"A ciência moderna chegou com os portugueses ao Japão"

Mihoko Oka

Fluente em português e professora na Universidade de Tóquio, Mihoko Oka tem investigado a relação entre Portugal e o Japão nos séculos XVI e XVII. Estudou em Lisboa e é casada com um português, com quem tem duas filhas.

Qual é a importância da chegada dos portugueses ao Japão no século XVI? Teve impacto na cultura japonesa?

Não só na cultura, penso até que o maior impacto foi no aspeto político, porque estávamos na época da guerra civil. Muitos senhores feudais lutavam. E com a introdução da espingarda no Japão, aquele que conseguia essas armas de fogo vencia as batalhas. Assim, no final, aquele que conseguiu mais espingardas, Oda Nobunaga , unificou o Japão. No aspeto da cultura, os portugueses também influenciaram. Estou a estudar esse aspeto, porque apesar de os monges saberem muito, o conhecimento de geografia era mínimo. No mapa só existia Japão, China e Índia. Mas com a chegada dos portugueses, o conhecimento do mundo ficou completamente alterado. E há o aspeto artístico, pois os portugueses foram muito pintados...

Aquilo a que chamamos arte namban...

Sim, muitas figuras de portugueses foram representadas nos biombos, sobretudo comerciantes. Também padres.

Mas quando os portugueses chegaram em 1543 teve de ser um choque. De repente aparecia gente com quem o Japão nunca tinha tido contacto, certo?

Acho que foram vistos como estranhos. Mas de início não perceberam que eram portugueses. Pensaram que eram indianos. Pouco a pouco, porém, o Japão começou a aprender a viver com esses estrangeiros vindos de muito longe.

Além das armas de fogo, os portugueses trazem o cristianismo. De início, a nova religião vai ter um grande sucesso no Japão, sobretudo no Sul. Porquê?

Tem que ver com a situação de guerra e de pobreza. Por isso na época não só o cristianismo mas algumas seitas budistas ganharam seguidores prometendo o paraíso. Aconteceu com pobres a conversão ao cristianismo, mas também com daimios, os senhores feudais.

Mas qual era a principal razão para essa conversão de alguns aristocratas?

Por exemplo, em Kyushu, havia senhores feudais interessados no comércio. E os jesuítas faziam de intermediários no trato com os portugueses. Sem a ajuda dos jesuítas não conseguiam fazer comércio tão bem. Nos mercados, lá estavam sempre padres como intérpretes.

Está a dizer que o povo aderiu ao cristianismo porque precisava de esperança, mas que os senhores feudais que se converteram foi por interesse económico?

Sim, mas houve conversões de aristocratas atraídos por razões intelectuais. A ciência e a tecnologia modernas, do Renascimento, chegaram pelos portugueses. Muitos japoneses perceberam que era uma civilização mais avançada.

Como explica que depois se lance uma repressão tão grande contra os padres portugueses e os cristãos japoneses?

Há vários motivos, mas o principal era o problema da unidade. Nessa época não era só o cristianismo que estava a crescer, havia também seitas armadas, que chegavam a ter territórios governados por monges. Quando alguém pensa em pacificar e unificar o Japão, esses grupos eram vistos como os mais perigosos. E o governo, seja Toyotomi Hideyoshi seja Tokugawa Ieyasu, via os cristãos como perigosos como as seitas budistas. Outro motivo é esses cristãos serem vistos como aliados de estrangeiros.

Apesar da repressão, o culto manteve-se no Japão, com mais de dois séculos de criptocristianismo. Como é que essas pessoas praticavam a sua fé?

Mesmo na época em que o cristianismo não era proibido, os padres eram poucos para o número de cristãos. No chamado "século cristão" do Japão, terá havido 150 padres no total em simultâneo. Diz -se que no início do século XVII havia 300 mil cristãos japoneses, por isso como é que os padres podiam tratar desses cristãos? Inventaram uma fórmula para manterem os rituais. Criaram confrarias que podiam organizar os sacramentos, tirando a confissão. Quando o cristianismo ficou proibido e perceberam que os padres nunca mais viriam, os cristãos mantiveram a fé com base nessas confrarias.

Em Tóquio, o DN viajou a convite do MNE do Japão

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