"Tento abrir bloqueios com a minha música"

A cantora tem uma pose peculiar em palco, usando uma capa como se fosse uma heroina da BD

A turca Gaye Su Akyol esteve no FMM em Sines. Oportunidade para conhecer esta influente artista

Encontramo-la horas antes do concerto no castelo de Sines, integrado no Festival Músicas do Mundo. Figura de proa da música alternativa turca, Gaye Su Akyol apresenta-se em palco vestida como uma heroína (ou vilã) de banda desenhada, à frente do quarteto de opa e mascarilha, no qual pontifica o guitarrista e companheiro Ali Güçlü Simsek. O seu primeiro disco tem como título Develerle Yasiyorum (Eu vivo com camelos), resposta com humor aos clichés - e à ignorância - dos estrangeiros perante a Turquia. Comecemos a conversa com outro chavão.

A Turquia é a ponte entre Oriente e Ocidente e a sua música é o exemplo perfeito disso.

Sim, a metáfora da ponte é um cliché, mas é verdade, e explica muito. Geograficamente, a localização da Turquia é muito complicada. Não pertence a lado algum, e isto é bom e mau ao mesmo tempo. Culturalmente somos muito ricos, e gosto da multiculturalidade quando esta é bem usada. Adoro ouvir ou ver o que quero, não quero que haja culturas que bloqueiem o meu comportamento. Na minha música pode-se ver isso, gosto da arte que liberta. Nenhuma cultura é melhor do que outra. Quando éramos crianças não era isso que nos ensinavam: a nossa cultura era a melhor, a nossa civilização era a melhor. Isto são bloqueios na nossa mente. Tento abrir esses bloqueios com a minha música, faço com que as pessoas pensem nesses assuntos, porque a política e os povos não devem ser confundidos. Portanto, sim, a minha música é uma ponte entre Oriente e Ocidente porque não sinto que pertença a outro lugar qualquer.

Mas quando põe as culturas todas no mesmo plano está a caucionar regimes que não respeitam os direitos humanos ou os direitos das mulheres, por exemplo.

Trata-se de um assunto muito complexo, porque quando se vê os eventos históricos que desencadearam essas leis podemos ver o lado negro. Quando vemos revoluções em certos países há ideias negras por trás. Por exemplo, o capitalismo tenta pôr algumas culturas mais para cima e outras mais para baixo. A religião é um assunto muito fácil de usar para controlar as pessoas. Ou a economia, quando muita gente empobrece de repente. Quando as pessoas estão na pobreza só pensam na sobrevivência, não pensam em democracia. A política é um animal muito feio. Cada ser humano merece viver em democracia, com direitos iguais, mas os países são ilusórios, devemos olhar para o mundo como um só.

Quanto à Turquia, sente-se menos livre agora em Istambul do que antes do golpe falhado do ano passado?

Em Istambul, as coisas estavam melhores há dez ou 20 anos, sim. Não se passa só na Turquia, passa-se também nos países do Médio Oriente. As coisas estão mais duras e complicadas, também para os Estados Unidos e para o Reino Unido. Estamos a ser governados por idiotas, não só na Turquia, mas em todo o lado. Os regimes que se alimentam da pobreza ou de emoções negativas não podem continuar.

A revolta de Gezi Park (em 2013) foi um ponto de viragem na Turquia?

Foi importante para a história da Turquia e para a história da democracia no mundo. Não havia poderes ocultos dentro do movimento. As pessoas só exigiam os seus direitos e a sua liberdade. Estive lá, vi e falei com pessoas das mais variadas camadas da população, e todas tinham uma coisa em comum: a defesa da liberdade. Daqui por dez anos talvez consigamos perceber a importância de Gezi. Depois de Gezi passei a acreditar mais na mudança. O tempo vence sempre, é uma coisa universal.

Como define o novo disco, Hologram Imparatorlugu (Império Holograma)?

Costumo dizer "a explicação mata a arte". Mas basicamente posso dizer que é uma grande metáfora sobre o momento que estamos a viver. Tem algumas dimensões físicas e metafísicas. Há um debate sobre se vivemos num holograma. Estamos a viver como se nos fizéssemos representar com hologramas.

E em termos musicais?

Estou sempre a pesquisar as minhas raízes, a minha cultura, os meus antepassados, o que me forma. Tento ver a história da música da minha cultura e também tento cavar mais fundo no meu eu, tento encontrar elementos no subconsciente que façam algo único. Não quero ouvir cópias e não quero produzir cópias de músicas. Extraio elementos de todos os tipos de música de que gosto mas combinando-os com a minha cultura em camadas ricas, coloridas e originais.

Uma das suas inspirações é Nick Cave.

Sim, certo. Mas há tantas mais. Por exemplo, Nirvana. Foi a minha grande descoberta quando era muito nova. É por isso que eu gosto de grunge, não só de Nirvana, mas de muitos outros grupos.

Que idade tinha?

Devia ter 9, 10 anos. Um dia ouvi Smells Like Teen Spirit pela primeira vez e a minha cabeça explodiu. Creio que foi a primeira vez que ouvi rock"n"roll com consciência. Adorei-os, comecei a fazer perguntas ao meu irmão e comecei a ouvi-los. E quando cresci conheci músicos como Nick Cave, Leonard Cohen, Tom Waits... Tantos outros. Nirvana foi o ponto de partida.

Essas são as influências estrangeiras. E quanto às turcas?

Nos anos 60 e 70 houve um movimento de rock psicadélico turco muito interessante, porque reunia camadas de diferentes géneros. Sou uma grande fã desta música. Selda Bagcan é o maior nome, entre outros, como Erkin Koray, Cem Karaca, Baris Manço. Há outros músicos turcos de que gosto muito, graças à minha mãe. Ela estava sempre a ouvir canções turcas e a cantá-las. Na minha música transparece a carga dramática entre as letras e a música. Há elementos turcos muito importantes na minha música.

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