Grupo de militares revolta-se contra o regime de Maduro

Dois rebeldes morreram e um ficou ferido, disse o presidente, acrescentando que a maioria eram civis com uniformes militares

"Em rebeldia contra a tirania assassina de Nicolás Maduro", explicou o general Juan Caguaripano, num vídeo difundido nas redes sociais. Ele e um grupo de militares da cidade de Valencia, na Venezuela, decidiram sublevar-se contra o regime e tomaram o forte de Paramacay. "Isto não é um golpe de estado, é uma ação cívica e militar para restabelecer a ordem constitucional", afirmou o líder do grupo de militares.

Mas a insurgência foi revolta de pouca dura. As Forças Armadas leais ao governo atuaram rapidamente. "Foi um ataque terrorista contra as Forças Armadas Bolivarianas e estas responderam de forma unida, leal e com força", comentou Nicolás Maduro. O presidente da Venezuela negou que esta revolta tenha sido realizada por militares, mas sim por civis. "Dos dez atacantes, dois foram abatidos por fogo leal à pátria, e um está ferido (...) Nove são civis e só um é um tenente desertor há vários meses", afirmou Maduro no programa televisivo Los Domingos Con Maduro.

De acordo com a agência Reuters, centenas de venezuelanos saíram para as ruas de Valencia em apoio aos militares rebeldes. Jesus Suárez Chourio, comandante-geral do exército revelou que um dos revoltosos que tomaram o forte morreu e um outro ficou gravemente ferido. Mais tarde as Forças Armadas, em comunicado, afirmaram que a sublevação foi obra de "delinquentes civis" vestidos com uniformes militares e sem quaisquer ligações às forças de segurança.

Nas últimas horas verificou-se outro desenvolvimento na tensa situação política que se vive na Venezuela. Durante a noite de sábado, o dirigente da oposição Leopoldo López foi de novo transferido para prisão domiciliária. López tinha sido levado para a prisão de Ramo Verde a 1 de agosto, menos de um mês após ter sido colocado em prisão domiciliária depois de três anos encarcerado.

A transferência de López e a sublevação do grupo de militares - composto por tropas ativas provenientes de diferentes forças de segurança - deu-se horas depois de Luisa Ortega Díaz, procuradora-geral da Venezuela e a maior opositora de Maduro dentro do próprio aparelho chavista, ter sido destituída do cargo pela Constituinte.

Os militares que se sublevaram fizeram um apelo ao Parlamento: "Senhores da Assembleia Nacional, já passou o tempo dos pactos e acordos ocultos entre tiranos e traidores. Necessitamos de políticos honestos que passem por cima das cúpulas corruptas. Como militares reconhecemos e respeitamos a Assembleia Nacional. Exigimos que esta reconheça e respeite a vontade do povo, que quer livrar-se da tirania", sublinhou Caguaripano.

O Parlamento venezuelano, no qual a oposição está em maioria desde as eleições de 2015, está ameaçado pela Assembleia Constituinte, feita eleger por Nicolás Maduro. Este super-órgão legislativo é composto na sua totalidade por seguidores do regime, não é reconhecido pela oposição nem pela comunidade internacional e tem poderes para dissolver as instituições e redigir uma nova Constituição.

Esta jogada política de Maduro fez com que sejam cada vez mais numerosas as vozes outrora fieis a Hugo Chávez que começam a virar-se contra o atual presidente. A procuradora-geral Ortega Díaz é o mais destacado desses exemplos.

Os dois grupos reclamam-se herdeiros de Chávez e da revolução bolivariana. De um lado, Maduro e os aliados. Do outro, os que agora se afastam do presidente. A Constituinte de Maduro promete rever a Constituição em vigor, feita aprovar por Chávez em 1999. O presidente venezuelano acredita que essa é uma medida necessária para pacificar o país e defende que a Venezuela está a ser vítima de uma guerra económica orquestrada pelos EUA. Já a oposição classifica as movimentações de Maduro como uma tentativa de instalar uma ditadura.

A sublevação dos militares que tomaram o forte Paramacay não é a primeira ação do género contra Maduro. No final de junho, o presidente venezuelano revelou que um helicóptero roubado lançara granadas que não explodiram contra o edifício do Supremo Tribunal de Justiça. Apesar de nunca ter havido uma tentativa de golpe de Estado contra Nicolás Maduro, a oposição ao chavismo tentou a 11 abril de 2002 derrubar o então presidente Hugo Chávez. Depois de violentos confrontos entre opositores e simpatizantes do regime, os militares anunciaram que o presidente tinha renunciado ao poder e colocaram no seu lugar o político e economista Pedro Carmona. A oposição, acusada de tentar depor um presidente que tinha sido eleito democraticamente, argumentou que não se tratara de um golpe de estado, mas sim de um vazio de poder que tinha sido ocupado. A 14 de abril, Chávez voltou a assumir a presidência.

Dez anos antes, em 1992, Chávez estivera do outro lado. A 4 de fevereiro um grupo de militares tentou derrubar o então presidente Carlos Andrés Pérez. Entre os rebeldes que comandaram a operação estava Hugo Chávez. Seria necessário esperar até 1999 para Chávez assumir o poder, depois de vencer as eleições de dezembro de 1998 com 56,5% dos votos. Jurou sobre a Constituição de 1961 e prometeu mudá-la, o que veio a cumprir. A Constituição patrocinada por Chávez e ratificada por referendo em 1999 é aquela que Maduro quer agora alterar. A Assembleia Constituinte, eleita numa votação boicotada pela oposição, tem poderes para o fazer. O presidente diz-se defensor do chavismo. Aqueles que estavam com Chávez e que agora se afastam de Maduro acusam-no de trair a revolução bolivariana. A oposição quer mudar o regime. No meio da tensão política, o país vive uma profunda crise económica.

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