13 projetos portugueses podem vencer o prémio Mies van der Rohe

O parque de campismo de Abrantes

Dos 356 projetos selecionados, dois são de Abrantes, dois são da EDP. E há dois Álvaro Siza, dois ARX dois Aires Mateus, um deles candidato pela França.

Os Aires Mateus têm dois projetos na lista de 256 projetos de arquitetura que a Fundação Mies van der Rohe deu a conhecer ontem como candidatos ao prémio bienal que distingue a arquitetura europeia contemporânea. A sede da EDP, em Lisboa, é um dos 13 construídos em Portugal, o outro é o Centro de Criação Contemporânea Olivier Debré, em Tours, França. São os únicos arquitetos portugueses selecionados com uma obra estrangeira, no país com mais obras nomeadas, a par de Espanha. Ao todo, 28.

O Centro de Criação Contemporânea Olivier Debré, em Tours, França

O arquiteto diz que é "desorganizado" e nem sabia que estava nomeado. Chegar à grande seleção para o prémio não é inédito no gabinete dos irmãos Manuel e Francisco Aires Mateus. Já passaram à lista de 40 que o prémio Mies van der Rohe escolhe e, desta, à lista de cinco finalistas entre finalistas, de que sai o vencedor. Aconteceu com o Centro Cultural de Sines, em 2007, e, a Residência da Terceira Idade de Alcácer do Sal, em 2013. "Chegando lá acordamos, agora estamos com um olho aberto e outro fechado", afirma Manuel Aires Mateus, ao telefone com o DN, ontem, pouco depois de ser conhecida a lista de 356 projetos candidatos a finalistas. "O que é mais curioso desta vez é sermos escolhidos com um [projeto] em Portugal e outro em França". Aliás, como completa, "é a primeira construção que fazemos fora. Que construímos e que inauguramos".

Os projetos que chegam a esta extensa lista são propostos por associações de arquitetos, entre elas a Ordem dos Arquitetos, e um comité consultivo; um júri avaliará os projetos e fará uma shortlist de 40, avaliada a partir de documentos, fotografias e vídeos dos autores. Destes sai a lista de finalistas, cinco edifícios que serão visitados em abril pelos membros do júri.

A Blbioteca Pública de Angra do Heroísmo, da arquiteta Inês Lobo

O vencedor do prémio é conhecido a 26 de maio do próximo ano numa cerimónia que acontece no Pavilhão Mies van der Rohe, em Barcelona, como aconteceu há dois anos com o gabinete Barozzi Veiga, sediado na capital catalã, distinguido pelo projeto da Filarmonia de Szececin, na Polónia.

Portugal só venceu uma vez, em 1988, na primeira edição do prémio com o edifício Borges e Irmão de Álvaro Siza, que está também nesta lista, com dois museus. Aquele que é dedicado a Nadir Afonso, em Chaves e o Abade Pedrosa, em Santo Tirso, co-assinado com Eduardo Souto de Moura. Contactado pelo DN, preferiu não comentar a inclusão nesta lista.

Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT)

Dos 13 projetos, a EDP salta à vista entre os clientes, já que o Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia também consta da lista. É o único que não tem assinatura portuguesa. "A inclusão do MAAT nesta lista é, além de uma honra para a Fundação EDP, a celebração de uma notável obra de arquitetura e do trabalho da [britânica] Amanda Levete", afirma ao DN, Miguel Coutinho, administrador executivo da instituição.

Norte, Lisboa, Açores

Os restantes projetos espalham-se pelo país, Açores incluídos, com a Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Angra do Heroísmo na ilha Terceira. "Estamos muito contentes ainda por cima foi uma obra tão demorada e tão complexa", disse a sua arquiteta ao DN. "Foi uma obra marcante, vê-la nomeada para um prémio tão prestigiante é gratificante", diz Inês Lobo, que espera que agora que a nova Biblioteca de Angra do Heroísmo consiga "ir mais longe", ou seja, passar à shortlist dos prémios Mies Van der Rohe.

Esta foi a primeira vez que a arquiteta, com atelier em Lisboa, interveio numa malha urbana classificada pela UNESCO como Património Mundial. A Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro foi inaugurada em setembro último.

Dos Açores para Vale de Cambra, a recuperação de nove casas de campo na aldeia de Trebilhadouro, valeram a André Tavares a entrada nesta lista de candidatos. Ainda surpreendido pelo e-mail recebido "há umas três semanas" com o pedido de envio de mais informação sobre o projeto, André Tavares, com atelier no Porto e formado na Faculdade de Arquitetura da cidade onde também dá aulas, lembra o grande desafio foi "tentar manter um ambiente de casa de campo, preservando os materiais e as técnicas de construção artesanais do local". Uma aldeia com cerca de 30 casas, praticamente todas abandonadas, estando várias em processo de recuperação também para utilização como turismo rural, tal como o conjunto que recuperou, uma encomenda de dois proprietários para um projeto que contou com fundos comunitários para a sua concretização.

