candidatura a chanceler.

Desde 2013 que a CDU de Angela Merkel governa em coligação com o SPD, mas os sociais-democratas querem deixar de ser o elo mais pequeno no governo. "Ele tem melhores hipóteses do que eu. Se fosse eu o candidato, as eleições seriam um fracasso para mim e para o partido", admitiu Sigmar Gabriel na terça-feira.

Os estudos de opinião parecem confirmar que Schulz é de facto melhor aposta. Numa sondagem divulgada pela estação pública, a ARD, 36% dos inquiridos disseram que apoiariam o ex-presidente do Parlamento Europeu para o cargo de chanceler - Gabriel não conseguiu mais do que 19%. Um outro estudo publicado no jornal Bild, mostra que, num duelo a dois, Schulz chegaria aos 38% contra 39% de Merkel. Com Gabriel os resultados seriam muito diferentes: 46% para a chanceler e 27% para o adversário.

Os analistas consultados pelo DN estão de acordo na análise que fazem dos pontos fortes e fracos do novo homem forte do SPD. "Goza de grande reputação internacional e de respeito dentro do partido, mas falta-lhe experiência a nível interno e é desconhecido para partes do eleitorado", sublinha Uwe Jun, professor de Ciência Política na Universidade de Trier.

O facto de chegar de mãos limpas, sem responsabilidades governativas na última legislatura, dá-lhe mais margem de manobra em campanha do que aquela que teria Gabriel. "Não passou quatro anos como número dois de Merkel, por isso terá mais credibilidade nos ataques que fizer", explica Kai Arzheimer, politólogo da Universidade de Mainz. Thorsten Benner, analista do think tank berlinense Global Public Policy Institute, faz a mesma análise: "Tem a vantagem de vir de fora e de não estar associado à governação de Merkel. Pode, por isso, desferir tiros mais certeiros, mas tendo em conta que não tem experiência de política doméstica terá que lidar com várias surpresas e armadilhas".

A última vez que o SPD venceu as legislativas foi em 2002. Gerhard Schröder foi então eleito para um segundo mandato, coligando-se com Os Verdes e derrotando Edmund Stoiber, candidato da CDU. A legislatura, porém, não chegaria ao fim. Depois de uma derrota nas eleições no estado da Renânia do Norte-Vestefália, Schröder decidiu antecipar a ida às urnas. Seria a primeira vitória de Angela Merkel. A líder da CDU conseguiu 35,2% dos votos para a CDU, contra 34,2% do SPD. O primeiro governo da chanceler (2005-09) foi em coligação com o SPD, o segundo (2009-13) em aliança com os liberais do FDP e o terceiro e atual de novo de mãos dadas com os sociais-democratas.

Neste momento as sondagens indicam indicam uma nova vitória de Merkel e um Parlamento partilhado por seis forças: a CDU, o SPD, os populistas da Alternativa para a Alemanha (AfD), Os Verdes, a esquerda do Die Linke, e o FDP.

Até que ponto poderá ser possível uma espécie de "geringonça", uma aliança entre o SPD, o Die Linke e Os Verdes para impedir um quarto mandato de Merkel? "Os políticos dos três partidos olhariam para essa solução no mínimo com muita relutância. Ainda há muitas feridas abertas entre o SPD e o Die Linke. E o Die Linke, em questões de política externa [eurocético e anti-NATO], está muito distante dos outros dois partidos", afirma Arzheimer. Para Jun o cenário também é pouco provável. "É muito difícil fazer previsões, mas seria uma coligação muito pouco popular para o eleitorado germânico. E Os Verdes nunca dirão nada sobre esta possibilidade antes das eleições".

Às dificuldades políticas de entendimento somam-se também os obstáculos matemáticos. Segundo as últimas sondagens, uma aliança entre o SPD (21%), o Die Linke (9%) e Os Verdes (10%) ficar-se-ia apenas pelos 40%. Feitas as contas, poderá Martin Schulz complicar as ambições de Merkel para um quarto mandato? Eckart Stratenschulte , diretor da Academia Europeia em Berlim, é taxativo na resposta que dá ao DN. "Não", apesar de considerar que será um candidato mais forte do que Gabriel. Na opinião de Arzheimer, Schulz poderá ser capaz de mobilizar os eleitores do SPD mais relutantes, mas dificilmente conseguirá roubar votos à CDU.

Sigmar Gabriel continuará como vice-chanceler até ao final da legislatura, mas deixará a pasta da Economia para Brigitte Zypries, uma das suas secretárias de Estado. Em fevereiro, quando Frank-Walter Steinmeier, ministro dos Negócios Estrangeiros, for eleito presidente do país, Gabriel assumirá também a chefia da diplomacia. "Isto dá a ideia de que Gabriel pode estar a jogar a prazo. Havendo uma reedição da coligação com Merkel poderá continuar como ministro dos Negócios Estrangeiros - um cargo que tem-se revelado muito simpático em termos de popularidade para quem o desempenha", sublinha Benner.

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