O Japão entre a perigosa Coreia do Norte e a ambiciosa China

Crianças japonesas junto à Cúpula da Bomba-A a 6 de agosto de 2015, quando se assinalou o 70.º aniversário do lançamento da bomba atómica sobre Hiroxima.

Foi o único país até hoje a sofrer o bombardeamento atómico e por isso se tornou pacifista, gastando apenas 1% do PIB em defesa. Mas os mísseis norte-coreanos e a explosão dos gastos militares chineses lançam novos desafios. O gigante tecnológico agora também pensa em armas, até porque a América de Trump pressiona

O relógio de ponteiros na entrada do Memorial da Paz em Hiroxima limita-se a recordar aos visitantes que são quatro da tarde, mas logo abaixo os números eletrónicos vermelhos alertam para algo bem mais importante: passam hoje 26 136 dias sobre o lançamento da primeira bomba atómica. Aconteceu a 6 de agosto de 1945, uma data que todos os japoneses sabem de cor. Ali mais à frente, a uma centena de metros, está a Cúpula da Bomba-A, as ruínas do antigo palácio de exposições, um dos raros edifícios da cidade que não se evaporou com a explosão que matou dezenas de milhares de pessoas em segundos. Grupos de alunos acabam de completar em silêncio a visita ao museu, onde até um desfeito uniforme de verão estudantil mostra o horror, e começam a dirigir-se ao parque lá fora, onde o sol convida à fotografia-clichê a que nem Barack Obama resistiu, ele que em 2016 se tornou o primeiro presidente dos Estados Unidos a visitar Hiroxima, se encontrou com sobreviventes e apelou a um mundo sem armas nucleares. Um segundo mostrador com dígitos vermelhos exibe o número 169, os dias desde o último ensaio nuclear. Não diz onde nem por quem, mas também não há um japonês que não saiba que foi na Coreia do Norte por ordem de Kim Jong-un, o terceiro de uma dinastia que tem já pouco de comunista mas muito de nacionalista.

"A Europa vive em paz desde o fim da Guerra Fria, mas a Ásia não, por causa da Coreia do Norte. Há 20 anos que desenvolve a tecnologia de mísseis", alerta Hiroatsu Satake, vice-diretor de Política de Segurança Nacional do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Estamos num dos principais edifícios de Kasumigaseki, a zona de Tóquio onde se concentra o governo, e o diplomata explica que "os norte-coreanos desenvolveram os mísseis para terem com que negociar com os americanos, e agora já não se trata de cartada diplomática, mas sim de ameaça real. Têm mísseis capazes de atacar a Coreia do Sul, o Japão e talvez um dia os Estados Unidos. A posse da arma nuclear serve de proteção para o regime".

Satake abre uma pasta e exibe alguns gráficos. O primeiro tem que ver com a crescente militarização da Ásia Oriental, com homens e meios por país, incluindo forças russas em redor de Vladivostoque e tropas americanas no Japão e na Coreia do Sul; o segundo mostra o alcance hipotético dos mísseis norte-coreanos, com destaque para os seis a dez mil quilómetros do Taepodong-2, que poderia atingir o Havai e até a Califórnia; o terceiro gráfico é o mais assustador, pois mostra o ritmo cada vez mais acelerado de testes com mísseis pelos norte-coreanos, com 2016 a ser frenético, razão para o nervosismo na região, como se viu pelas reações ao disparo de 13 de fevereiro de um Pukguksong-2, o primeiro do ano e também o primeiro desde que Donald Trump tomou posse como presidente dos Estados Unidos.

O vice-diretor de Política de Segurança Nacional não acredita que o Japão seja o primeiro alvo de Kim. "A agressividade é sobretudo contra a Coreia do Sul", acrescenta, o que não significa que o Japão não tenha razões para estar preocupado. "Kim Jong-un não tem nem vontade nem capacidade para invadir o Japão. Os mísseis ameaçam mas não sabemos com que objetivo. Talvez faça parte da estratégia para pressionar os Estados Unidos", nota Satake.