Foi pelo DN que soube quem eram os restantes arquitetos presentes na lista da Fundação Mies Van der Rohe e confessou: "Tudo arquitetos que eu gosto. É um privilégio estar aí no meio". A cena repetiu-se com João Pedro Serôdio e a reação foi imediata: "Quem ganha sempre são os museus", observa quando indicamos o Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, o Museu Abade Pedrosa e o Museu Nadir Afonso como integrantes da lista. Satisfeito com esta indicação para o prémio, o arquiteto do atelier Serôdio, Furtado Arquitetos, do Porto, explicou ao DN que o Instituto de Inovação e Investigação em Saúde, uma encomenda da Universidade do Porto, "é um edifício muito complexo, muito técnico" em que, por exemplo, "todas as correntes de ar são controladas". Com uma estrutura bastante flexível - "porque as investigações evoluem muito e é preciso adaptar os espaços" - e também muito racional - "trabalham ali quase mil pessoas" -, o edifício foi inaugurado em maio deste ano.

Duas obras em Abrantes

Abrantes destaca-se como pequena localidade onde estão situados dois dos 13 projetos. "Dois dos meus primeiros projetos", começa por dizer ao DN a presidente da câmara, eleita no final de 2009. Maria do Céu Albuquerque destaca a vocação social de ambos. No caso do Parque de Campismo, do Atelier Rua, "representa o corolário da recuperação das margens ribeirinhas, projeto que inclui também a Estação de Canoagem de Alvega, que tem como objetivo uma maior vivência do Tejo por parte da população".

Mercado de Abrantes, dos ARX Arquitetos

Quanto ao outro projeto, o Mercado Municipal, lembra o episódio que levou ao lançamento do concurso: "o antigo mercado foi encerrado pela ASAE e decidimos avançar com a recuperação de um outro edifício dentro do casco histórico". Este é um projeto do atelier ARX, dos arquitetos José e Nuno Mateus, que surgem como autores de dois projetos nesta lista. "Não trabalhamos para os prémios, mas são sempre motivo de satisfação", afirma José Mateus. Apesar de serem obras completamente diferentes entre si, o Mercado Municipal de Abrantes e o Centro Sócio-Cultural Costa Nova, em Ílhavo, têm traços em comum: "são ambos obras públicas que revelam a exigência e a aposta de dois municípios na qualidade do projeto". Outro elo de ligação, destaca o arquiteto ao DN, é "a investigação construtiva" subjacente. O Mercado Municipal, "ostensivamente em betão à vista, o que exige grande disciplina de projeto, é um trabalho que surge no seguimento da investigação já iniciada na Casa de Lisboa e na Casa de Leiria". No caso do Centro Cultural, o material de construção eleito foi a madeira, "um tema muito interessante para investigação pelas soluções técnicas que proporciona". Não se trata aqui de recriar os palheiros, com as características riscas de cores vivas. Antes pelo contrário. Recorrendo à forma de construção de barcos enraizada na cultura local, à madeira o atelier juntou a técnica de calafetação, tal como há muitos anos eram construídas as casas dos pescadores.

Reabilitação em Lamego

Entre as reabilitações está o projeto do arquiteto Belém Lima, que assina a requalificação do Solar da Porta dos Figos, em Lamego, dentro de um centro histórico classificado. O edifício foi adquirido em 2010 pela câmara e o programa era a conversão em centro de artesanato (ainda a funcionar a meio gás) e zona de residências artísticas. Esta usa um dos elementos mais marcantes do edifício: uma capela de madeira por cima da porta do Castelo.

Belém Lima, aluno da ESBAL nos anos 80, fez parte da exposição de arquitetos e artistas pós-modernistas e instalou-se, como profissional liberal em VIla Real, a sua terra. "Estou fora dos centros de decisão, de Lisboa e do Porto", nota. valorizando a entrada nesta lista pela segunda vez. Há dois anos já tinha chegado a esta lista com a Adega Alves de Sousa, no Douro. Em 2015 havia mais seis edifícios representados, um dado que Belém Lima desvaloriza. "Há obras que se prolongam no tempo. O número deve corresponder às circunstâncias", afirma, lembrando que "o score [resultado] português é bom". O que Portugal gasta em arquitetura não tem comparação com o centro da Europa. O nosso volume de obras é muito mais pequeno", completa, sublinhando que nem por isso "somos os melhores do mundo".

João Santa-Rita, presidente da Ordem dos Arquitetos, considera que "é muito importante reconhecer que os arquitetos são quem faz a arquitetura." Para estar nesta lista têm de ser "obras maiores até na singularidade" e lembrou que estas nomeações surgem depois de "vários anos de crise na área da construção" em que o "investimento público é muito pequeno".

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