Associação Quebrar o Silêncio apoiou em três anos 251 homens vítimas de abusos sexuais

Em 2019, a associação recebeu 99 pedidos de apoio de homens vítimas de violência sexual, registando uma média de oito novos casos por mês.

A associação Quebrar o Silêncio apoiou em três anos 251 homens vítimas de abusos sexuais, a maioria com traumas de situações vividas na infância e nunca partilhados.

"A grande maioria dos homens que chega à Quebrar o Silêncio procura apoio pela primeira vez e muitos destes homens nunca partilharam a sua história de abuso. São homens com uma média de idades entre os 30 e os 40 anos, e que estiveram em silêncio grande parte das suas vidas", refere Ângelo Fernandes, fundador da associação.

Em 2019, a associação recebeu 99 pedidos de apoio de homens vítimas de violência sexual, registando uma média de oito novos casos por mês.

Os números serão apresentados esta sexta-feira numa sessão no auditório das Águas de Portugal, em Lisboa, seguindo-se um debate sobre "Violência sexual infantil, trauma e os direitos humanos das crianças".

Em declarações à agência Lusa, Ângelo Fernandes explicou que quando as vítimas chegam em busca de auxílio já estão em estado de rutura, quando já não aguentam mais sofrer em silêncio.

"Quando chegam até nós ajudamos o homem e a criança que foi no passado", disse.

Ao longo dos três primeiros anos de atividade, a associação contabiliza 251 homens que procuraram os serviços da Quebrar o Silêncio e dos oito novos casos mensais que a associação recebeu, a maioria dos contactos, 64%, foram feitos por escrito recorrendo principalmente ao email, mensagem privada via redes sociais e formulário do 'site' da Quebrar o Silêncio.

Segundo a associação, praticamente um terço dos pedidos, 31%, foi feito por telefone para a linha de apoio da associação e os restantes 5% por outros canais.

Não são só os homens que recorrem à associação. Têm duplicado os pedidos de ajuda de familiares

"Enviar um email continua a ser o principal modo de comunicação com a Quebrar o Silêncio. O meio escrito é um meio seguro para os homens, pois podem demorar o tempo que sentirem ser necessário para escrever o seu pedido de apoio. Como não necessita de resposta em tempo real como acontece com o telefone, muitos homens sentem-se mais confortáveis e seguros a enviar um email do que ligar diretamente", refere Ângelo Fernandes.

Mas não são só os homens que recorrem à associação. Têm duplicado os pedidos de ajuda de familiares.

Em 2018, a associação recebeu 35 pedidos de apoio de familiares e pessoas amigas das vítimas, e em 2019 este número subiu para 75, mais do dobro.

"Na sua grande maioria são esposas, namoradas ou mães de um sobrevivente que nos procuram para saber como podem ajudar esse homem. A partilha da história de abuso pode afetar a dinâmica do casal ou a dinâmica familiar e estas pessoas contactam-nos para saber o que podem fazer e o que podem dizer, mas também porque elas próprias necessitam de algum apoio", explicou.

Na verdade, adianta Ângelo Fernandes, são questões sensíveis e estas pessoas não se sentem preparadas para gerir a partilha de uma história de abuso sexual vinda de um homem.

Quando se trata de um jovem, a mãe e o pai podem não saber como lidar com a partilha, por vezes, passam a centrar toda a atenção da família neste assunto e o jovem sente que não há forma de fugir ao abuso, porque é um tema recorrente lá em casa, sente que não encontra paz.

Para 2020, a associação tem como projetos a publicação de uma guia destinado aos órgãos da comunicação social com recomendações para a escrita de notícias relacionadas com violência sexual, considerando que os media são agentes na forma como levam as pessoas a pensar sobre estas matérias.

No segundo semestre a associação prevê lançar um livro sobre violência sexual infantil destinado a pais e educadores de infância.

"Desde que a Quebrar o Silêncio iniciou a sua atividade, tem sido frequente sermos abordados por pais e mães que querem saber o que podem fazer com os seus filhos e filhas numa ótica de prevenção. Este livro é a nossa forma de organizar de forma mais estruturada algumas informações sobre esta realidade e de capacitar os pais e mães numa ótica preventiva", explicou.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG