O emaranhado de ruas estreitas do bairro lisboeta onde vivo é perturbado, várias vezes ao dia, pela carreira de uma empresa suburbana, cujos autocarros articulados acabam por entupir bastas vezes o trânsito..A Carris, empresa a que está atribuído o monopólio deste tipo de transportes dentro da cidade de Lisboa, apenas está autorizada a circular nos grandes eixos do bairro, que, por isso, foram transformados quase esmagodoramente em corredores "bus"..Situação caricata: a empresa su- burbana distribui porta a porta quem vem de fora da cidade, enquanto os habitantes do bairro, impedidos de entrar no autocarro suburbano, são obrigados a fazer longos percursos a pé pela malha estreita do bairro..Habituados que estamos à balbúrdia em que se transformam lentamente alguns espaços da cidade, já nem nos indignamos com aquela carreira intrusa. Certamente que tudo se passa dentro da legalidade - a empresa em causa terá todas as autorizações para circular nas ruas estreitas do bairro. Só que esse alvará data, muito provavelmente, do século passado, quando o metro ainda ali não tinha chegado, quando ainda não existia um terminal rodoviário construído para as empresas suburbanas, quando o trânsito e o estacionamento eram coisa vagarosa..Casos como este, reveladores da anarquia que reina no transporte público nos grandes centros urbanos, serão às dezenas..Dificilmente se entende que a maior concentração populacional do País não tenha uma autoridade que possa intervir de forma transversal na mobilidade dessa malha urbana, com uma visão acima das fronteiras concelhias e integrando todos os meios de transporte disponíveis. No caso de Lisboa, essa entidade até existe, chama-se Autoridade Metropolitana de Trans-portes, mas não exerce qualquer tipo de autoridade porque simplesmente não sai do papel..Chegamos, assim, à situação absurda em que nos encontramos. A Carris decide introduzir modificações profundas na sua rede e recebe o aval do Governo, sob protesto da câmara municipal..Há aqui qualquer coisa que não bate certo, independentemente dos argumentos avançados por cada uma das partes..A certificação das redes de transporte por uma entidade que integrasse especialistas do sector, mas igualmente representantes das várias partes interessadas, serviria certamente melhor o cidadão.