Siameses

Publicado a
Atualizado a

Ao fim de um ano de mandato como Presidente, Cavaco Silva terá aparentemente desiludido o seu próprio campo eleitoral e começado a despertar simpatias no universo de eleitores do Partido Socialista. A forma como tem apoiado o Governo levou já alguns dirigentes do PS a assumirem que votar em Cavaco Silva não representaria qualquer tabu. Ou mesmo a inusitadas declarações, como a do ministro da Justiça, Alberto Costa, ao Expresso, em que disse estar imbuído de uma "inspiração cavaquista" nas medidas que tem vindo a tomar no sector.

Cavaco Silva arrisca-se assim a substituir Mário Soares no imaginário dos mitos socialistas se este espírito de lua-de-mel persistir por muito tempo. Todavia, cenários idílicos à parte, não deverá ser esse o caminho do relacionamento político entre o Presidente e o PS. Cavaco é um institucionalista, um homem fortemente motivado para a política pelo que ela tem de formalismo institucional, de sacralização do poder, de instrumento para concretizar medidas de governo, sobretudo aquelas que convergem com as suas ideias. Com a vantagem de agora estar na posição de procurar essa convergência entre aquilo que pensa ser melhor para o país e a acção de um Governo na base do binómio cooperação/exigência.

A política, afinal, é para Cavaco Silva uma coisa demasiado séria para ser deixada em exclusivo por conta de certos políticos de gerações posteriores à sua, em particular aqueles que conhece e por quem nutre fraca consideração, como Santana Lopes, ou aqueles que não conhecia mas por quem sente a curiosidade própria dos professores perante alunos que podem dar boas provas, como é o caso de José Sócrates.

Neste quadro, seria previsível que o Presidente fosse conciliador, colaborante, que balizasse as regras de um rigoroso relacionamento institucional com o Governo neste primeiro ano. E isso foi bom porque contribuiu activamente para normalizar a vida política do país e das instituições. Já não seria tão previsível que fosse tão elogioso e entusiasta, como na entrevista à SIC. E esse é o ponto: daqui para a frente dificilmente Cavaco Silva voltará a ter igual registo sobre o Governo. Aquele foi o ponto máximo do seu entusiasmo sobre Sócrates e a partir de agora os socialistas só podem mesmo esperar exigência, avaliação severa, vigilância activa. O relógio presidencial começou a correr contra os socialistas, mas para Cavaco os ponteiros que exprimem um tempo de avaliação da sua função também podem não lhe ser muito generosos. As expectativas que a sua eleição criou no país são de tal ordem que se o Governo de Sócrates falhar na recuperação económica e financeira do país também o Presidente estará associado a esse fracasso. Em certa medida, Sócrates e Cavaco são siameses. Não só no estilo mas num destino que os uniu por vontade própria de cada um deles.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt