Aos 235 anos, o Martinho regressa às tertúlias com Marcelo e Eunice

António de Sousa, proprietário do Martinho, e Luís Machado, o escritor que organiza as tertúlias

O ciclo começa no dia 20 deste mês com Eunice Muñoz e termina a 4 de abril com o Presidente da República. Pelo café passarão ainda Cruzeiro Seixas ou Manuel Alegre

Para Luís Machado, este começou por ser o sítio onde ele bebia "um cafezinho" quase diário com a namorada que vivia na margem sul do Tejo e ali chegava de barco nos anos 70. Nessa altura, o Martinho da Arcada, que hoje comemora 235 anos, já estava na Praça do Comércio, erguida após o terramoto de 1755, o que faz dele o mais antigo café de Lisboa em atividade. "Era frequentado pelas pessoas que trabalhavam aqui - naquela altura a Bolsa de Lisboa estava aqui sediada e havia mais ministérios, mais firmas comerciais -, por pessoas já de uma certa idade que ainda eram moradoras, por muitos militares, porque estava aqui o estado-maior do exército e da armada..."

A partir de 1991 este seria o lugar onde Luís, entretanto já escritor e jornalista, traria Álvaro Cunhal, Mário Soares, Amália, Siza Vieira, Eusébio ou Júlio Pomar para jantar e conversar perante uma plateia que os escutava, jantava e intervinha também, nas já conhecidas tertúlias do Martinho da Arcada. A paisagem e a clientela mudaram muito; os turistas entram e saem, procuram e encontram: a mesa de Fernando Pessoa, onde escreveu muitos dos seus poemas, lá está, a mesma onde ele bebeu o último café três dias antes de morrer. "Parece que já não bebeu outro", graceja António de Sousa, proprietário do Martinho da Arcada desde 1989.

Foi para comemorar os 235 anos do café que ele, o minhoto que em "moço fugiu do Salazar para o Rio [de Janeiro], com um dólar no bolso", convidou Luís Machado para retomar as tertúlias do Martinho da Arcada. É "um último ciclo", afirma Luís, o que trará ao Martinho Eunice Muñoz (20 de janeiro), Diogo Freitas do Amaral (3 de fevereiro), Cruzeiro Seixas (17 de fevereiro), Manuel Alegre (3 de março), Elisabete Matos (17 de março), e, para o encerrar, Marcelo Rebelo de Sousa (4 de abril). "Convidei-o há seis meses. Não vai ser uma entrevista ao Presidente da República. Eu quero falar do homem, do académico, do político, e, no final, do Presidente. E ele disse: 'Sim senhor, pode contar comigo.'" Dias depois ligariam a Luís da Casa Civil para marcar a data, única exceção à regra das sextas-feiras.

Fernando Pessoa (à direita) com Raul Leal, António Botto e Augusto Ferreira Gomes em 1928

Só houve dois nomes que Luís Machado não conseguiu agora trazer ao Martinho: a pianista Maria João Pires - "fiz o que podia. Ela zangou-se com Portugal, foi viver para o Brasil" - e António Guterres - "ainda não sabia que seria o Secretário-Geral das Nações Unidas. Na sala cabem 75 pessoas ("e apertadinhas") razão pela qual é recomendada a reserva antecipada para cada uma das noites. O preço, com jantar incluído, é de 20 euros.

"Olha, é a mesa do Pessoa", diz um visitante brasileiro ao outro. Tentamos não estorvar. Sentamo-nos na mesa ao lado daquela onde ainda está a chávena do poeta; em cima o seu chapéu e, mais acima ainda, a fotografia onde ele surge com Costa Brochado. Mas o Martinho não é só essa galeria de fantasmas. "Há tempos tivemos aqui uma intervenção nas paredes, no ar condicionado, e tiramos os quadros todos. Um dia chega-me o Eduardo Lourenço: "Olhe, venha cá, isto antigamente tinha aqui uma alminha. Por onde anda essa alminha hoje?" Era ele, está aqui deste lado. Eu ri tanto. O professor é o máximo. Vem cá muitas vezes" conta, divertido, António de Sousa.

Pouco depois, vai buscar um dos livros de visita do café. "Viva o Martinho", escreveu Guterres em 1998. Está lá a Miss Brasil de 1991, António Skármeta, autor de O Carteiro de Pablo Neruda, um beijo de batom da atriz brasileira Zezé Motta, um desenho do criador dos Pokémon, Satoshi Tajiri. Por ali passaram também Sophia de Mello Breyner, Fernando Lopes-Graça, Jorge Amado, ou o chanceler Gerhard Schröder, antecessor de Angela Merkel. António mostra a mensagem que Saramago escreveu quando ele, após o prémio Nobel, lhe atribuiu uma mesa no café: "Que palavras poderei escrever na minha mesa? Provavelmente não há outra melhor que a mais banal de todas. Obrigado."

Muito antes de tudo isso, lembra Luís Machado foi ali redigida a Carta Constitucional de 1826. "Desde os regimes monárquicos à república e à ditadura foi um local muito importante. Também durante a clandestinidade para a maçonaria, porque o proprietário [Alfredo Mourão] era o tesoureiro-geral."

Agora, o último ciclo das tertúlias Rostos da Portugalidade retomam uma tradição que nasceu em 1991 com os ciclos Conversas À Quinta-Feira, que passariam depois a As Noites do Martinho e, por fim, em 2009, último ano de tertúlias, Rostos da Portugalidade. Luís Machado regressa a 1991 para lembrar a despedida de Amália no final da tertúlia: "Obrigado, foi uma noite memorável para mim. Quando eu morrer, chorem por mim." E recorda ainda como Álvaro Cunhal apareceu apenas "com um assessor de imprensa e um segurança. A sessão estava cheia. Foi um risco. Podia haver gente que viesse para provocar". Lembra o silêncio sepulcral que antecedeu o início da conversa e que foi quebrado assim: "'Ó sôtor, o sôtor é escorpião, não é?' 'Sou.'" Cunhal, que comia "um arrozinho de marisco ainda à moda antiga, usava o garfo e o pão", contaria depois que uma "camarada" lhe enviava sempre os horóscopos.

Nos 235 anos da casa, Luís Machado e António de Sousa lamentam ainda não ter avançado com o projeto Pessoa Plural, que pretende usar a sobreloja do café para "fazer um auditório, recitais de poesia, conferências, uma livraria pessoana" e reafirmar a imagem do Martinho como "café literário". O pedido para usar o espaço foi feito ainda ao Ministério das Finanças do anterior executivo, pois a sobreloja pertence à Direção-Geral do Tesouro, mas não teve qualquer resposta. Já no atual governo de António Costa, João Soares, então ministro da Cultura, reconheceu, num parecer enviado às Finanças, o "mérito cultural" do café, mas nada mudou ainda. "O que é deselegante é que todas as sobrelojas foram cedidas, mas ao Martinho não. Mexe comigo", lança António de Sousa. Mesmo que hoje seja dia de festa.

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