"Não me interessa o poder mas sim o serviço. Se calhar, não era capaz de ser de outra maneira"

No ano em que faz 70 anos, Miguel Lobo Antunes diz que tem muito medo da reforma, apesar de ter acumulado livros, discos e filmes para preencher o tempo. Mantem-se ainda na Culturgest e recomenda o espetáculo de circo Hallo, de 10 e 11 de março.

Miguel Lobo Antunes, administrador da Culturgest, a instituição cultural da Caixa Geral de Depósitos, faz 70 anos em dezembro. O quarto filho do médico João Alfredo Lobo Antunes tem uma vida preenchidíssima não só no plano cultural mas também no plano jurídico, a sua formação de base. Foi dirigente estudantil na Faculdade de Direito de Lisboa, em 1969 e 1970. Era bibliotecário do Tribunal Constitucional, com investigação publicada em direito constitucional e ciência política, quando em 1983 foi convidado para a direção do Instituto Português de Cinema (hoje do Cinema e do Audiovisual). Regressou em 1985 ao TC mas de novo foi convidado para o mundo cultural, como programador de Cinema e Animação da Europália (1989-1992). Passou para Lisboa"94 Capital Europeia da Cultura e foi administrador do Centro Cultural de Belém de 1996 a 2001. Dirigiu o festival de Música de Mafra de 2002 a 2004, ano em que foi nomeado para a Culturgest.

Como passou da vida de jurista para o mundo das artes?

Por convites. Foi sempre assim, em toda a minha vida profissional, e já vou a caminho dos 70. Estava no Tribunal Constitucional, em 1983, e um amigo meu, o Luís Filipe Salgado de Matos, foi designado para presidente do Instituto Português do Cinema (IPC), agora Instituto do Cinema e do Audiovisual e Multimédia. Perguntou-me se queria ir com ele para a direção. Por que não? Ele achava que eu tinha qualidades para aquilo. Fui um bocadinho à loucura. No Tribunal Constitucional, eu era bibliotecário e quando comecei não fazia ideia do que era ser bibliotecário. A minha vida tem sido assim. Vão-me convidando, às vezes safo-me, outras vezes safo-me pior.

Nesse momento fez um corte com a vida anterior?

O trabalho no Tribunal não era muito interessante. Fizemos uma biblioteca de Direito Constitucional, eu gostava daquilo, mas achava que era capaz de fazer coisas que tivessem mais interesse. Aproveitei a oportunidade, também para me testar. Eu gostava de cinema, tinha amigos cineastas. Gostava de cinema como gosto de todas as expressões artísticas. Mas não percebia de política cinematográfica, não sabia como se produzia um filme, era bastante ignorante. Houve uma parte de inconsciência mas aceitei sobretudo por ter sido convidado por uma pessoa que admirava imenso, pelas suas capacidades superlativas de inteligência. Sentia-me amparado. Ele era o presidente, eu tentaria fazer o melhor que pudesse.

A fase seguinte é mergulhar no trabalho?

Exato, depois é preciso trabalhar.

Ficou a perceber de política de cinema e de produção?

Acho que sim.

Passou a fazer parte de um mundo de que antes fazia parte como espetador?

Como público, sim.

E passou a ser essa a sua área de trabalho?

Houve fases em que acumulava. Depois do IPC voltei para o Tribunal Constitucional. Depois vieram a Europália em 1989, a Lisboa 94, o CCB e a Culturgest, pelo meio o Festival de Música de Mafra. Não sei dizer qual é a minha profissão, porque fiz tantas coisas diferentes. Também fiz incursões no Direito Constitucional e ciência política. Fiz investigação que na altura era pioneira - o que não era difícil, porque não havia, qualquer coisa que se fizesse era pioneira.

Que tipo de investigação?

A primeira coisa foi um estudo sobre a Comissão Constitucional, o órgão que antecedeu o Tribunal Constitucional. Foi o meu amigo Manuel Braga da Cruz que me propôs.

Os amigos não convidam qualquer pessoa, é porque veem qualidades.

Não sei o que se passa nas cabeças deles, mas há uma componente que é a amizade e o conhecimento que têm de mim enquanto amigos. Podem ter mais fé ou confiança no que posso fazer, mas na base está a amizade. É assim que eu entendo o percurso da minha vida. Também fiz parte do Conselho de Imprensa e também a convite de uma pessoa amiga.

Na área cultural, o que o surpreendeu?

