"Ameaças e mortes na Amazónia são fruto da impunidade total"

Foi dos padres brasileiros que estiveram na preparação do Sínodo sobre a Amazónia, que participou nele como perito e que acredita que os resultados obtidos podem significar uma viragem na Igreja. Contudo, não tem dúvidas de que para se fazer justiça aos povos da Amazónia ainda há muito por fazer.

Nasceu em Manaus há 55 anos. Cedo teve de aprender a lidar com as piadas sobre a sua gente e até com a ignorância de muitos sobre aquela parte do mundo. De lá teve de sair para se formar e abraçar a vocação de sacerdote, mas voltou para continuar a sua missão e será sempre da Amazónia. Aliás, hoje, a viver em Roma, onde está colocado pela segunda vez, como professor na Universidade Pontifícia Gregoriana, diz e repete, vezes sem conta, "nós, que somos da Amazónia, sabemos que não há uma só Amazónia, há várias".

Adelson Araújo dos Santos é padre desde os 24 anos e dá aulas a mais de 3000 alunos de 130 países que escolheram fazer mestrado em Teologia Espiritual. Função que, desde o dia 1 de setembro, acumula também com o cargo de diretor do Centro São Pedro Fabro, que prepara novos formadores da Universidade Gregoriana. Esteve no início na preparação do Sínodo sobre a Amazónia, como consultor, e durante as três semanas em que decorreu, de 6 a 27 de outubro, participou como perito e acompanhou a população indígena em Roma. E não tem dúvidas de que o debate e a experiência ali vividos podem significar uma marca na "história da Igreja".

Como sinal, há já as palavras do Papa Francisco, nesta sexta-feira, que quer que o catecismo inclua o "pecado ecológico".

Em entrevista ao DN, ao telefone e do seu gabinete em Roma, acabado de chegar de Belo Horizonte, onde a Igreja brasileira esteve reunida para avaliar os resultados do sínodo, Adelson Araújo dos Santos, ou só padre Adelson, fala da sua vida, do que significa viver numa região que é considerada a "casa comum de todos os habitantes da terra", mas é maltratada e incompreendida. Fala do que significa a cultura daqueles povos, da vivência naquelas terras, das ameaças e das mortes que continuam e que são fruto de uma impunidade total.

Como padre brasileiro, nascido na Amazónia, fala da relação entre a Igreja e as políticas do atual governo. Diz mesmo que o discurso radical de Bolsonaro é um apoio explícito à violência e à invasão de terras que têm dono. Adelson Araújo acredita que a convocação deste sínodo por parte do Papa Francisco há dois anos, antes de se saber quem estaria no poder político no Brasil, foi "uma inspiração de Deus".

Sabe que para se fazer justiça aos povos da Amazónia ainda "temos muito que caminhar", mas é tempo de não se perder mais tempo. E de "se começar a trabalhar". Aqui fica a conversa com o DN.

Nasceu no seio de uma família católica ou a vocação para o sacerdócio chegou depois?
Nasci numa família de base católica muito forte. Os meus pais foram sempre muito ativos na Igreja, mas nunca me falaram de vocação. Mas inevitavelmente que o berço onde nasci também influenciou a minha forma de olhar para a religião e para a fé. Mas foi uma experiência pessoal que tive, mais ao menos, aos 14 anos que determinou a minha vida.

Que experiência?
Tinha 14 anos quando participei num grupo de oração para jovens e foi uma experiência marcante, acho mesmo que a minha vocação nasceu nesta altura. Foi onde encontrei um amor profundo e uma amizade muito grande com a pessoa de Jesus Cristo e um desejo de corresponder. Logo aqui me pareceu que a forma mais concreta de o fazer e a mais radical seria pelo sacerdócio, mas só o assumi quando já tinha 21 anos.

