Das termas ao museu: o Walk & Talk ocupa São Miguel

A instalação da japonesa Akane Moriyama interpela um espaço de cultura que não convida a entrar na Ribeira Grande

Na sua sétima edição, o festival de arte pública tem cada vez menos murais e cada vez mais peças em espaços inusitados, fora da cidade de Ponta Delgada. Depois de duas semanas de programação intensa, o Walk & Talk termina hoje

Podemos dizer que a enorme estrutura de madeira que está no Largo de São João, em Ponta Delgada, é um projeto do ateliê de arquitetura JQTS - João Quintela e Tim Simons. Mas a verdade é que, neste momento, aquela obra de arte é muito diferente do projeto que os artistas, que habitualmente trabalham entre Lisboa e Berlim, traziam quando aterraram na ilha de São Miguel há um mês. Os arquitetos foram convidados pelo festival Walk & Talk para criar uma instalação para o largo, mesmo ao lado daquela que foi, durante seis edições, a base do festival. Como um ponto de referência, um farol, para os visitantes. Entretanto, o edifício foi vendido e, dois meses antes do arranque, o festival despejado. O projeto teve de ser alterado.

Mudou o seu nome para Gallery e passou a ser uma memória da antiga sede do W&T, a construção de madeira a imitar o edifício de grandes janelas, procurando ainda uma relação com a arquitetura daquela praça um pouco inóspita, em frente ao Teatro Micaelense, por cima do parque de estacionamento. "Uma espécie de beco sem saída", explica Ricardo Gomes, do ateliê KWY, os curadores deste ano do circuito de arte pública do W&T. "Eles tentaram criar um espaço que desse um motivo para as pessoas virem aqui, que pudesse ser usado e desse um propósito à praça." Uma estrutura labiríntica feita com cortinas de rede, imitando as ruelas que convergem para a praça.

João Quintela e Tim Simons criaram uma estrutura de madeira, como memória da antiga sede do festival em Ponta Delgada, que entretanto foi vendida. A coreógrafa Vânia Rovisco fez uma performance com o seu grupo

Na primeira semana do W&T, que arrancou a 14 deste mês, o espaço começou de facto a ser usado mas de noite, por jovens que a usavam como refúgio para brincadeiras, danificando-a. "Para mim, a obra foi um sucesso, estava a cumprir-se o objetivo", comenta o curador. Mas os artistas estavam preocupados com a vandalização. E, como já havia a ideia de o espaço ser ocupado por outros artistas que participam no W&T, a coreógrafa Vânia Rovisco, que estava no teatro a criar um espetáculo, decidiu fazer ali uma performance com o seu grupo. Aconteceu na segunda-feira à noite. O músico Jochen Arbeit (dos Einstürzende Neubauten) lançou os sons e os bailarinos invadiram o espaço. No final, tal como combinado com os autores da Gallery, pegaram em facas e arrancaram todas as cortinas de rede.

"Foi um momento estranho", recorda Ricardo Gomes. "Foi bonito mas doloroso ao mesmo tempo." Agora, a obra é uma memória de si mesma. Já sem as cortinas, o espaço fica aberto e é apenas uma estrutura de madeira. Oca. Transparente.

Ocupar a ilha

Ben Clement e Sebastian de la Cour criaram uma minifloresta nórdica no Parque Terra Nostra, nas Furnas

A Gallery ilustra bem o espírito do Walk & Talk, o festival que começou por ser de arte pública mas que, hoje em dia, é de muitas artes, mantendo entre os seus princípios a aposta na criação site specific, em residência, de obras de arte em ligação com os locais e com as pessoas da ilha, e também a interação entre os vários artistas participantes.

Jesse James, o diretor artístico (a par de Sofia Carolina Botelho), explica que o grande desafio desta sétima edição foi mesmo terem perdido a casa. Aquele edifício com quase 500 metros quadrados de área albergava toda a estrutura do festival, desde o escritório à loja, passando pelas oficinas de artesanato ou a cantina. "Tivemos de procurar outros espaços no centro da cidade, sendo óbvio que teríamos de redimensionar alguns projetos e reorganizar o festival", conta.

Nessa busca de última hora por soluções, os organizadores foram forçados a refletir também sobre o envolvimento da comunidade no W&T: "Aqueles que permitem que o festival aconteça e que, muitas vezes, depois nem vão ver as obras, acabam por ser tão ou mais importantes do que os participantes", conclui. "Claro que queremos que o festival seja relevante junto dos pares, procuramos o reconhecimento dos artistas, dos curadores, das outras instituições, mas não podemos perder esta relação com as pessoas que estão à nossa volta."

O festival tem este ano um orçamento de 120 mil euros, dos quais 30 mil são em géneros, "em parafusos e madeiras", e outro tipo de ajudas indispensáveis. "O facto de o nosso principal apoiante ser o Turismo e não a Cultura também nos dá uma outra responsabilidade", admite Jesse James. O W&T também é feito dessa ligação aos vários produtos da ilha, sejam eles uma galeria de arte como a Miolo, a comida vegetariana do restaurante Rotas, as piscinas naturais, os ananases e os bolos lêvedos.

