O brasiliensis de Alexandra Lucas Coelho em 500 páginas

Capa de deus-dará

Alexandra Lucas Coelho escreve um terceiro romance, um misto de ficção e reportagem. Trata da história Brasil e Portugal durante os últimos 500 anos, entre outras coisas...

A autora de deus-dará escreve à página 58 sobre o Rio de Janeiro deste modo: "- Nunca aqui estive, mas estive. Porque a gente cresce com isto, estas imagens." E é isso que Alexandra Lucas Coelho vai reportar ao longo desta narrativa com mais de 500 páginas, sobre a qual pode dizer--se, a modos de facilitar, que calha uma a cada ano da existência daquele país - isto se considerarmos que a História começa após a descoberta de Pedro Álvares Cabral e que todo o passado nativo é folclore -, sendo que as folhas que sobram servem para umas adendas e ajustes de contas coloniais.

Tudo começa com um turista, a chegada ao aeroporto do Galeão num dia 19 de dezembro de 2012 e a viagem por uma Avenida Brasil caleidoscopicamente selvagem até à Zona Sul da antiga capital do Brasil. É nesta descrição que se sente logo o espírito de reportagem que se mistura com a visão ficcional da autora, criando um registo que já inaugurara no primeiro romance, E a noite roda, bastante diferente do segundo, O meu amante de domingo.

Quanto a essa disparidade de registos não há dúvidas, são estilos diferentes, sendo que o primeiro é uma deliciosa combinação entre o que poderia acontecer às personagens se fossem pessoas reais em cenários globais, também reais. Quanto ao segundo estilo, apesar de ilustrar um mundo que aparece como uma combinação entre o Adeus, Princesa [Clara Pinto Correia] e o Wild at Heart [David Lynch], foi um fôlego surpreendente e que merece continuação.

Mas deus-dará faz parte da história pessoal de Lucas Coelho, aquela que lhe está colada à pele e, quando chega a hora do suor da escrita, pois transpira mais naturalmente. Tem como subtítulo uma grande "epígrafe", Sete dias na vida de São Sebastião do Rio de Janeiro, ou o apocalipse segundo Lucas, Judite, Zaca, Tristão, Inês, Gabriel & Noé, e na contracapa a informação prestada declara que se pretende abarcar "quinhentos anos de história entre Portugal e Brasil num romance passado na atualidade".

A autora não engana, pois é isso que vai fazer, passando em revista acontecimentos de todos os géneros e tempos, através de todos os estados de alma possíveis e personagens (des)caracterizadas a rigor. Cada uma tem algo a contar, todas ocupam períodos dessa história que mandaram relatar, cruzando-se ou seguindo caminhos diversos pelas 534 páginas de texto.

Pode dizer-se que o leitor que já viveu no Rio de Janeiro irá confrontar-se com avistamentos literários tão superficiais como profundos sobre a mega e prolixa realidade da cidade - que são extrapolados para o país total numa tentativa de o explicar.

Como se fosse um guia turístico, sabem-se ao início pormenores sobre o grande túnel que une a periferia e o centro, o tal dos irmãos Rebouças. Tudo bem... Como fruto de investigação, sabem-se os grandes contornos históricos por via de pequenas histórias em que surgem Getúlio Vargas e outras figuras da política, esboços da vida de Machado de Assis, informações sobre a arte da inglesa Maria Graham e o seu diário, ou a atitude dos índios perante o Juízo Final pois já ultrapassaram o apocalipse. Como prova da vivência questiona-se a possibilidade de um jovem ficar com o olho furado por um estilhaço e vir parar ao romance por esta razão. Páginas onde, felizmente, muita coisa aterra e permite o conhecimento de múltiplos cenários como a fotografia inicial, de uma visão aérea da Baía da Guanabara, já prometia. Aliás, graficamente o romance é muito interessante porque vai incluindo imagens, diagramas, documentos, transcrições, entre outras coisas, que comprovam a realidade da existência da realidade brasiliensis onde cresce este romance.

"Nunca aqui estive, mas estive" é a sensação com que o leitor fica quando chega ao fim do livro.

Últimas notícias

Conteúdo Patrocinado

Mais popular

  • no dn.pt
  • Artes
Pub
Pub