Porquê?
Decidi primeiro estudar, fazer o meu curso de faculdade. Fiz Direito na Universidade Federal do Amazonas e só depois tomei a decisão de procurar alguém para conversar sobre esta vocação. Fui acompanhado por um padre durante um ano, através de leituras conheci a Companhia de Jesus e fiquei a saber como funcionava. Interessei-me pelo seu espírito missionário, pela exigência na formação que dava, e pela sua espiritualidade. Entrei em contacto por carta com o superior do Brasil da Companhia de Jesus e um ano depois estava a fazer o noviciado em São Salvador, na Bahia.

E a partir daqui...
Depois fui ordenado padre a 27 de dezembro de 1997 na minha cidade natal. Tive como primeira missão coordenar o trabalho dos jesuítas na região amazónica. Fui morar para Belém do Pará durante quatro anos. Em 2001, fui enviado para Roma para estudar. Fui fazer mestrado em Teologia Espiritual e um curso de formadores na Universidade Gregoriana. Quando terminei comecei o doutoramento, também na área de Teologia Espiritual, mas em 2005 regressei ao Brasil e a Manaus, quando me faltava um ano para concluir o doutoramento. Voltei a coordenar o trabalho de vocação juvenil e, entre 2010 e 2014, estive como superior maior dos jesuítas na região.

Nasceu na Amazónia e esteve no interior com missionários. O que sente quem passa por esta experiência?
A experiência de quem passa pela Amazónia é a de que não se pode falar de uma só Amazónia, existem várias. Quanto à Igreja e aos jesuítas há paróquias indígenas, onde os nativos já são crentes, batizados, casados, e onde os nossos missonários trabalham a parte pastoral. Mas também estamos presentes noutras áreas e junto de povos que não são cristãos, e aqui o trabalho é mais o de defender o direito à vida e ao território. Temos missionários jesuítas que são advogados e que trabalham mais a área dos direitos. Por isso, o que apreendi da Amazónia foi esta sua grande diversidade.

Até porque é um território que atravessa países...
Sim. Não a podemos ver como uma coisa única. Do ponto de vista do trabalho da Igreja temos de estar atentos a ver o que a realidade local nos pede porque há diferentes povos indígenas e diferentes realidades e temos de ter versatilidade e flexibilidade para saber como evangelizar. Nem todos os lugares pedem a mesma coisa. Uns pedem, e como vi fazerem algumas tribos indígenas, mais Igreja, mais padres para celebrar, enquanto outros nem católicos ou cristãos são. O que eles querem é uma Igreja que seja sua aliada na defesa da sua vida e do seu direito à terra.

É isso que considera que a Companhia de Jesus tem feito?
Exatamente. Os jesuitas que atuam mais nesta esfera social têm estado muito na linha da frente, junto com outras entidades de defesa dos direitos humanos. E acabam por ser incluídos na lista de pessoas ameaçadas.

Há um preço a pagar...
Claro. Se nos colocarmos do lado do oprimido, de quem sofre ameaças constantes, também somos tão ameaçados quanto eles - embora se tenha a retaguarda de uma instituição forte como a Igreja, que nos protege em algum momento, mas nem sempre, porque o missionário que está no meio das comunidades indígenas está tão desprotegido quanto eles.

Mas na Igreja há assim tantos casos?
Temos já dois casos de jesuítas mártires na Amazónia, que deram a sua vida e o seu sangue para defenderem as populações. O irmão Vicente Canhas, que era um missionáro espanhol, oriundo de Valência, que foi assasinado por madeireiros, que invadiram terras de indígenas, e o padre João Bosco Burnier, assassinado porque protestou contra a polícia que torturava uma mulher indígena. Nessa hora recebeu um tiro. Mas são inúmeros os casos de religiosos e de religiosas e de líderes índígenas assassinados.

Se um presidente fala abertamente desta forma está a encorajar madeireiros ilegais ou os garimpeiros, normalmente pessoas violentas, que atuam a qualquer preço para enriquecer, a invadir terras que têm dono. E estas pessoas acabam por olhar para os índios como um obstáculo aos seus objetivos.

