Vinte anos depois, Danny Boyle regressa a Edimburgo

Esta segunda edição de Trainspotting aposta num tom de desencantado reencontro com as quatro figuras centrais

Vinte anos passados sobre "Trainspotting", aí está a sequela, combinando realismo e comédia, humor e desencanto.

Deram-lhe um título que tem qualquer coisa de campanha de marketing para uma nova aplicação de telemóvel: T2: Trainspotting (estreia-se hoje). Em qualquer caso, o problema fulcral não estaria no título.

De facto, o primeiro Trainspotting (1996), adaptando o livro homónimo de Irvine Welsh, é um daqueles objetos cinematográficos que conseguiu um impacto comercial e, sobretudo, uma ressonância simbólica que rapidamente o transformaram em fenómeno de culto: o retrato dos quatro amigos de Edimburgo - interpretados por Ewan McGregor, Ewen Bremner, Jonny Lee Miller e Robert Carlyle -, cruzando as marcas da toxicodependência com a energia do pop rock, ficou como uma parábola de fim de milénio, ao mesmo tempo cáustica e libertadora.

Depois dessa experiência, o realizador Danny Boyle tornou-se ele próprio uma figura de culto, consagrado nos Óscares graças a Quem Quer Ser Bilionário? (2008), mais recentemente assinando o magnífico Steve Jobs (2015), a partir de argumento de Aaron Sorkin.

Muito mais do que uma revisão nostálgica ou caricatural, esta segunda edição de Trainspotting aposta num tom de desencantado reencontro com as quatro figuras centrais. As contínuas atribulações das suas existências envolvem mesmo um sentimento de profunda amargura: passaram-se 20 anos, os laços familiares são mais frágeis do que nunca, todos têm contas a ajustar com todos e todos se sentem ainda mais desamparados.

O facto de o argumento voltar a ser assinado por John Hodge não será estranho à coerência dos resultados. O típico humor de Danny Boyle surge mais cruel do que nunca. Nos seus melhores momentos, ele consegue combinar a frieza cirúrgica de uma fundamental tradição realista (britânica, obviamente) com um gosto de manipulação das imagens que não será estranho à estética dos telediscos. Não por acaso, as canções - de Iggy Pop (já presença importante no primeiro filme), Blondie ou The Clash - continuam a ser matéria visceral destes salteadores da Escócia perdida.

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