Tudo. Não sabia nada quando fui para o cinema e quando fui para a Europália também não. Era preciso fazer um festival na Bélgica e eu tinha um setor muito estranho que se chamava "cinema e animação", uma trapalhada onde entrava tudo e mais alguma coisa, desde os cavalos de Alter até grupos corais.

Cavalos de Alter? Porquê?

Porque a escola portuguesa de equitação é uma coisa única.

Sim, mas entre isso e o cinema e a animação...

Na minha área cabia tudo. Havia quem tivesse a dança, o teatro, a literatura, as exposições e depois havia uma coisa que era

O "etc"?

Exatamente. Do folclore aos cavalos, a um encontro de coros, valia tudo. Até a ciência. Fizemos um encontro de cientistas portugueses.

Tudo isso é inovador. O facto de não ter experiências anteriores permitiu-lhe ter um olhar diferente?

Não sei se era inovador. Era preciso fazer. A ideia da festa de rua começou aí. Hoje tenho um olhar muito crítico em relação a esta permanente festividade. Tive a ideia de fazer um acontecimento em Bruxelas com o folclore português que acho maravilhoso, desde os pauliteiros ao fandango, aos cestos de Viana, gigantones, cabeçudos, bombos, toda essa arte popular. Achava que era preciso dar a conhecer não só a cultura erudita mas também a popular, que me apaixona. Era preciso encontrar uma forma de mostrar. E isso foi feito, com a ajuda do Filipe La Féria a quem eu pedi uma encenação, e do Rui Lopes Graça. E lá se foi, com carros alegóricos, aquela tralha toda típica das festas populares. Aquilo foi na Grand Place e tivemos uma sorte tremenda porque estava uma noite fantástica. No dia seguinte chovia a potes. No fim, apagava-se as luzes todas e estavam os cantadores alentejanos da Aldeia Nova de São Bento a cantar. Era de chorar, uma força incrível. Não me saí mal.

Como programador, tem de escolher este ou aquele espetáculo, esta ou aquela exposição. É uma grande responsabilidade. Na Culturgest não mostra propriamente a cultura popular.

É uma cultura de tradição erudita, na maior parte. Exceto na música, porque o fado é uma manifestação de tradição popular, como a chamada world music. Na Culturgest tenho a dupla função de administrador e de programador. Faço a programação do cinema, das conferências e das várias músicas e tenho colaboradores que fazem a do teatro, da dança e das artes visuais. E faço a coordenação. Ser programador é uma responsabilidade enorme e é um poder grande - só tive consciência disso tarde. Fiz um trabalho semelhante no CCB e rejeitava essa história de ter poder, achava que não queria ter poder. Era uma coisa que me fazia impressão.

Na altura o CCB ainda tinha centro de exposições.

As exposições eram da nossa responsabilidade, não havia a Fundação Berardo lá instalada. O Museu do Design ocupou uma das galerias - são muitas, o espaço é enorme.

Estávamos a falar do poder da escolha.

É um poder em dois sentidos. Por um lado, em relação aos artistas, porque nós dizemos quais são os artistas que vão ter a possibilidade de mostrar o seu trabalho. Por outro lado, em relação ao público, porque nós dizemos o que o público pode ver. Os artistas que não forem escolhidos não podem mostrar a sua criação, nem as pessoas podem ver. Felizmente há vários equipamentos culturais em Lisboa e cada programador tem os seus gostos, e portanto consegue-se alguma pluralidade - já houve mais. Tenho consciência de que isso é um poder, que eu vejo como um serviço. Sei que é um poder mas recuso-o como um poder porque me faz confusão isso de mandar nas pessoas de alguma forma. Houve um episódio, logo no início do CCB, que tem a ver com isto. Era regularmente programado no CCB o Ballet Nacional de Espanha, uma semana inteira, sempre cheio, seis representações para 1400 lugares. Na minha arrogância de intelectual ou pseudo-intelectual, achava que aquilo não cabia no CCB. Fui ver o espetáculo e vi o entusiasmo das pessoas. Foi óbvio que o que tinha pensado era de uma prepotência terrível: eu podia dizer que aquelas pessoas deixavam de ter aquele prazer. Não havia razão nenhuma a não ser um preconceito intelectual.

E mudou de opinião?

Completamente. Num equipamento como o CCB, que tem de ser aberto a muita gente até porque é muito grande, para encher uma sala tem que se ter espetáculos que atraiam. Não se pode fazer uma programação muito contemporânea numa sala de 1400 lugares, fazemos isso para salas pequeninas. Foi uma lição para mim.

Imagine que isso acontecia com um espetáculo de música pimba. Haveria o mesmo entusiasmo.