Este ano, com a curadoria da KWY, procurou-se alargar ainda mais o circuito de arte pública a mais locais fora de Ponta Delgada, instalando obras em espaços naturais - é o caso da obra de Teresa Braula Reis na Ferraria (as termas que são um dos pontos mais turísticos de São Miguel). Este foi também o ano em que menos murais foram produzidos. Apostou-se mais nas obras em três dimensões (como a instalação sonora de Ricardo Jacinto no coreto, Medusa) ou performances (como a do canadiano Mark Clintberg, que criou Intermediário, uma espécie de centro comercial imaginado, com direito a posters espalhados pela cidade e data de inauguração marcada mas que na verdade não existe) ou mesmo espetáculos (para além de Vânia Rovisco também o brasileiro Gustavo Ciríaco esteve aqui a criar em residência, com intérpretes locais).

O único mural ficou por conta de Spy, um artista old school, pioneiro do graffiti em Espanha. Mas a verdade é que ele próprio, que começou a trabalhar numa altura em que a street art era um ato político, se tem questionado sobre o propósito dos murais usados como forma de embelezar as cidade e, por isso, o seu projeto no W&T acaba por ser um questionamento: num muro junto ao mar inscreveu a frase "No more walls" (Não mais paredes).

Um raio de cor no Arquipélago

Akane Moriyama, artista japonesa que estudou arquitetura e que, entretanto, se mudou para Estocolmo, onde se dedicou mais ao têxtil, foi convidada pelo Walk & Talk para trabalhar no espaço do Arquipélago, o centro de artes contemporâneas inaugurado há pouco mais de dois anos, na Ribeira Grande, a quase meia hora de viagem de Ponta Delgada. Ao visitar o fabuloso edifício criado por João Mendes Ribeiro e o ateliê Menos é Mais Arquitetos, usando a pedra negra dos Açores, Akane reparou que ele se encontrava quase sempre vazio e que a população à sua volta não tinha qualquer ligação com o que ali se passava. "Está isolado. Não é um edifício que convide as pessoas a entrar, podemos passar à porta e nem reparar que isto está aqui", explica.

Imaginou, então, uma espécie de uma longa passadeira suspensa, colorida, que chamasse a atenção de quem está na rua e indicasse o caminho para o interior. Essa estrutura feita de aço e um tecido de tule com 70 metros, originalmente branca mas que a artista coloriu em tons que vão do laranja ao amarelo, faz "a ligação entre o exterior e o interior". Mas Akane queria que a rede viesse até mesmo à rua, o que não foi aprovado pela direção do Arquipélago. "Por motivos de segurança, disseram-me." A peça fica no espaço exterior mas que, à noite, é fechado por um portão. Desiludida, como forma de protesto não cortou a rede, deixando que no final o excesso de tecido fique todo amarfanhado. Apesar de tudo, Akane mostra-se satisfeita como a peça intitulada Azorean Spectrum Range é diferente se vista de diferentes perspetivas, consoante o sol e o vento. Um raio de cor no meio do escuro Arquipélago.

O que falta neste jardim exótico?

Um hotel de luxo, um jardim imenso, as piscinas de água quente, vindas do fundo da terra açoriana. Localizado nas Furnas, o Terra Nostra Garden Hotel é um dos pontos incontornáveis num roteiro turístico por São Miguel. Imaginem um luxuriante jardim tropical, com inúmeros caminhos e recantos, cheio de flores e enormes árvores, e, no meio dele, um lago de água quente - esqueçam a cor alaranjada e o cheiro do enxofre. Foi num dos recantos do jardim que a dupla nórdica benandsbastian instalou a sua peça, Nordic Miniature.

O britânico Ben Clement e o dinamarquês Sebastian de la Cour desenvolvem habitualmente um trabalho em torno das falhas que detetam nas coleções de museus e outras instituições artísticas. Neste caso, ao percorrerem o parque Terra Nostra, perceberam que neste jardim, que reúne plantas de várias partes do mundo, não tinha espécies nórdicas. Criaram então uma espécie de uma vitrina (mas sem vidros) com uma miniatura de uma floresta nórdica (ou, pelo menos, do que corresponde ao imaginário de uma floresta nórdica), com plantas que não existiam ali. O desafio será como manter plantas habituadas ao frio no clima quente e húmido dos Açores.

Na verdade, como o festival Walk & Talk termina hoje, a maioria das peças de arte pública irão ser desmontadas. Não havendo hipótese de assegurar a sua manutenção, essa é a melhor opção, uma vez que, no espaço público, as peças iriam degradar-se com o tempo e os elementos do clima, e poderiam até representar um risco para a população, explica a organização. "As peças ficarão enquanto tiverem dignidade", diz Jesse James. No entanto, as peças de Akane Moriyama e benandsebastian, como estão situadas em espaços privados, poderão ter uma vida mais longa. As condições ainda estão a ser negociadas com os respetivos parceiros, mas pelo menos durante o verão será possível continuar a visitá-las.

A jornalista viajou a convite do Walk & Talk

Últimas notícias

Conteúdo Patrocinado

Mais popular

  • no dn.pt
  • Artes
Pub
Pub