Não há mulheres no palco da Web Summit? Há, mas (ainda) são poucas

A comunidade portuguesa de startups foi chamada ao palco da Web Summit. O momento foi registado e numa das fotos não se vê uma única mulher. Mas elas estão lá. Pelo menos quatro. "É o reflexo da nossa sociedade", afirma a CEO da Portugal Ventures, que elogia os esforços da organização da maior cimeira tecnológica do mundo para alterar esta realidade.

Segunda-feira, 5 de novembro. O primeiro-ministro, António Costa, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, e o fundador da Web Summit, Paddy Cosgrave, fazem a contagem decrescente para o arranque da maior cimeira tecnológica do mundo. No palco perfilam-se os representantes da comunidade portuguesa de startups chamados para assinalar o início do evento. O momento é registado e fotos são postas a circular na Internet. Onde estão as mulheres no retrato? Não se veem, mas elas estão lá. São poucas, é certo. Mas pelo menos quatro.

Surgem as reações a criticar a (aparente) inexistência de representantes do sexo feminino. Uma das imagens que registou o momento é alterada e em vez de Web Summit lê-se "Men Summit". As críticas não se fazem esperar no mundo das redes sociais. Elas estão lá, como se vê num vídeo do YouTube que mostra a cerimónia de abertura. Mas a verdade é que continuam a ser um número reduzido num mundo dominado pelos homens: o setor das tecnologias.

A própria Web Summit fez um inquérito sobre a falta de mulheres na área tecnológica. Veja os resultados aqui:

O retrato do palco do Web Summit também mereceu um comentário do antigo ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional. Na sua conta de Facebook, Miguel Poiares Maduro pede uma reflexão sobre o tema, tendo em conta a imagem da (aparente) inexistência de mulheres no palco da cimeira tecnológica. "Dizem-me que esta foto só tem homens porque é com os CEO das startups portuguesas. Isso apenas torna o tema mais importante. O que explica esta total ausência das mulheres nessa área? (Reparem: podemos deduzir daqui que numa área económica do futuro e com uma geração mais jovem as mulheres - pelo menos em Portugal - ainda estão menos representadas em lugares de topo do que na generalidade da economia). Penso que era um tema bem mais merecedor de uma reflexão e debate do que outros que se tiveram a propósito da Web Summit", lê-se na publicação que faz na rede social.

"O Web Summit é uma gota no oceano"

"É perfeitamente normal que isso aconteça. Ainda não há um impacto real das mulheres na tecnologia e não temos tido um grande espaço para que isso possa acontecer", diz ao DN Liliana Castro, fundadora da comunidade Portuguese Women in Tech (PWIT).

E não é por falta de esforço do Web Summit, que tem dado palco ao tema da igualdade de género com várias iniciativas. "Isso é notório. Basta andar pelo evento e vemos muitas mais mulheres do que é normal num evento de tecnologia", diz, referindo-se também a várias iniciativas do evento que vão nesse sentido, como os painéis com mulheres, o lounge Women in Tech e os "bilhetes mais baratos para permitir que mais mulheres possam participar".

"A realidade é que isso é uma gota no oceano", afirma sobre os esforços da organização da nona edição da Web Summit, a terceira realizada em Lisboa. Para Liliana Castro, a cimeira tecnológica faz o seu papel na promoção da igualdade de género, "​​mas há ainda muito para fazer". E é "toda a gente que está envolvida nos ecossistemas tecnológicos" que deve fazer parte da solução para mudar este retrato.

"Se houvesse esse trabalho não era necessário comunidades como a Portuguese Women in Tech existirem. Existimos porque sabemos que existe este default, esta falha de mulheres no ecossistema e esta necessidade para que alguém contribua para que as coisas possam evoluir", constata.