Poucos dias depois do Sínodo sobre a Amazónia em Roma chegou a notícia de mais um líder indígena morto por madeireiros. Estas ameaças são cada vez mais constantes, algum dia vão terminar?
As ameaças constantes e as mortes são fruto de uma impunidade total. As pessoas que o fazem sabem que contam com uma justiça lenta, muitas vezes corrupta, com governos, locais ou federais, que pouco se têm preocupado com estas populações. Pelo contrário, salvo raras exceções, os governos têm olhado para os povos indígenas como um "obstáculo" ao progresso do país.

Porquê?
Porque habitam terras cheias de riqueza, que pela Constituição do Brasil têm direito a elas. São terras que deveriam ser invioláveis, o que não acontece, constantemente são invadidas. O atual presidente da República já disse que é totalmente contra esta lei e que tudo fará para a combater - é uma lei constituticonal que está acima de qualquer presidente da República. Se um presidente fala abertamente desta forma, está a encorajar madeireiros ilegais ou os garimpeiros, normalmente pessoas violentas, que atuam a qualquer preço para enriquecer, a indavir terras que têm dono. E estas pessoas acabam por olhar para os índios como um obstáculo aos seus objetivos.

Concorda que Bolsonaro tem apadrinhado as ameaças constantes e a realidade grave que se passa na Amazónia?
Claro. Está agora comprovado que a onda de queimadas de há pouco tempo, as quais o governo brasileiro começou por dizer que eram da responsabilidade das ONG, para porem a culpa no governo, foram da autoria de agricultores apoiantes da sua campanha. Está comprovado que foi uma coisa organizada por fazendeiros para determinado dia, ao qual chamaram Dia D da Queimada, com o objetivo de obterem mais terras para pasto de pecuária. Isto mostra o quê? Um apoio implícito de Bolsonaro? Mostra muito mais do que isso, mostra um apoio explícito.

Há muito que organizações de defesa de direitos humanos e a própria Igreja tentam proteger a Amazónia, com um presidente assim é mais difícil?
Sem dúvida. Há uma radicalização do discurso e torna-se muito difícil qualquer tipo de diálogo. Não quer dizer que os governos anteriores, incluindo os de Lula e de Dilma Roussef, tenham sido favoráveis à questão ambiental e à questão dos indígenas. Pelo contrário, a Igreja também protestou contra a construção das hidroelétricas naquela região aprovada pelo governo de Lula e, posteriormente, pelo de Dilma. Mas, pelo menos, havia canais de comunicação e de respeito mútuo. Hoje, quando o presidente da República afirma que a Conferência Episcopal Brasileira é a parte podre da Igreja Católica, já está a demonstrar qualquer incapacidade ou desejo para dialogar.

Mas Bolsonaro até se diz católico...
Ele diz que é católico, mas tem-se aproximado de pastores mediáticos de neoigrejas, que são mais seitas do que igrejas, tem-se aproximado de pessoas que são muito mais empresários do que pastores. São donos de televisões e de jornais, que o têm sustentado com a sua propaganda. E ele, em troca, oferece favores do governo.

Essa relação entre poder político e a Igreja foi o que levou alguns a dizer que o Sínodo sobre a Amazónia era um sínodo político? Esta situação interferiu na forma como decorreram os trabalhos?
Dentro da Igreja o sínodo foi um encontro como o Papa Francisco queria, foi um encontro de Igreja. Ele convocou os líderes da Igreja da Amazónia, os seus bispos estiveram presentes, mas convidou também lideranças indígenas, teólogos, antropólogos, cientistas e outras pessoas que trabalham com a Amazónia. Ele queria escutar estas pessoas, queria saber o que a própria Igreja tem a dizer sobre a sua forma de atuar, como missão e sobre a sua preocupação com a questão da ecologia integral, mas ouvir também as outras comunidades. Neste sentido, em nenhum momento o sínodo teve ou pareceu ter qualquer conotação política. Pelo contrário, acho que até foi muito bem ignorada esta questão política ou qualquer postura do governo em relação ao sínodo. A preocupação não era essa.

