Das capas das bandas dos amigos às capas do rapper Frank Ocean

O designer gráfico e ilustrador Bráulio Amado vive em Nova Iorque desde 2011. Depois de se despedir do seu emprego de sonho, em março arrancou com o seu próprio estúdio.

Quem segue a carreira de Frank Ocean e na madrugada de domingo se apressou a ouvir Provider, tema lançado de surpresa durante o programa Blonded Radio que o rapper norte-americano tem na rádio Beats 1, cruzou-se com o trabalho de Bráulio Amado.

Foi o designer gráfico e ilustrador português, de 30 anos, quem fez a ilustração que acompanha a mais recente criação de um dos nomes mais relevantes na cena musical dos Estados Unidos. O mesmo tinha acontecido com Lens, lançado em abril pelo rapper que em 2016 liderou os tops norte-americano e britânico com o seu segundo trabalho de estúdio, Blonde. "A música é o meio onde estou mais inserido e pelo qual tenho uma paixão maior", explica Bráulio, a partir de Nova Iorque, para onde se mudou em 2011.

Um meio que cedo se atravessou no seu caminho: "Comecei a desenhar websites para bandas de amigos por diversão aos 14 anos. Aos poucos comecei também a fazer as capas dos discos deles, e isso fez com que começasse a tentar aprender por mim próprio (e com a ajuda da internet) como é que isto tudo funcionava." E se as bandas Vicious 5 e Easyway já não existem, Bráulio conseguiu fazer desta diversão da adolescência a sua forma de vida.

Não era um daqueles miúdos que maravilhava tudo e todos sempre que pegava num lápis. "Nada mesmo", diz. "Eu sempre gostei de desenhar, mas tudo o que fazia era horrível e a experiência era um pouco frustrante. Só no primeiro ano de faculdade [de Belas-Artes] é que tive um professor de desenho que me ensinou a perceber como a disciplina de desenho funcionava, e a partir daí fui evoluindo."

Uma evolução que passou por deixar o curso de design de comunicação da faculdade no final do primeiro ano. "Toda aquela teoria chateou-me um pouco. Já estava a trabalhar e queria aprender coisas práticas, então decidi mudar para a Ar.Co e estudar design gráfico. Durante os quatro anos do curso, comecei a fazer algumas coisas para o MySpace Portugal, trabalhei para uma revista de arquitetura (A21) e quando tinha umas horas livres trabalhava na [agência de publicidade] MSTF Partners", enumera, para rematar em tom de brincadeira: "Nem acredito que conseguia fazer isto tudo ao mesmo tempo."

No último ano na Ar.Co ganhou uma bolsa e deixou Almada e as viagens diárias de barco rumo a Lisboa para trás. Entrou na School of Visual Arts em Nova Iorque e, terminado o semestre, convenceu um professor a deixá-lo estagiar na empresa em que trabalhava, a consultora de design Pentagram. E, no ano seguinte, conseguiu o seu trabalho de sonho. "No meu primeiro ano em Nova Iorque, a Bloomberg Businessweek teve um redesign total e tornou-se numa publicação divertida e interessante em termos de design. Eu comprava a revista todas as semanas não pelos artigos mas pelo design em si. Era o meu dream job! Tentei várias vezes trabalhar lá, mas nunca tive resposta. Um dia, totalmente por sorte, recebi um e-mail de uma frase a perguntar se queria ir a uma entrevista. Fui, correu superbem, e fiquei por lá. Correspondeu a todas as expectativas e foi sem dúvida o melhor sítio onde trabalhei, e tudo o que sei hoje aprendi lá."

Em 2016, nova mudança. "Adorava a Businessweek mas queria aprender coisas novas, então arrisquei." A experiência na agência de publicidade Wieden+Kennedy "não foi exatamente o que estava à espera". "Especialmente porque paralelamente já fazia uma série de trabalhos por conta própria. Até que chegou uma altura meio parva em que estava a trabalhar para o mesmo cliente na agência e em casa. Na agência tinha um diretor criativo a dizer-me o que queria. Em casa era eu a tomar as decisões. Não fazia sentido estar a matar-me a trabalhar 16 horas por dia, portanto decidi despedir-me antes de perder a sanidade mental. Foi sem dúvida a melhor decisão que tomei. Todos os dias fico surpreendido com o facto de estar a conseguir viver a minha vida, numa cidade tão cara como Nova Iorque, a fazer isto."

Em junho foi um dos ilustradores em foco na Festa da Ilustração de Setúbal e alguns dos mais de cem posters do seu livro editado pela Stolen Books estiveram expostos na Galeria Abysmo, em Lisboa. Neste momento está a trabalhar com Moullinex no álbum Hypersex, que será editado a 6 de outubro. "Há mais umas quantas capas/discos a sair em breve, mas tenho de manter segredo." Ficaremos atentos.

[texto corrigido às 12.30]

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