Dilma acusa Michel Temer de ser o chefe da conspiração

Segundo a presidente, é o vice, ao lado de Eduardo Cunha, quem está por trás da "maior fraude jurídica e política da história".
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Um dia depois de ter sido divulgado um registo áudio de Michel Temer a discursar como se o impeachment a Dilma Rousseff já tivesse sido aprovado na Câmara dos Deputados, a presidente chamou de "farsa" aquilo que o seu vice-presidente considerara um "acidente". A três dias da votação que pode determinar a substituição de uma pelo outro, a guerra entre os dois ficou definitivamente exposta.

"Vivemos tempos estranhos e preocupantes de golpe, farsa e traição", começou por afirmar Dilma Rousseff, antes de ser interrompida por cânticos de "fora Temer" e "golpistas e fascistas não passarão", numa cerimónia no Palácio do Planalto com docentes chamada "professores pela democracia". E prosseguiu: "Se havia dúvidas de que há um golpe em andamento, agora não há mais. Ontem utilizaram a farsa do vazamento, agora conspiram abertamente à luz do dia para desestabilizar uma presidente legitimamente eleita, fiquei chocada com a desfaçatez da farsa do vazamento, tentaram disfarçar o que era um anúncio de posse por antecipação, subestimando a inteligência dos brasileiros".

Sem se referir ao nome do seu vice-presidente, Dilma acusou-o indiretamente de ser o chefe da conspiração contra ela. "Um dos chefes da conspiração assumiu-se ontem", afirmou, entre palmas da assistência. Para depois acrescentar, também sem referência explícita, Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados e, como Temer, membro do PMDB, ao "golpe". "Os golpistas têm chefe e vice-chefe mas não se sabe quem é quem, um deles é a mão que conduz, com desvios, o projeto de impeachment, o outro esfrega as mãos e ensaia a farsa do vazamento de um pretenso discurso de golpe".

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"Acusam-me de métodos escusos para recompor a minha base, julgam-me pelo seu espelho, caluniam-me enquanto vendem votos no gabinete do golpe no governo dos sem-voto", continuou, a propósito dos convites que Temer vem fazendo para um eventual governo sob sua liderança.

A seguir, rebateu frases de Temer no tal áudio que serviu de ensaio ao seu discurso após a votação do impeachment na Câmara. "Diz que está pensando em anunciar que vai manter as conquistas sociais dos últimos anos como se conquistas sociais fosse algo que se pensasse se se vai ou não manter" e "como acreditar num pacto de salvação nacional sem nenhuma legitimidade? Sem a legitimidade do voto, ninguém pacifica".

Segundo a coluna de bastidores Painel, do jornal Folha de S. Paulo, o grupo do aplicativo whatsapp para o qual Temer deixou escapar o discurso "por acidente quando tentava enviar para um amigo avaliar", segundo o próprio, foi criado na véspera do descuido, às 10 horas da manhã, por Eliseu Padilha, um dos seus braços-direitos.

É a segunda vez em seis meses que Temer deixa escapar o conteúdo de uma comunicação sobre Dilma: a anterior foi uma carta aberta onde se queixava de ser "tratado como figura decorativa" pela presidente, de não ter sido ouvido numa mini-remodelação ministerial e de ter ficado de fora de uma reunião com o vice-presidente dos EUA Joe Biden com quem, assegurava o vice brasileiro, construiu boa amizade.

Ainda no discurso perante os professores, Dilma afirmou que "este impeachment é a maior fraude jurídica e política da história do Brasil" e que "os próximos dias vão mostrar quem honra e respeita a democracia que conquistamos com grandes lutas". "Este não será o país do ódio", concluiu.

Máquina calculadora

A presidente não se referiu à derrota do governo na Comissão do Impeachment da madrugada de ontem - 38 deputados votaram pelo relatório com parecer desfavorável a Dilma e 27 não - mas o seu núcleo mais próximo já recomeçou a luta corpo a corpo pela conquista de votos entre os 513 deputados que terão a palavra ao longo do fim de semana.

A posição do Planalto é desvalorizar o desaire, até porque já era esperado, e por outro lado destacar que a oposição obteve apenas 58 por cento dos votos dos 65 membros da comissão. No plenário terá de obter dois terços: 342 de 513. "Foi, como no futebol, uma daquelas vitórias que no entanto não chegam para passar por causa da diferença de golos", disse o deputado do PT Paulo Teixeira.

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Pela oposição, Antonio Imbassahy (PSDB) preferiu falar do sinal imparável que a vitória trará para o dia em que a votação chegar à Câmara dos Deputados, destacando que partidos dados como certos do lado da presidente estão a desembarcar, como é o caso do grupo parlamentar do PP, que estava reunido ontem no fecho desta edição a discutir a sua posição.

Celso Pansera, um dos ministros do PMDB do governo de Dilma que não se demitiu, disse por outro lado que os seis que se encontram na mesma situação votarão contra o impeachment da presidente.

Ministro barrado

Entretanto, o governo ganhou uma dor de cabeça paralela: o mandato de Eugénio Aragão, o ministro da Justiça que tomou posse no mesmo dia em que Lula da Silva assumiria a Casa Civil, foi ontem suspenso por uma juíza da sétima vara do Distrito Federal. Em causa, uma incompatibilidade pelo facto de exercer cargo no Ministério Público.

Já o antecessor, Wellington Cesar, durara 11 dias no cargo pelos mesmos motivos. A Advocacia Geral da União, órgão que defende judicialmente o governo, indicou que vai recorrer da decisão da juíza Luciana Moura.

São Paulo

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