Era uma questão menor no meio dos temas a discutir...
O sínodo foi convocado um ano antes, antes de se saber mesmo quem seria o futuro presidente do Brasil. Além do mais, outros papas, além de Francisco, já se tinham manifestado publicamente em defesa dos indígenas. Portanto, é delírio de quem pensa que o Papa Francisco pensava ou se preocupava com determinado presidente ou governo. Acho que ele está muito mais preocupado com questões mais universais. Agora é inevitável que muita coisa do que ele afirma e que o sínodo confirmou choca com as políticas do atual governo do Brasil. Por isso pode parecer para aqueles que apoiam o atual governo do Brasil que a Igreja está contra este. A Igreja está contra determinadas políticas, isso é histórico.

Creio que o Papa está muito mais preocupado com questões mais universais. Agora é inevitável que muita coisa do que ele afirma e que o sínodo confirmou choca com as políticas do atual governo do Brasil. Por isso pode parecer para aqueles que apoiam o atual governo do Brasil que a Igreja está contra este. A Igreja está contra determinadas políticas, isso é histórico.

No seu discurso de abertura, o Papa disse mesmo que a Igreja continuava com "a tentação de domesticar os índios", tendo-se esquecido da forma adequada de se aproximar destes povos. A Igreja esqueceu-se da Amazónia?
Sim. O Papa é alguém muito lúcido, alguém que não sendo da Amazónia, embora de um país próximo, tem uma visão impressionante desta região. Não foi só no sínodo que ele falou pela primeira vez sobre este tema. Ele esteve no Brasil nas Jornadas Mundiais da Juventudade e, já na altura, quis reunir-se com todos os bispos no Rio de Janeiro para falar da sua preocupação com a Amazónia. E a sua visão corresponde à que nós, que somos Amazónia, ou que lá estamos em trabalho missionário, também temos. E essa perceção é a de que ainda há muito que caminhar para que possamos fazer justiça aos povos da Amazónia.

Caminhar dentro da própria Igreja?
Muitas vezes, nós como Igreja repetimos as mesmas formas de tratamento em relação a estes povos que são usadas pelo poder político ou pelo económico, que os tratam como periferias ou de segunda classe. E esta é uma realidade que é transversal a todos os países da PAN-Amazónia. Se olharmos para o Brasil, a Colômbia ou o Peru vamos ver que as áreas mais economicamente desenvolvidas e mais fortes politicamente estão fora da região amazónica. E é nisto que temos de trabalhar.

Mas todos os países com território amazónico reagem da mesma maneira...
Do Brasil à Colômbia ou ao Peru e por aí sucessivamente. A Amazónia é sempre vista como quintal desses países. Nós, que somos da Amazónia, costumamos brincar e dizer que a Amazónia é a Sibéria destes países, aquele lugar tão distante que às vezes nem sequer é considerado parte dele.

O Papa disse que a própria Igreja se esqueceu da proximidade e da forma adequada de lidar com estas culturas- Concorda?
Infelizmente, a Igreja, e porque é uma instituição formada por homens, estava a reproduzir preconceitos e atitudes que impunham uma cultura que vinha de fora, não estava aberta a receber a riqueza da cultura daquele lugar. O Papa quis alertar para isso, mas acho que neste momento há um processo de conversão.

Conversão às culturas da Amazónia?
Conversão é uma palavra muito forte que saiu do sínodo. Foi referida várias vezes. Mas quando se fala em conversão, fala-se também na conversão dos missionários, da própria Igreja, que chega à Amazónia e que tem de perceber que, em primeiro lugar, Deus já lá está. Não somos nós que O levamos. E que, em segundo lugar, há uma cultura própria, o povo da Amazónia não é um povo sem cultura, tem uma cultura, ainda que diferente da nossa.


