Do paraíso perdido ao coração das trevas

Charlie Hunnam, o ator que toma para si a jornada de Percy Fawcett

Realizado por James Gray e produzido por Brad Pitt, "A Cidade Perdida de Z" conta a história verídica do explorador Percy Fawcet. Chega esta quinta-feira às salas portuguesas

"Há qualquer coisa escondida. Vai e encontra-a." O verso do autor britânico Rudyard Kipling é certeiro, e deve dizer-se baixinho. Fica a ecoar por todos os lados. Retirado do poema The Explorer, sobre um homem impelido à aventura por uma voz interior que lhe fala de maravilhas perdidas, este acabará por se tornar uma espécie de epígrafe para a história de A Cidade Perdida de Z (estreia hoje nas salas portuguesas).

No entanto, quando é lido no filme, ao protagonista Percy Fawcett, ele ainda não está à procura de qualquer coisa escondida. O que o move é honrar o seu nome de família. Digamos que, embora proféticas, essas palavras de Kipling ainda não lhe assentam bem. Foram enviadas pela mulher, em tom de exortação, para o acompanhar naquela que será a sua primeira viagem à Amazónia, em 1906, com o propósito de cartografar território desconhecido entre a Bolívia e o Brasil.

A Royal Geographical Society, que lhe encomendou a missão, tem confiança no seu êxito, e ele só pensa numa futura notabilidade entre a aristocracia britânica. Mas depois de entrar no coração verde das trevas, e de ouvir falar de uma cidade ancestral coberta de ouro, o sussurro do explorador não mais o largará...

James Gray, ele próprio um explorador de géneros, que começou com policiais (Viver e Morrer em Little Odessa, Nós Controlamos a Noite), passou pelo melodrama (Duplo Amor) e pelo drama de época (A Emigrante), traz com A Cidade Perdida de Z mais uma variação para a sua filmografia: o biopic. Porém, dizê-lo assim, com este sentido fácil de categorização, pode induzir em erro. Aquilo que Gray tem procurado, filme a filme, imbuído do discreto classicismo das suas referências cinematográficas, e numa abordagem persistente dos laços familiares, passa ao lado de qualquer género. Ou melhor, sobrepõe-se a ele.

A partir do livro homónimo de David Granno (não ficção), centrado na figura do coronel britânico Percy Fawcett, conhecido pela sua inabalável crença na existência de uma civilização perdida na Amazónia, Gray interessou-se pela crónica de uma obsessão. Não a que identificamos pelos rostos de loucura de Marlon Brando em Apocalypse Now (1979) ou Klaus Kinski em Fitzcarraldo (1982), mas aquela que vive num reduto da alma, até à concretização pacífica.

Charlie Hunnam, o ator que toma para si a jornada de Fawcett, supera-a com as nuances certas do homem que se transformou, e decidiu enfrentar a arrogância da sociedade britânica do início do século XX. Dizia ele, entre os risos de uma assembleia, que os índios não são os selvagens que o Ocidente imaginava, e insistiu em voltar à Amazónia para procurar a cidade perdida que chamou de Z. O seu eldorado, como muitos parodiaram.

Entre as expedições do coronel, na companhia do seu bom amigo Costin (Robert Pattinson), e a Primeira Guerra Mundial, Gray detém o olhar sobre o desgaste do vínculo da família. Para além de uma mulher resistente (Sienna Miller), que a cada nova partida só pode sonhar com o regresso do marido (chegando a oferecer-se para ir com ele), há o filho mais velho, tomado pela frustração diante da fé "mágica" do pai, que alimenta a sua ausência. Um filho que, por fim, irá ceder na sua cólera e propor uma derradeira expedição conjunta. De resto, a mais bela, poética e misteriosa de todas.

Com elegância suprema, James Gray converte as linhas épicas da história de Percy Fawcett numa aventura introspetiva, que não cede a qualquer expressão garrida dos acontecimentos. É como se a ação esperada a cada regresso à floresta amazónica fosse sempre suspensa pela necessidade maior de travar diálogo com a paisagem e os indígenas, enfim, com o misticismo local.

Uma harmonia narrativa que não se altera na passagem para a "civilização", onde a complexidade dramática, escoltada pelo trabalho do diretor de fotografia, Darius Khondji, se disciplina no enquadramento, por uma fascinante justeza de luz e sombra.

A Cidade Perdida de Z é então "só" um filme bonito? Não. É um filme que, pelo primor do tecido visual - às vezes estranhamente onírico - e pelo seu movimento gracioso, nos chama para dentro de um lugar desconhecido. No fundo, chegar a Z é sempre uma questão de entrega.

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