Cartaz

Opinião

Órfãos do romantismo

Os telhados de Paris. Um par que se beija numa varanda. As figuras duplicadas no vidro de uma janela. Foi uma das imagens que me vieram à memória quando soube da morte de Jacques Rivette (dia 29, contava 87 anos). Pertence a O Amor Louco (1969), filme em que convergem diversos elementos que, por assim dizer, definem a sensibilidade de uma época: a memória próxima e desencantada do Maio de 68; a sedução de um romantismo órfão do seu próprio classicismo; a cumplicidade entre aquilo que as personagens vivem no palco e nos bastidores; a paixão pela fotografia a preto e branco, não como símbolo de qualquer revivalismo chique, antes como laço técnico e afetivo com o primitivismo de um cinema que não desiste de registar as angústias do nosso viver; enfim, o título roubado ao livro de André Breton (publicado em 1937).

Entre as imagens

O renascimento dos filmes em 70 mm

A história do pensamento cinematográfico ensina-nos que a demagogia populista tende a censurar o simples gosto de pensar e argumentar em torno da especificidade de cada filme. Observe-se o que, não poucas vezes, acontece com os blockbusters intercontinentais. Na prática, tendem a ser compreendidos (?) como meras proezas de marketing, gerando uma vaga de notícias suscetível de contrariar a mais básica abertura à complexidade, contrastes e contradições da história económica dos filmes - sendo essa história uma parte fulcral da sua história cultural.

João Lopes

Para além da lenda

Na sua sabedoria clássica, o realizador Frank Capra (1897-1991) conhecia os fundamentos da consistência cinematográfica. Um dia, questionado sobre os três fatores decisivos na arquitetura de um bom filme, deu uma esclarecedora resposta: "O argumento, o argumento e o argumento." Face à inteligência narrativa de Steve Jobs, não serei eu a diminuir as qualidades da realização de Danny Boyle: este é mesmo um caso em que Boyle sabe evitar o formalismo gratuito que tem marcado alguns dos momentos menos interessantes da sua filmografia, com destaque inevitável para o anterior Transe (2013).

Opinião

Repensando a história

Antes de realizar dois filmes - Photo (2013) e, agora, A Uma Hora Incerta -, Carlos Saboga deixou a sua marca de argumentista em títulos como O Lugar do Morto (António-Pedro Vasconcelos, 1984), Matar Saudades (Fernando Lopes, 1988), O Milagre segundo Salomé (Mário Barroso, 2004), Mistérios de Lisboa (Raúl Ruiz, 2010) ou Linhas de Wellington (Valeria Sarmiento, 2012). Como ele próprio diz, o seu gosto pela "intriga" é menos intenso do que a sua paixão pelas personagens, quer dizer, pelas convulsões humanas que os atores podem colocar em cena. Sendo A Uma Hora Incerta um filme apostado em encenar a ação da polícia política do Estado Novo, eis o que, compreensivelmente, não será um fator secundário em tal dinâmica criativa. Devido à cobardia intelectual da direita ou através da demagogia dos clichés da esquerda, a abordagem de personagens da PIDE enquista-se, por vezes, em soluções simplistas que recalcam os matizes da história, quer dizer, a necessidade de pensar essa história para além dos lugares-comuns (contra eles, se for caso disso) enraizados em discursos políticos cada vez mais esgotados na banal gestão do seu efémero impacto televisivo. Não é todos os dias, de facto, que podemos deparar com um filme português que, como A Uma Hora Incerta, trata a história como algo mais do que uma montra de símbolos em que só nos resta censurar os "maus" e celebrar os "bons". Carlos Saboga sabe colocar em cena os caminhos tortuosos do fascismo português para além de qualquer facilidade panfletária, expondo uma teia de factos e silêncios em que, no limite, se diluem as fronteiras entre repressão política e pulsão sexual. Conhecer a história não é o mesmo que juntar meia dúzia de figuras a fazer grande alarido num estúdio de televisão... Tanto pior para nós.