O Papa mostrou-se desagradado com alguns comentários pouco abonatórios que lhe chegaram sobre a forma como estavam vestidas as lideranças nativas. Esses comentários demonstram a ignorância de alguns na Igreja sobre a cultura de quem vive na Amazónia?
Para nós Igreja tem de ser um desafio passarmos pelo processo de conversão cultural, o estarmos humildemente abertos para reconhecer que há uma outra cultura, com riquezas iguais e diversas das nossas. O Papa não gostou quando lhe chegou aos ouvidos de que teria havido alguém da Igreja que tinha feito piadas com as penas que os indígenas que estavam no sínodo usavam. Ele não gostou e até fez uma comparação com os chapéus dos guardas suíços, que aos olhos do mundo de hoje também são ridículos.

Mas este sínodo serviu para o mundo ouvir falar da Amazónia.
Se não produziu outros resultados, teve já um muito significativo, que foi o de ter conseguido colocar a Amazónia no centro das atenções mundiais. Enquanto decorreu o sínodo, os olhares do mundo estavam voltados para Roma, onde se falava da Amazónia. O Papa foi muito sábido ao trazer o sínodo para outra região que não a da Amazónia. Ele queria justamente isto, algo que chamasse a atenção e despertasse o interesse da humanidade para a região. Com isto acho que ele conseguiu alertar para duas realidades: a questão socioambiental - que tanto preza e que expõe a sua visão na enciclíca "Laudato si", onde escreve que temos de cuidar bem da casa comum, que a questão socioambiental é uma questão para a qual não temos mais tempo, se quisermos deixar um planeta saudável para as futuras gerações. Tudo isto foi debatido no sínodo e a humanidade pôde acompanhar.

E a segunda realidade qual é?
A denúncia de quanto estão ameaçados de extinção todos os povos originários da Amazónia, junto com a própria floresta. O sínodo coincidiu com a época das queimadas e com as políticas do atual governo, que significam um retrocesso imenso nas leis já conquistadas. Penso que a convocação deste sínodo, um ano antes de tantas mudanças e da situação grave que se vive agora, foi uma inspiração de Deus.

Surpreendeu-o a convocação deste sínodo ou já tinha falado com o Papa sobre isto?
A convocação do sínodo, sim. Foi uma grata surpresa. Mas está de acordo com o que já tinha ouvido do Papa sobre a Amazónia. Tive a oportunidade de encontrar pela primeira vez o Papa Francisco no Rio de Janeiro, em 2013, na Jornada Mundial da Juventude, numa missa celebrada por alguns jesuítas. Depois da missa, o Papa veio saudar um a um, e quando eu disse que era da Amazónia, ele respondeu-me: "A Amazónia está no meu coração." A partir daqui comecei a prestar mais atenção e percebi quanto ele era, de facto, uma pessoa preocupada com a região. E quando em 2017 convocou o sínodo, tive a confirmação de que ele não falava a brincar.

Houve quem dissesse que os dicursos do Papa no sínodo foram recados para dentro da própria Igreja...
Acredito que sim. Mas vamos ter de esperar que a história diga quais são os frutos concretos deste sínodo. Na minha opinião, o sínodo mexeu muito com todos os que lá estavam, mesmo com os cardeais da Cúria Romana, que provavelmente nunca terão estado nesta região. Penso que o facto de tantos bispos da Amazónia terem a mesma voz e a mesma visão que indígenas e comunidades da Amazónia ajudou a perceber a realidade que ali se vive. O facto de serem tantos, através dos seus depoimentos, a defender uma maior abertura a esta civilização, maior abertura à culturação e à participação das mulheres, a defenderem também que é preciso mais participação paroquial para as comunidades mais distantes, foi muito importante. Não se ouviu só uma voz isolada de um indígena, muitos bispos falaram e outras comunidades também.

Temos de esperar a exortação pós-sinodal, que o Papa prometeu que iria esforçar-se para escrever até ao final do ano. Aqui ficaremos a saber o que assumiu de todas as propostas que ali foram apresentadas. Porque, é claro, sendo assumidas pelo Chefe Maior da Igreja, ganham muito mais força.

