"É possível que tenhamos de limitar o número de entradas na Torre de Belém"

A diretora-geral do Património Cultural, Paula Araújo da Silva, no Palácio da Ajuda

Paula Araújo da Silva chegou há nove meses à Direção-Geral do Património Cultural. Este ano, calcula, os mais importantes monumentos portugueses vão receber 4,5 milhões de visitantes. E a Torre de Belém, visitada por 608 mil visitantes em 2015, está a chegar ao limite da sua capacidade.

Comecemos pelas Jornadas do Património e o seu tema, Comunidades e Culturas, que será apresentado no Museu de Etnologia.
Tem sido cada vez maior a participação das várias entidades nesta atividade cultural e patrimonial. Em 2005, quando se iniciaram, tínhamos 90 entidades a participar e hoje temos mais de 600. Tínhamos 65 municípios, agora temos 150 e as atividades já estão em mais de 800 [localidades]. Há coisas a acontecer em todo o país. Somos nós, Direção Geral do Património Cultural [DGPC], que compilamos toda a informação no nosso site (www.património cultural.pt). O tema deste ano é Comunidades. Entendemos que se as comunidades não estiverem interessadas no seu património, ele não resiste. É fundamental as pessoas estarem interessadas naquilo que têm.

É uma tendência, há mais pessoas interessadas.
As populações estão ganhas para o património, os movimentos cívicos de defesa do património estão atentos ao que se passa nas cidades. Por exemplo, ao crescimento do turismo. Do bem que nos faz, mas da preocupação que temos com um crescimento que podia ser desmesurado e a que temos de estar atentos. Ficamos extremamente satisfeitos com isso.

O turismo tem essas duas faces: é ótimo para a economia, mas com esse perigo da turistificação e da descaracterização. ..
...E da pressão.

Como lidam com o aumento do turismo na DGPC, um tema novo?
Em 2010, nos serviços dependentes da DGPC, que são 23 - museus, palácios e monumentos -, tínhamos 3 milhões de visitantes e em 2015, 4 milhões. Mas de 2014 para 2015, subiu 500 mil e este ano vai ser maior, porque já temos uma avaliação dos primeiros 6 meses do ano. Provavelmente vamos ultrapassar os 4,5 milhões de visitantes nos nossos espaços. Os Jerónimos vão atingir este ano seguramente o milhão de visitantes [em 2015 teve 943 833 visitantes]. É um aumento com várias vertentes. Uma delas é a da responsabilidade da direção-geral, no sentido de ter capacidade de receber estes visitantes e de ter a qualidade na receção e na sua melhoria.

Há um gabinete de acompanhamento?
Temos uma direção de serviços só com museus, monumentos e palácios a monitorizar estas questões. Estamos atentos. Será possível que a Torre de Belém atinja os seus limites de capacidade [em 2015 recebeu quase 608 mil visitantes]. É um monumento extraordinário, mas pequeno em tamanho e com uma pressão turística muito grande. É possível que tenhamos de limitar no próximo ano, eventualmente, o número de entradas. Mas, de maneira geral, ainda temos muitas hipóteses de receber turismo.

Um dos projetos no vosso horizonte é tirar a bilheteira de dentro da Torre de Belém.
Queremos criar alternativas de bilhética, de forma geral. Não apenas para a Torre. Temos de privilegiar a compra pela Internet, e não tanto a compra direta que obriga as pessoas a fazer filas imensas, que existem por toda a Europa. Não pensem que só existem à porta dos Jerónimos! Passa também pela criação de sistemas de áudio-guias, que agora são mais modernos, descarregados nos telemóveis ou que as pessoas levam na mão. Temos os serviços a trabalhar nesta matéria, que tencionamos implementar no próximo ano. Verificámos que o nosso o maior número de visitantes é espanhol e francês. Pensamos que [os idiomas] espanhol e francês, além do inglês, é fundamental estarem presentes. Um em cada quatro visitantes é francês. Depois, há a questão das cidades. Sabemos que em Lisboa e no Porto está a haver uma mudança de habitação versus alojamentos locais, que tem de ser bem vista pelos municípios, e sei que estão atentos, para não haver uma desertificação. O problema ainda não existe, poderá vir a existir, mas não estou preocupada. A outra questão prende-se com a apresentação [do remate] do Palácio Ajuda. É a criação de outras alternativas.

Criar oferta?
Aumentar a oferta para tirar a pressão da Torre de Belém e dos Jerónimos. A pressão, por toda a Europa, incide sobretudo em patrimónios da Humanidade e naqueles monumentos que são um ícone do país. A Ajuda já é um sítio muito visitado, mas esta possibilidade de expor as Joias da Coroa será um atrativo e estamos convencidos que o número de visitantes vai aumentar.

As estimativas são de 200 mil visitantes por ano. Atualmente, o Palácio da Ajuda tem 65 mil visitantes. Não é arrojado?
Em 2015, teve 67 mil e até agosto 47 mil. Esses estudos foram encomendados a empresas que fazem estas estimativas e acreditamos que chegaremos a esse número, pela qualidade das joias e pelo trabalho de divulgação que tem de ser feito da coleção em si.

O protocolo entre a DGPC e a câmara de Lisboa acontece porque a DGPC não tem dinheiro para financiar a obra?
Não teríamos capacidade de implementar esta obra no imediato, por motivos financeiros e os parceiros estiveram disponíveis.

É possível montar este protocolo em outros municípios?
Sim, mas também não existem programas como o da Joias da Coroa por aí espalhados. É possível existirem parcerias. Aqui, a ideia era nossa. O remate do Palácio da Ajuda está mapeado há umas largas dezenas de anos e foram sendo feitos projetos de remate e já estava pensado que seria para mostrar a coleção.

Onde poderíamos ver uma parceria deste género?
Com o Museu do Coa já é, ainda que tenha sofrido vicissitudes. Tal como o Museu do Douro. Não são situações que se possam tipificar, surgem em função das necessidades e dos projetos.

Para onde é que o Museu do Coa vai? Qual é o seu futuro?
Há um grupo de trabalho, do qual faço parte, cujo processo está a ser liderado pelo senhor ministro da Cultura [Luís Castro Mendes] para encontrarmos entidades e parceiros para se conseguir manter a fundação e revitalizá-la, se é que podemos usar este termo.

É um problema de atratividade de visitantes?
O problema mais próximo foi a questão das fundações, da Lei das Fundações, que estrangulou do ponto de vista financeiro a Fun-dação. Não tem dinheiro, não tem atividade, se não tem atividade não tem gente e se não tem gente não tem atividade. Estou convencida que estamos em presença de um equipamento cultural excelente, e não uso estas palavras para qualquer coisa, que pode ser extremamente importante para aquela região. O Douro já é um ponto de atração turística muito importante. Várias empresas sobem e descem o rio. Para que este turismo se mantenha é fundamental existirem equipamentos culturais que deem mais possibilidades de visita e de permanência. O Museu precisa de fôlego e é disso que se está à espera.

No trabalho na Direção Regional da Cultura do Norte estava habituada a trabalhar fundos comunitários. A que somos candidatos no Portugal 2020?
Lisboa já não é candidata aos fundos, e estamos confrontados com uma grande dificuldade em promover candidaturas na área de Lisboa, mas temos preparadas uma candidatura no museu Soares dos Reis, no Porto. Teve obras importantes, um projeto do arquiteto Fernando Távora, e agora precisa de uma reformulação da própria exposição. Temos na região centro, os patrimónios da Humanidade - Mosteiro de Alcobaça, da Batalha e o Convento de Cristo - para os quais temos preparados projetos não só de conservação e restauro, de fachadas e coberturas, mas projetos de melhoria de condições de visita, das portarias. Estamos a preparar essas candidaturas para o final do ano. Existe também um projeto do Museu Machado de Castro, de um remate do edifício, que corresponde a uma antiga igreja, que se pretende que entre neste 2020. Temos preparado para Conímbriga a compra de terrenos que permitem alargar a zona da cidade Conímbriga. É importante do ponto de vista histórico, não para hoje ou para amanhã, mas são aquelas reservas para o futuro. Temos também alguns projetos de monumentos mais pequenos, como a igreja de São Gião da Nazaré, paleocristã, que queremos pôr de visita pública.

Qual é o trabalho mais importante que quer fazer na DGPC?
Não ponho dessa forma. Temos uma nova direção que tem detetadas algumas falhas. Uma delas é a da comunicação. Muitas vezes aparecemos pelo aspeto negativo, pelos edifícios que estão a cair. Estamos a apostar em divulgar o que fazemos e tentar melhorar a qualidade do atendimento. Outra preocupação nossa é a questão editorial. A direção geral deve ser a entidade que ajuda a pensar e sejam bem-vindos todos os que pensam, mesmo que não pensem como nós. E continuar a recuperação dos monumentos e melhorar as nossas exposições.

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