Portugal tem um novo santo em novembro: Bartolomeu dos Mártires

O Vaticano anunciou que Portugal tem um novo santo. A canonização do beato nascido em 1514 está marcada para 10 de novembro. Há menos de um mês, o relicário com uma vértebra do frei tinha sido roubado da igreja de São Domingos.

O pedido de canonização de Bartolomeu dos Mártires estava com o papa Francisco desde fevereiro de 2015, mas ontem o sumo pontífice decidiu nomear o beato português santo.

Portugal é um dos países que menos santos tem comparado com outros países de fé católica, sendo os dois pastorinhos de Fátima, Jacinta e Francisco, dos mais recentes santos portugueses da Igreja Católica. O Vaticano tem em análise cerca de 30 causas portuguesas.

D. Jorge Ortiga tinha entregado ao papa o dossier que justificava o pedido para o antigo arcebispo de Braga se tornar santo e o processo decorreu entretanto. Ontem o papa Francisco "aprovou os votos favoráveis dos Membros Mais Eminentes e Excelentes da Congregação" e determinou "o culto litúrgico em homenagem ao Beato Bartolomeu dos Mártires à Igreja Universal", segundo refere o boletim da Santa Sé.

Bartolomeu dos Mártires já tinha sido declarado em 1845 Venerável pelo Papa Gregório XVI, seguindo-se o estatuto de Beato em 2001 por determinação de João Paulo II. Em 2015, Francisco recebeu o dossier sobre o beato e em janeiro deste ano, o papa autorizou a dispensa de milagre à Congregação para a Causa dos Santos para a declaração de santidade de Bartolomeu dos Mártires. A cerimónia ocorrerá no próximo dia 10 de novembro.

D. Frei Bartolomeu dos Mártires, O.P., nasceu em Lisboa a 3 de maio de 1514 e morreu em Viana do Castelo a 16 de julho de 1590. Foi um influente Arcebispo e teve um grande papel a partir de Braga entre 1559 e 1582.

A sua participação no Concílio de Trento foi considerada notável ao defender um tempo de graça e renovação enquanto porta-voz de uma ala renovadora. Durante as reuniões do concílio entre 1562 e 1563 apresentou 268 petições e lutou pela primazia bracarense contra a do Arcebispo de Toledo.

Frei Bartolomeu valorizou a formação dos futuros presbíteros com a fundação de um seminário, o primeiro a surgir após o Concílio de Trento. Redigiu o "Catecismo ou Doutrina Cristã e Práticas Espirituais" com o intuito de instruir os fiéis.

Segundo a história, Bartolomeu era muito popular e passava a maior parte do tempo em visita pastoral na sua longa e diversificada arquidiocese. Era notória a sua preocupação com várias questões sociais, como se verificou durante a peste de 1570 e a crise económica de 1574. Durante a crise da sucessão de 1580 manteve a neutralidade.

Resignou em 1582 devido à idade e faleceu em Viana do Castelo, no convento de Santa Cruz.

Recuperado o relicário roubado

Há menos de um mês, o relicário com uma vértebra de frei Bartolomeu dos Mártires fora roubado da Igreja de São Domingos, em Viana do Castelo. A Polícia Judiciária conseguiu recuperar a "relíquia considerada de grande valor sentimental e objeto de grande devoção religiosa na Diocese de Viana do Castelo", segundo informou em comunicado. Para o bispo de Viana do Castelo, D. Anacleto Oliveira, em declarações à Agência ECCLESIA, o roubo do relicário com os restos mortais do beato Bartolomeu dos Mártires representava um "atentado à sensibilidade" dos católicos. O alegado autor do "furto qualificado de obra de arte sacra" foi um homem de 25 anos de idade.

A participação no Concílio de Trento e a sucessão de 1580

A história da participação de frei Bartolomeu dos Mártires é assim contada segundo o Dicionário Histórico de Portugal:

"Para a convocação do 3.º concilio tridentino, o arcebispo resolveu-se a partir, e assim o fez, mas viajando incógnito, para evitar as honras a que tinha direito. Chegou a Trento a 18 de maio de 1561, disfarçado em obscuro sacerdote; porém não tardou em que se divulgasse a sua chegada, e os arcebispos de Modena e de Verona o foram buscar à estalagem em que se hospedara. Por mais que pretendesse fugir às honras devidas, Deus não lho consentia. Os mais eminentes homens o visitavam e reverenciavam; chegara lá a fama do seu nome, e todos se interessavam em ver um prelado de tanta autoridade e respeito sob uma capa de humildade tão sincera. Aberto o concilio foi ele encarregado da revisão dos livros que se deviam proibir; fê-lo, e é seu o Índice. Nas sessões que se celebraram tornou-se deveras notável, não pela sua grande ilustração, nem pela autoridade com que entrasse nas graves questões que o concilio tinha de resolver, mas pela persistência com que tratava da reforma dos costumes eclesiásticos. O padre virtuoso chegou a adquirir autoridade em Trento, no meio de uma assembleia dos mais abalizados, mas o clero corrupto de Itália sentiu que falava a verdade pela boca do prelado português, quando exclamava: «Os ilustríssimos e reverendíssimos cardeais precisam duma ilustríssima e reverendíssima reforma», e quando dizia: «Vossas senhorias são as fontes donde todos os prelados bebem; necessário é portanto que a água seja limpa e pura.» Estas palavras ficaram memoráveis, como um rasgo de nobre franqueza. Na volumosa obra da história eclesiástica, Abregé de l"histoire ecclésiastique, tomo VIII e IX, fala-se largamente de D. frei Bartolomeu dos Mártires, exaltando as suas virtudes, e encarecendo os louvores que lhe são devidos pela singular franqueza e nobre isenção com que falou perante os padres do concilio, e não pela distinção com que se houve em todos os trabalhos da mesma assembleia.

A 8 de dezembro de 1563 retirou-se o arcebispo para Portugal, deixando de si tão avantajada fama, que a voz pública lho testemunhava, aplicando-lhe com o termo lacónico, Multa paucis, dando como estas palavras a significar a admirável clareza com que ele, em breve discurso, resumia os mais profundos conceitos e as sentenças mais luminosas. Na sua viagem visitou as cidades de Veneza e Pádua, e foi a Roma, onde o Papa o recebeu com toda a atenção devida à sua notória virtude. Visitou também alguns dos principais santuários de França e de Espanha, principalmente na Catalunha e no Aragão, chegando afinal a Braga nos últimos dias de fevereiro de 1564. Então tratou ainda com mais vivo interesse do cumprimento dos seus deveres pastorais. Deu começo à fundação de um seminário episcopal, seguindo nesse ponto as determinações do concilio, e voltou a visitar a sua diocese, percorrendo até a inóspita serra do Barroso, onde nunca antes dele fora outro arcebispo, e onde talvez depois poucos tornaram a ir, porque as agruras da serra, então quase intransitável, tornavam a viagem verdadeiramente perigosa, mas D. frei Bartolomeu dos Mártires não quis, que ficassem privados da luz da sua presença e da sua visita essas pobres, remotas e dispersas cristandades.

Assim como fora em Trento severo defensor da urgência das reformas dos costumes eclesiásticos, assim foi na sua visita rigoroso executor dos seus próprios preceitos, o que não deixou de lhe criar inimigos e de lhe causar dissabores. Em 1566 reuniu o arcebispo em sínodo provincial, em Braga, os bispos seus sufraganeos, que eram o de Coimbra, D. frei João Soares, o do Porto, D. Rodrigo Pinheiro, e o de Miranda, D. António Pinheiro, porque estava então vaga a mitra de Viseu. Anos depois foi assistir a um capítulo provincial da sua ordem de S. Domingos, celebrado no Porto, e entretanto continuava a mostrar-se excelente prelado, a animoso pastor, como no caso da peste de Braga, em que, por mais instancias que lhe fizessem, não quis nunca sair da cidade contaminada, dizendo que era ali o seu posto de honra. Não era, contudo, tão paciente, como diz frei Luís de Sousa, porque nas questões de jurisdição eclesiástica e de regalias prelaticias era intratável. Indignou-se muito porque em Roma não aceitavam cegamente as decisões do seu sínodo provincial, e se cometeu a um prelado o exame dessas decisões; andou em constantes demandas com o seu cabido, e por causa de conflitos entre a justiça secular e a eclesiástica foi a Coimbra ter com o rei D. Sebastião e protestou energicamente, como já protestara quando o rei quisera mandar uma laçada a Braga. No ano de 1581, o rei castelhano Filipe II, assenhoreando-se de Portugal, convocou cortes em Tomar, a que assistiram os arcebispos de Braga, Lisboa e de Évora."

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