Mas aí o problema não se punha, a música pimba tinha outros sítios onde se podia apresentar, ao passo que o Ballet Nacional de Espanha só tinha aquele. Eu podia não gostar muito mas aquilo era bem feito.

Isso aí introduz o tema do gosto.

Do gosto do programador. Até que ponto nós impomos o nosso gosto. Muitas vezes é involuntário. Eu tenho essa questão. Tudo o que programei foram coisas de que eu gostava. Depois posso não gostar quando é executado mas quando o pensei gostava. Tenho uma sorte: gosto de muita coisa e de muita coisa diferente, é muito ampla a minha possibilidade de escolha. Não sinto que programar aquilo de que gosto seja limitativo do que mostro às pessoas, ou melhor, que permito que as pessoas vejam. Tanto gosto de música muito de vanguarda como de música romântica ou barroca. Tanto gosto de um espetáculo de ballet como gosto de dança contemporânea mais vanguardista. Se tivesse um gosto muito direcionado, para mim seria um grande problema, enquanto programador. Para outros programadores não é. Tenho um enorme terror que é ser vaidoso na programação. Parece-me que se programa coisas por vaidade, uma vaidade que não se direciona ao público mas aos pares: "eu programei isto, estás a ver como eu sou importante, eu descobri este autor. Eu, eu." Há muita coisa na programação e na curadoria que se faz por vaidade. Não a pensar nas pessoas nem nos artistas mas a pensar em si próprios enquanto programadores. Posso estar a ser injusto, mas é uma leitura que faço. E espero não cair nesse erro.

Como pode avaliar isso?

Há vários indícios. Estou a desviar-me um bocadinho mas também tem a ver com isso: o programador fazer uma imposição ao artista: quero que faças isto.

Já lhe aconteceu?

Em alguns concertos, eu falo com os artistas. No Festival de Música de Mafra fazia isso sistematicamente. Conversava com eles para ver que pedido lhes fazia. Mas isso não significava estar a impor ideia nenhuma. Era tentar chegar a um concerto que fosse especial, seja lá o que for que isto quer dizer, porque todos os concertos são especiais, únicos. Peço sempre às pessoas que vão à Culturgest que pensem o espetáculo para aquele espaço, para aquelas pessoas. Às vezes isso resulta da conversa. Por exemplo, quando o António Zambujo foi à Culturgest estivemos a conversar. Eu não o conhecia e perguntei-lhe como tinha sido a sua carreira, de onde vinha. Ele falou do Alentejo e surgiu a ideia de introduzir no concerto o coro da Aldeia Nova de São Bento.

Aí, o programador participa mesmo.

O meu papel era suscitar no artista aquilo que poderia ser um enriquecimento da apresentação do seu trabalho. Se calhar estou a ser presunçoso. Há outra forma: "quero que tu faças esta peça de teatro, ou quero que faças um espetáculo em torno de um certo tema, ou quero que..." por aí fora. Ou quero que trabalhes com determinado artista. Isso em muitos casos dá ótimos resultados. Eu não faço isso. Há casos em que é uma violência sobre os artistas, que gostariam de fazer outras coisas. Mas é aquela hipótese que lhes dão e têm de agarrar a oportunidade.

Disse que a sua ideia não é de poder mas de serviço, de estar ao serviço de. Choca-o que as pessoas se aproveitem?

Faz parte da natureza humana. Acontece e com frequência porque nós, humanos, somos assim. Parece que me estou a pôr numa posição eticamente superior - eu sou fantástico porque ponho a ideia de serviço à frente da ideia de poder ou qualquer coisa parecida. Não queria nada que as pessoas tivessem essa perceção, porque eu não tenho essa perceção de mim próprio. Se calhar eu não era capaz de fazer de outra maneira. É uma coisa que tem a ver com a minha educação, com a minha maneira de ser, com a minha timidez, com uma quantidade de coisas. Não me interessa o poder. E tendo-o, porque tenho, disfarço dizendo "isto não é poder, é serviço", como se houvesse uma espécie de recusa de enfrentar a realidade e construindo uma aparência, e com isso justificar eticamente uma atitude. Há aqui alguma coisa de vaidade.

Na Culturgest tem havido reflexão sobre temas filosóficos. Ainda agora terminou o ciclo de Filomena Molder.