Mísseis norte-coreanos por um lado, aumento das despesas militares chinesas por outro, há razões de sobra para o Japão se sentir inquieto. "A última década trouxe-nos um novo vizinho com armas nucleares e permitiu também a ascensão de uma nova grande potência na região. "A Coreia do Norte não é nada transparente, mas a China também é opaca. Não só os gastos militares serão de certeza superiores ao divulgado, como não discriminam como são feitos, se em aquisição de aviões e navios se em salários", comenta um analista de assuntos militares que costuma publicar num grande diário japonês. Estamos sentados numa cafetaria Tully"s, em Otemachi, e a pessoa pede-me anonimato. Bebe um café americano, para a mesa vem também chá verde. Preocupa-o que o orçamento militar japonês seja já "menos de um terço do chinês" e que os 2% de aumento anual decidido pelo primeiro-ministro Shinzo Abe não cheguem sequer para minimizar o fosso. "É preciso não esquecer que as despesas militares chinesas aumentam a um ritmo de 10% há vários anos e por este caminho serão em breve seis ou sete vezes maiores do que as do Japão", sublinha. E nem pensar em ver o governo investir muito mais do que 1% do PIB em defesa, "pois com o envelhecimento a prioridade tem de ser a segurança social".

Na mesma cadeia de cafetarias, mas no bairro de Roppongi, assisto a um grupo de jovens a conversar. Uma rapariga está vestida como se fosse uma personagem de animé ou manga, maquilhada para os olhos parecerem maiores e de cabelos roxos. Traz sacos cheios de compras, pois esteve em Akihabara, espécie de meca para os fãs da cultura pop japonesa. Num inglês esforçado, diz ser filha única, com um pai engenheiro e mãe em casa. E que quer estudar para advogada, se bem que não se importasse de ser uma estrela da j-pop, o novo estilo musical japonês. Pergunto se está preocupada com os mísseis norte-coreanos, com o crescente poderio chinês, com as incertezas sobre o futuro da aliança com os Estados Unidos. Vira-se para os amigos, dois rapazes e duas raparigas, e trocam umas palavras em japonês. Começam a rir-se. Pede-me desculpa e explica que não sabem sobre isso. Nem estão interessados. "Às vezes vejo essas notícias, mas acho que o Japão está bem."

O Japão surge muitas vezes na imprensa ocidental com a imagem de um país em crise, com a economia estagnada e a maior dívida pública do mundo. Não é esse Japão que a menina vestida de boneca de BD vê, e tem razão. O crescimento é anémico mas faz-se sobre uma base que permite ao Japão ser a terceira economia mundial. O desemprego é pouco superior a 3% e muitas empresas têm dificuldade em contratar trabalhadores. E quanto à dívida pública de 200%, "não é dramática porque as taxas de juro são baixas e os donos dos títulos são os bancos japoneses", explica Satoshi Dauguji. Para este jornalista do Asahi Shimbun, um diário com 6,5 milhões de exemplares vendidos todas as manhãs, "o Japão está bem, mas é preciso mais". E aponta para o insucesso das Abenomics, o esforço de Abe para através de maior consumo dar um estímulo à economia japonesa. Sublinha também que há questões políticas que prejudicam a economia, como a tensão com a China, "que tem feito com que as grandes marcas de automóveis comecem a transferir fábricas para a Indonésia". E o pior que podia agora acontecer era uma guerra comercial com os Estados Unidos, nota ainda, admitindo, porém, que Trump está a recuar no que disse durante a campanha, quando acusou os japoneses tanto de protecionistas como de prosperarem à custa de serem defendidos pelos soldados americanos estacionados no arquipélago desde a derrota na Segunda Guerra Mundial.

Primeiro foi Jim Mattis, secretário da Defesa, a visitar a Coreia do Sul e o Japão e a assegurar aos governos de Seul e de Tóquio que a aliança com os Estados Unidos estava de pedra e cal. Depois foi Abe a ser recebido por Trump na Casa Branca e a receber garantias de que o Japão continuava sob proteção americana, incluindo as ilhas Senkaku, às quais os chineses chamam Diaoyu.
"As garantias sobre as Senkaku foram importantes porque nos últimos anos a China tem-se tornado cada vez mais agressiva, multiplicando as invasões das nossas águas e usando navios militares pintados como se fossem da guarda costeira", afirma Masaki Ichikawa, conselheiro do gabinete do primeiro-ministro. Com a pasta dos Assuntos Territoriais, explica que nos casos dos Territórios do Norte (Curilas, sob controlo russo) e Takeshima (ilhas Dokdo para os sul-coreanos) o Japão reivindica a soberania, mas de forma pacífica, usando documentação histórica. "Mas a China nas Senkaku age de forma ameaçadora. Vejo paralelos com o que fez no mar do Sul da China, onde o Japão não está envolvido mas por onde passa a maioria dos cargueiros e petroleiros com destino ao nosso país", argumenta. E apontando para um mapa na parede, mostra como o Japão constitui uma espécie de barreira de ilhas que está entre a China e o oceano Pacífico e diz que "um dia temo que Pequim comece a questionar a soberania sobre Okinawa".

