Nau do século XVII sobrevive intacta à passagem do Leslie

O DN acompanhou uma missão aos destroços da embarcação descoberta no Tejo em setembro. O objetivo era avaliar os eventuais estragos causados pela passagem da tempestade tropical de há dez dias

O dia está perfeito para uma saída, com o mar liso como um espelho e temperatura amena, tanto à superfície como dentro de água. Mas a missão de inspeção da nau do século XVII, descoberta no Tejo em setembro, não começa bem. A água infiltrou-se por entre as placas amovíveis, no convés da pequena lancha da Marinha, e as bombas que servem para a remover não parecem querer trabalhar. Tudo indica que a bateria morreu.

O comandante Augusto Salgado, da Marinha, António Fialho da divisão de Cultura e o arqueólogo Jorge Freire, diretor científico da parte arqueológica e subaquática, ambos da Câmara de Cascais, mantêm a jovialidade, trocando piadas com Carlos Martins, colaborador do projeto e homem de vários ofícios - desde que envolvam o mar - que, enfiado dentro da popa, com água até aos joelhos, vai tirando baldes de um líquido amarelecido que não augura nada de bom. Há uma leve tensão no ar. E por uma razão muito objetiva: a maré. Se não chegarmos aos destroços até às 15.30, o mergulho pode ficar comprometido.

Augusto Salgado faz uma chamada telefónica e manda vir uma bateria sobressalente, não vá o pior dos cenários confirmar-se. Mas quando os dois marinheiros enviados pelo comando com a preciosa carga chegam ao Porto de Recreio de Oeiras já o motor da lancha está a ronronar como um gatinho. "Não faz mal", sentencia o oficial da Marinha. "Levamo-la connosco. Guardem isso no barco. Num sítio alto".

Dez minutos depois, com um pequeno sobressalto com o GPS pelo caminho, estamos no destino, com o Bugio por perto. As coordenadas exatas do "local" são mantidas em segredo, por uma questão de segurança, ainda que tenha sido criada uma ampla zona de interdição a todas as atividades que possam ameaçar os destroços, como a pesca. Não é apenas mais um navio naufragado. É uma nau que, acredita a equipa multidisciplinar que a tem monitorizado com todos os cuidados, terá pertencido à carreira da Índia. Um achado extraordinário.

A presença de porcelanas muitos específicas da época e de vestígios de pimenta - os "fósseis diretores" do achado -, associada às características das partes visíveis da embarcação, reforçam essa convicção, explica Jorge Freire. Mesmo assim, o arqueólogo prefere não entrar em muitos pormenores sobre as teses em torno da história deste naufrágio. E muito menos arrisca adivinhar-lhe um nome entre os "vários candidatos" que entretanto têm surgido.

Este é um processo meticuloso, em que não convém saltar etapas. E, nesta fase, a prioridade absoluta é preservar os vários núcleos em que os destroços estão dispersos, numa área de cerca de cem metros por 50. Foi essa abordagem que levou a UNESCO a identificar aquele projeto como um exemplo de boas práticas. "A nível mundial só há sete projetos com essa distinção", conta Jorge Freire. "E em Portugal é o único".

Naquele dia, a missão tem tudo que ver com isso. Vamos saber que impacto teve a passagem do furacão Leslie, há dez dias, nesta cápsula do tempo com perto de 400 anos, que ainda recentemente estava oculta sob as temperamentais areias da foz do Tejo. É com a ansiedade de garantir que tudo está bem que, pelas 15.50, vinte minutos depois de fundearmos à hora programada, Augusto Salgado deixa a lancha, na clássica cambalhota à retaguarda. E é também esse o único desejo de Carlos Martins, ainda que este nos assegure, antes de desaparecer nas águas turvas, que há de voltar à tona "com pelo menos mais um" navio achado.

"Está tudo na mesma. São boas notícias"

Sabe que dificilmente o fará. Até porque já percorreu todo aquele perímetro palmo a palmo. Mas a bravata não é totalmente descabida. Só naquela zona estão sinalizadas cinco embarcações. A mais antiga é a recém-descoberta nau. A mais recente é o NRP Patrão Lopes, que naufragou em 1936. Foi o mais famoso navio de salva-vidas português, tendo sido confiscado aos alemães em 1916. O homem que lhe inspirou o nome português - antes chamava-se Newa - foi ele próprio uma lenda viva do resgate marítimo no século XIX.

Na área de influência da Câmara de Cascais há registo de mais de uma centena de destroços de embarcações sinalizados e, durante os cerca de quarenta minutos de duração do mergulho, Jorge Freire e António Fialho vão contando as histórias de vários deles. Como o Termopylae, um clipper britânico vendido a Portugal em 1897, sendo na altura rebatizado de Pedro Nunes e convertido em navio-escola, até ser deliberadamente torpedeado, em fim de vida, ao largo da baía de Cascais, em 1907.

Numa das últimas campanhas antes do seu assassinato, em 1908, o rei D. Carlos - um entusiasta da oceanografia - viria a registar não só as coordenadas do clipper como aspetos sobre a vida marinha que então começava a estabelecer-se em torno do destroço. Entretanto, o navio foi redescoberto em 2015 e os investigadores puderam confirmar, entre outras coisas, que a fauna residente tinha evoluído significativamente. "Identificámos, por exemplo, patas roxas [pequeno peixe da família dos tubarões], que antes não tinham sido lá registadas", conta o arqueólogo. "Nos últimos anos, a Biologia passou a ser uma das muitas disciplinas envolvidas nestas operações, precisamente porque os naufrágios têm este potencial para a fixação de várias espécies".

Por vezes, a própria vida marinha desempenha também um papel na preservação. É o caso de um outro navio naufragado ao largo do Tejo, cujo casco tem sido preservado por uma enorme colónia de anémonas.

"Há cacos de porcelana por todo o lado". "E as duas âncoras estão à vista". O relatório começa assim que as cabeças de Augusto Salgado e Carlos Fialho surgem à tona. No essencial, o impacto mais relevante da passagem do Leslie parece ter sido a subida do nível da areia em cerca de um metro, o que cobriu parcialmente parte dos destroços anteriormente descobertos, ao mesmo tempo que revelou outras parcelas da nau. Acima de tudo, a estrutura da embarcação "não foi afetada". "Está tudo da mesma", resume o oficial da Marinha". "E isso são boas notícias", completa o arqueólogo.

Há pessoas que passam a vida a sonhar descobrir riquezas escondidas em navios afundados. E há aqueles que, assim que avistam a primeira parcela de madeira carcomida no fundo do mar, já encontraram o seu tesouro.

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