Apesar do muito que há a melhorar, considera que há uma evolução evidente, que as empresas começam a ter mais atenção sobre o tema e "a trabalhar no sentido de criar igualdade e abrir oportunidades" às mulheres no mundo da tecnologia. Ainda assim, há um caminho longo pela frente que não passa somente pelas estruturas, mas sobretudo pelas "pessoas que gerem as empresas", de forma que "essa igualdade aconteça".

"O palco da Web Summit é o reflexo da sociedade"

Mas como é que ainda estamos na fase em que num evento com cerca de 70 mil participantes, de 170 países, há ainda pouca representatividade feminina, apesar de todos os movimentos de empoderamento feminino, que ganham cada vez mais força e espaço no mundo? "O palco da Web Summit é o reflexo da nossa sociedade", responde Rita Marques, CEO da Portugal Ventures.

"Estamos a falar de startups de natureza tecnológica e as engenharias e as computações ainda atraem muito poucas mulheres, portanto, é natural que haja poucas empreendedoras na área do empreendedorismo tecnológico, que é o mote do Web Summit", responde Rita Marques, CEO da Portugal Ventures.

Esta engenheira eletrotécnica aponta uma razão cultural para a pouca presença das mulheres num palco como o do Web Summit e fala no seu caso para dar um exemplo da realidade que ainda persiste nos dias de hoje. "No meu curso éramos 120 e havia 20 mulheres", começa por explicar. "Penso que as mulheres estão muito afastadas das engenharias por uma razão. As engenharias obrigam muito à interação das mulheres com as máquinas e nós temos aqui um chip de cuidadoras", afirma remetendo para o lado "quase maternal" presente na educação das mulheres. "E as máquinas não são a mesma coisa que uma pessoa. As mulheres tendencialmente afastam-se um bocadinho das tecnologias. Somos mais cuidadoras, temos esse chip, que é fruto da educação que temos, da sociedade em que vivemos", resume.

"Web Summit é muito mais do que uma Men Summit"

Uma realidade que gostava de ver alterada, salientando, no entanto, os sinais positivos que a sociedade portuguesa já começa a dar. E dá como exemplos mulheres à frente de empresas tecnológicas, como é o caso de Sofia Tenreiro, General Manager da Cisco Portugal, e de Paula Panarra, diretora-geral da Microsoft Portugal. "Há algumas empresas corporate que já perceberam que a discriminação positiva e o facto de terem mulheres na administração é importante".

E lamenta a designação "Men Summit" colocada numa foto do evento. "Acho que para caricaturarmos temos de caricaturar e ajudar na mensagem. Acho que não ajuda, acaba por destruir um bocadinho o valor que o Web Summit deixa cá em Portugal. Temos todos a consciência que poderia ser melhor, sim, mas o Web Summit é muito mais do que um Men Summit, seguramente".

João Mendes Borga, da Startup Portugal, também sublinha o facto de existir "uma evolução nas empresas". "Somos um ecossistema que está a ganhar maturidade neste momento, estamos todos a trabalhar para que isso seja verdade", assegura sobre a igualdade do género no empreendedorismo tecnológico.

No futuro haverá mais mulheres no palco tecnológico

Mas tal como Rita Marques, considera que a solução não passa só pela mudança no seio das empresas. "Honestamente, o problema até pode começar antes da formação da empresa. Quer no ensino superior, quer na educação para o empreendedorismo na base tem de haver um esforço um bocadinho maior", defende e questiona: "Há cursos em que temos uma prevalência de mulheres e há outros em que temos uma prevalência de homens. Qual é a razão disto, porque é que não temos mais programadoras femininas, ou porque não temos técnicos de biotecnologia masculinos?", pergunta, sem ter uma resposta. "O caminho está a ser feito. Queremos mais mulheres e mais mulheres com iniciativas de empreendedorismo".

E essa realidade vai acontecer, refere a CEO da Portugal Ventures. "Se também a sociedade mudar, estou convencida que daqui a cinco anos estamos muito mais mulheres no palco, com certeza. É o reflexo da sociedade, infelizmente ainda é assim, mas há de mudar", afirma, convicta Rita Marques.

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