Um académico europeu a viver no Japão pede duas cervejas num pub em Akasaka, bairro de Tóquio, e tenta sintetizar: "O Japão como civilização aprendeu muito com a China, por isso usa carateres chineses na escrita junto com os japoneses. Depois, quando saiu do isolamento no século XIX, modernizou-se tão depressa que descobriu que se tinha tornado mais forte do que a China, mais forte do que as potências europeias. Seguiram-se décadas de expansão na Ásia, até ao erro que foi atacar Pearl Harbor. Lutaram bravamente contra os americanos, mas perderam a Segunda Guerra Mundial. Depois das bombas tornaram-se pacifistas, graças à Constituição imposta pelo general MacArthur e também graças à proteção militar americana - e usaram o engenho para se tornar uma potência económica. Agora descobrem que a China está de volta e forte e que, por isso, precisam mais do que nunca da proteção americana. Abe é um líder muito capaz. Quer devolver ao Japão poderio económico e militar para garantir segurança. E terá cativado Trump."

Satake, do MNE, fala também da tensão com a China: "Muitos japoneses sentem-se ameaçados pela China, mas tivemos uma guerra devastadora e por isso faremos tudo para manter a paz com os vizinhos. Preferimos a colaboração à confrontação." Porém, acrescenta, "não podemos deixar de denunciar a estratégia chinesa, a tática do salame: numa noite o assaltante entra na mercearia e corta uma fatia. No dia seguinte, o dono não se apercebe. De noite, o ladrão volta e leva mais fatias. E um dia o merceeiro descobre que já não há salame. É o que a China tenta nas Senkaku. E por isso o Japão tem de ser firme".

Trump quer que o Japão gaste mais em defesa. E os números do Pentágono, citados pelo Japan Times, dizem que os dólares que os japoneses entregam aos americanos só cobrem um terço das despesas com os militares no arquipélago. Mas a ministra da Defesa, Tomomi Inada, fez outras contas e diz que o Japão financia já 85% dos gastos. Ao mesmo tempo, as forças japonesas começam a ter missões mais ambiciosas, longe indo o tempo, como conta num recente livro o decano dos embaixadores em Tóquio, o são-marinense Manlio Cadelo, em que os aviões militares não estavam autorizados a sair do país e ir a Teerão buscar os japoneses ameaçados pela Guerra Irão-Iraque e foi preciso a ajuda dos turcos.

Mas se as SDF (sigla em inglês para forças de autodefesa) hoje já podem agir no estrangeiro, onde do Iraque ao Sudão têm apoiado a ONU, e pouco a pouco vão-se sofisticando, como com a construção do porta-helicópteros Izumo, há limites para a expansão. E um tabu é o armamento nuclear. "O Japão não irá construir armas nucleares", afirma o analista militar com quem o DN falou em Tóquio. "Houve essa discussão em 2006, quando a Coreia do Norte fez o ensaio, era então Abe primeiro-ministro pela primeira vez. Mas o sentimento antinuclear no Japão está enraizado e por isso desistiu-se. E esse passo também poria em risco a relação com os Estados Unidos, o que não é aconselhável."

No Museu Nuclear de Nagasáqui a exposição é semelhante à de Hiroxima. Sobressaem restos da Catedral de Uramaki, que se situava a 500 metros do ponto de explosão. Foi uma tragédia muito especial para a comunidade cristã de Nagasáqui, cujas origens remontam à presença dos portugueses no século XVI. Filho de uma sobrevivente, o diretor do museu não hesita sobre se o Japão, ameaçado pela Coreia do Norte e com vizinhos como a China e a Rússia dotados de ogivas nucleares, não deveria também estudar essa hipótese: "Não é aceitável para nós. Como costumamos dizer aqui em Nagasáqui, que tenhamos sido o último local onde o horror nuclear se tenha feito sentir", diz Takashi Matsuo.

Em Tóquio, Hiroxima e Nagasáqui, o DN viajou a convite do MNE do Japão

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