A Filomena Molder é um caso comovente e impressionante. Eu não a conhecia, ou só de nome. Não sou de filosofia, não percebo nada de filosofia, tenho uma incapacidade inata para as questões teóricas. O meu pai uma vez disse que também tinha e eu então senti-me justificado, a culpa era dos genes. Também dizia que quando não se percebe um texto é porque as ideias do autor não são claras. Devia achar que o Kant ou o Wittgenstein não tinham ideias claras... Um ex-aluno da Filomena disse-me que ela se tinha reformado e ele achava que ela precisava de um palco para continuar a ensinar. Convidei-a para falar sobre o que quisesse.

Sem colocar nenhuma condição?

Pois se eu não percebia coisíssima nenhuma... era um ato de confiança. Eu sabia que ela era capaz, tinha a certeza absoluta. Podia ser uma coisa mais difícil, podia ser uma coisa mais fácil. Ela não disse logo que sim, ficou meses a pensar, eu dei-lhe o tempo todo. Foi assim que começou. O meu trabalho com ela foi só dizer todos os anos: queres voltar? O tema és tu que escolhes. Ela fez três ciclos de conferências em que pôs muito de si, foram sempre coisas muito especiais no sentido em que está lá a sua vida, um esforço grande, um trabalho profundo, uma reflexão enorme, está mesmo um certo sofrimento. Ela sofria quando começava a falar. Nada daquilo era fácil. Parece fácil mas foram ciclos suados, sofridos, de trabalho, reflexão, leitura. Organizei dezenas de conferências mas não há nenhumas como as da Filomena Molder. Espero, e ela pensa nisso, transformar os três ciclos em livro. Era uma preciosidade. No site da Culturgest temos as gravações das conferências, estão acessíveis a quem não tenha assistido ou que queira lá voltar.

Eram sempre as mesmas pessoas que assistiam?

Não. No primeiro ano fizemos na sala pequena, não foi um grande sucesso, 100 pessoas em cada conferência. No segundo ano, não sei porquê - nunca sabemos o porquê de umas coisas terem sucesso ou não. Podemos fazer conjeturas, e uma das conjeturas que faço é que o título era muito bonito: "Não te esqueças de viver". É muito apelativo para as pessoas, a frase é lindíssima. Uma quantidade de gente queria assistir e por acaso o grande auditório estava livre. Nós tínhamos pensado no pequeno auditório, ninguém imagina que uma filósofa arraste multidões a falar de coisas difíceis. E não é uma pessoa mediática, de todo, é uma pessoa ultra discreta. Conseguimos passar para o grande Auditório e houve uma média de 400 pessoas. Já não foi assim neste ano, o título e os temas eram mais difíceis.

Faz 70 anos este ano. Vai reformar-se? Como encara a ideia de deixar de ter uma atividade que o obriga a sair de casa de manhã?

Tenho medo, no fundo tenho medo. Não faço ideia nenhuma do que vai acontecer. Pode ser que haja amigos que me convidem. Mas os meus amigos estão mais velhos, como eu, deixam de ter ocupações onde possam precisar da minha ajuda, também se reformaram. É preciso que haja amigos mais novos.

Uma pessoa passa a vida profissional a pensar "quando tiver tempo, vou ler estes livros, vou fazer aquelas coisas". Não ambiciona isso?

Tenho acumulado coisas para a reforma: livros, discos e filmes. Mas não se pode estar o dia inteiro a fazer isso, não posso ficar o dia inteiro fechado em casa, tenho de arranjar alguma maneira de sair de casa. Não sei.

Logo se verá.

Gosto muito dessa expressão: logo se vê.

Nos próximos tempos, que espetáculos, que concerto, que exposição aconselha na Culturgest?

Há um espetáculo de circo que andava a tentar trazer há uns anos. Estreou-se em 2014 mas eu não tinha dinheiro e neste ano o Teatro Viriato [de Viseu] e o Centro Cultural de Vila Flor [Guimarães] alinharam, e isso tornou possível trazer o Hallo [de Martin Zimmermann], uma das coisas mais maravilhosas que eu vi. Tenho imenso medo de que as pessoas não se apercebam porque ninguém conhece.

Isso é quando?

Nos dias 10 e 11 de março. É um artista com imenso sucesso no estrangeiro mas nunca veio a Portugal. É um solo e eu podia estar imenso tempo a falar disso. Há uma componente muito engraçada: o cenário está sempre a pregar-lhe partidas e ele está sempre a ter que se safar das situações inconcebíveis em que o cenário o coloca. Ele é uma espécie de palhaço, entre palhaço e boneco articulado, contorcionista, vai-se safando daquelas situações com alguma ingenuidade mas com destreza, é muito engraçado.

Isso é uma metáfora da vida?

É, sim.

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