Merkel perde tapete vermelho e Schulz pode mesmo ganhar

Martin Schulz faz um brinde durante o tradicional encontro com militantes na Quarta-Feira de Cinzas

Uma (re)eleição que parecia certa tornou-se uma incógnita. Sociais-democratas do SPD podem ser os mais votados e vir a liderar uma coligação com a CDU da chanceler

Faltam precisamente seis meses para as eleições na Alemanha, que serão disputadas a 24 de setembro. Martin Schulz poderá suceder aos ex-chanceleres Willy Brandt e Gerhard Schröder - os únicos líderes dos sociais-democratas do SPD que até hoje conseguiram vencer eleições. A batalha entre a conservadora Angela Merkel - a candidata dos democratas-cristãos da CDU que concorre a um quarto mandato - e o ex-presidente do Parlamento Europeu promete ser titânica. As sondagens neste momento dão-nos praticamente empatados.

Há não muito tempo, o facto de que Merkel seria a candidata mais votada parecia não suscitar quaisquer dúvidas, tendo em conta que a CDU levava cerca de dez pontos de vantagem sobre o SPD. Mas a certeza quase absoluta de um quarto mandato para a chanceler desapareceu em fevereiro, quando o até então presidente do Parlamento Europeu decidiu trocar Estrasburgo e Bruxelas pelo regresso a Berlim, substituindo Sigmar Gabriel como líder do SPD e candidato às eleições. Praticamente da noite para o dia o partido deu um salto de dez pontos.

Será que Schulz pode mesmo ganhar as eleições? "Quem sabe? Seis meses em política é muito tempo, mas as suas hipóteses são claramente melhores do que as dos seus dois antecessores que concorreram contra Merkel", explica ao DN Philipp Rotmann do think tank Global Public Policy Institute.

Em 2009, Frank-Walter Stein-meier - que viria a ser ministro dos Negócios Estrangeiros da chanceler e que agora ocupa o cargo de presidente do país - ficou-se pelos 23% (contra 33,8%). Quatro anos mais tarde, em 2013, foi a vez de Peer Steinbrück (antigo ministro das Finanças) perder com 25,7% (contra 41,5%). Agora é a vez de Schulz tentar destronar a líder da CDU.

Antes das legislativas há três estados que irão a votos: Sarre (já neste domingo), Schleswig-Holstein (7 de maio) e Renânia do Norte-Vestfália (14 de maio). Estas eleições regionais - acredita Rotmann - podem funcionar como barómetro e também ajudar a definir a dinâmica das candidaturas. O mesmo especialista acrescenta ainda que os indecisos poderão ter tendência a optar por Merkel, porque "é alguém que já conhecem e que é confiável".

Durante os últimos quatro anos, a CDU governou em coligação com o SPD, tal como já tinha acontecido no primeiro governo de Merkel (2005-2009). Será possível, caso Martin Schulz vença as eleições, uma reedição da chamada grande coligação, desta vez com o SPD no papel principal? "Em teoria, sim. Mas seria um exercício muito difícil para os conservadores e teria de ser sem Merkel", defende, em conversa com o DN, Eckart Stratenschulte, presidente da Academia Europeia em Berlim. Para Philipp Rotmann essa será sempre uma solução mais natural do que uma hipotética aliança com o Die Linke, partido de esquerda que defende, por exemplo, a saída da NATO. "A dificuldade seria fazer que a CDU ultrapassasse a profunda alergia que sente em desempenhar um papel secundário, mas se a alternativa fosse entregar o país à imprevisibilidade do Die Linke estou convencido de que não teriam problema em aceitar o papel de salvadores", sublinha Rotmann.

Para Kai Arzheimer, professor de Ciência Política na Universidade de Mainz, uma coligação SPD-CDU liderada por Schulz "é perfeitamente possível". Ainda assim, este analista confessa ao DN que "não apostaria" na vitória eleitoral dos sociais-democratas. "Estamos a seis meses das eleições. Há muitos eleitores indecisos e outros que ainda podem mudar de ideias. Mais do quem irá ganhar, a questão relevante é quem será capaz de formar governo", refere Arzheimer. Não seria a primeira vez que na Alemanha o chanceler seria outro que não o vencedor. Em 1980, o conservador Franz-Josef Strauss levou a melhor nas urnas, mas uma geringonça arquitetada entre o SPD de Helmut Schmidt e o FDP (liberais) de Hans-Dietrich Genscher permitiu que o primeiro continuasse como chanceler.

Em teoria, nem a CDU nem o SPD teriam particulares dificuldades em chegar a uma plataforma de entendimento com os Verdes e com os liberais do FDP. Só com o Die Linke é que seria mais difícil chegar a um acordo. Ainda que o atual governo do estado de Berlim resulte precisamente de uma aliança entre o SPD, os Verdes e o Die Linke, a nível nacional seria complicado reeditar esse casamento por causa das posições dos esquerdistas em matéria de política externa. Fora de qualquer hipotética solução de governo estarão sempre os populistas-a-resvalar-para-a-extrema-direita da AfD.

Os indicadores mostram que a economia alemã está bem e recomenda-se e tanto Merkel como Schulz são pró-Europa e defendem políticas pró-imigração. Qual será então a estratégia do líder do SPD para atingir a chanceler? O que distingue os dois? Quais serão os temas quentes durante a campanha? Os analistas ouvidos pelo DN sublinham que Martin Schulz irá colocar o foco nas questões de justiça social. "A economia alemã está de facto a funcionar bem, mas a verdade é que nem todos estão a beneficiar desse bom comportamento", sublinha Stratenschulte, que acredita que os tópicos mais debatidos serão as pensões, o serviço nacional de saúde e as leis laborais.

Na opinião de Rotmann, o líder do SPD terá mais facilidade do que Merkel em chegar ao povo: "Surge como um político que compreende as dificuldades das pessoas e que não pertence a uma elite educada e urbana. Schulz passou por uma experiência de alcoolismo e representa o oposto da analítica Merkel, que analisa ao detalhe todas as questões antes de decidir." Talvez seja mais o presente que os une do que o passado que os separa.

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