Como é que a Igreja vai agora ajudar a Amazónia a concretizar algumas das medidas que foram confirmadas no sínodo, como haver mais abertura ao papel que as mulheres desempenham ou a possibilidade de ordenar sacerdotes casados?
Por agora, temos de esperar a exortação pós-sinodal, que o Papa prometeu que se iria esforçar para escrever até ao final do ano. Aqui ficaremos a saber o que assumiu de todas as propostas que ali foram apresentadas. Porque, é claro, sendo assumidas pelo Chefe Maior da Igreja, ganham muito mais força. Mas independentemente disto, os 120 pontos aprovados pelos padres sinodais estão publicados e podem já servir de inspiração às igrejas locais e às dioceses para começarem a atuar em relação à Amazónia.

E qual deve ser o papel da hierarquia em relação ao que foi definido?
Penso que as conferências episcopais dos países da Pan-Amazónia, como Brasil, Colômbia, Perue outros, têm um papel importante de agora em diante, que é perceberem quais são as suas tarefas e o que podem mudar. Foi dito que muita coisa poderia começar a mudar dentro dos próprios países e até com uma distribuição mais equitativa dos recursos económicos entre as dioceses, com a distribuição numérica dos padres mais equatitativa também, porque há maior concentração de padres nas zonas mais ricas, e cabe às próprias conferências episcopais refletirem sobre isto e atuarem.

Mas qual é a sua avaliação deste sínodo?
Para mim o grande feito foi a coragem que o Papa teve de convocar um sínodo para falar da Amazónia, houve muita gente que não tinha entendido a necessidade de um encontro destes para fala sobre uma região. Depois, outro feito foi o facto de ter trazido para este sínodo não só os bispos, mas também a voz de tantas outras pessoas que vivem na Amazónia e que representam as culturas mais ancestrais da região, e até os académicos, os cientistas e especialistas, que se preocupam com o planeta, com as questões ambientais. Foi um sínodo muito rico em intercâmbios de ideias.

Há quem diga que não foi um sinodo pacífico...
A liderança do Papa Francisco fez que decorresse num ambiente sereno. Penso que não houve um ambiente de contendas de grupos radicalizados, que se agrediram mutuamente. Foi um clima de diversidade em que cardeais da Cúria Romana, que nunca foram à América Latina, quanto mais à Amazónia, conviveram lado a lado com as lideranças indígenas da região, ouvindo-as numa atitude de acolhimento e de respeito mútuo. Acho que foi um belo exemplo e que muitos bispos saíram motivados para retransmitir esta experiência nas suas dioceses. Penso que este carácter sinodal, de uma igreja que se reúne, escuta e faz discernimento em conjunto, marcou a história recente da nossa Igreja.

E concorda que para pôr em prática algumas das medidas definidas no sínodo não é necessária uma rutura com os tratados dogmáticos do século XX? O teólogo espanhol José Antonio Fortea defendeu não ser precisa uma rutura...
Concordo que há uma continuidade entre o que já foi dito e visto pelo Concílio do Vaticano II, que é um dos tratados dogmáticos do século XX, e os 120 tópicos que saíram do sínodo. Isto até foi dito várias vezes. Aliás, o documento final está repleto de citações do Concilio do Vaticano II. Acredito que é uma continuação e que, de certa forma, é também um modo de recuperar alguma coisa que possa ter ficado esquecida. Enfim, penso que é um reforço à inspiração que trouxe o Concílio do Vaticano II. Há pessoas que já falam que deve haver um novo concílio, quando, para outros, ainda não se conseguiu pôr em prática tudo o que se vislumbrou no Concílio do Vaticano II.

Que mensagem deixaria ao mundo sobre a Amazónia?
A mensagem que está na encíclica "Laudato si", de que somos todos habitantes de uma casa comum e que a Amazónia é uma das partes mais sensíveis dessa casa, o que acontecer com ela terá consequências no mundo inteiro. E como habitantes de uma única casa, que é o planeta Terra, devemos ter o cuidado de preservar o que ainda resta de biodiversidade. Criar esta consciência é cuidar da nossa própria vida, independentemente da nossa fé.

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