Twitter. Notícias falsas correm mais depressa

Investigadores do MIT analisaram 4,5 milhões de twitts de cerca de três milhões de utilizadores. Informação falsa chega mais depressa a mais gente do que a verdadeira
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Nos dias que se seguiram à maratona de Boston de 2013, que ficou marcada por um ataque com explosões junto à meta - morreram três pessoas e 264 ficaram feridas -, Souroush Vousoughi, um investigador do MIT, nos Estados Unidos, apercebeu-se de que muita da informação que tinha corrido pelo Twitter sobre o acontecimento era pura e simplesmente falsa. Então decidiu estudar o fenómeno. O resultado desse trabalho é publicado hoje na revista Science e não deixa dúvidas: as falsas notícias espalham-se muito mais depressa no Twitter do que a informação real. E por uma margem tão significativa que acabou até por surpreender os próprios investigadores.

"O que descobrimos foi que a informação falsa se difunde significativamente mais depressa e percorre caminhos mais longos e mais vastos do que a informação verdadeira, nas suas diferentes categorias [da política ao entretenimento] e, em muitos casos, por uma diferença grande", explica Sinan Aral, da escola Sloan de gestão do MIT, e um dos coautores do estudo. Já Deb Roy, do MIT, outro dos autores do trabalho, que se confessa "entre o surpreendido e o perplexo" com a clareza dos resultados, acredita que eles "lançam uma nova luz sobre aspetos fundamentais do ecossistema da nossa comunicação on line", como diz, citado num comunicado do MIT.

Um desses aspetos fundamentais é, por exemplo, o facto de esta disseminação rápida da informação falsa ser mais pronunciada e evidente na categoria da informação política - a política é, aliás, a campeã absoluta dos assuntos twittados pelos utilizadores, com um total de 45 mil assuntos entre 126 mil "cascatas" (cadeias de retwitts) que foram analisadas pelos autores. Logo a seguir à política, os assuntos mais populares no Twitter, de acordo com o estudo, são os chamados mitos urbanos, seguidos de negócios, terrorismo, ciência, entretenimento e, por fim, os desastres naturais.

Para fazer o estudo, a equipa recorreu ao arquivo histórico do Twitter, entre 2006 e 2017, que lhes foi facultado pela própria empresa, e usaram 126 mil cascatas de informação, num total de 4,5 milhões de twitts, feitos por cerca de três milhões de utilizadores.

Os resultados mostram que as notícias falsas têm 70% mais probabilidades de serem retwitadas do que a informação verdadeira. E, como se não bastasse, esta última leva em média seis vezes mais tempo a chegar a 1500 pessoas do que a outra - a falsa. Já nas tais cascatas, ou cadeias de retweets, as informações falsas chegam a esse patamar 10 a 20 vezes mais depressa do os factos. Além disso, há mais utilizadores únicos a difundir a informação falsa do que a verdadeira.

Chegados a este ponto, impõe-se a questão: porque é que isto é assim?

Foi essa mesma pergunta que os investigadores se colocaram. Seriam os famosos bots, aqueles pedacinhos de software criados para ficarem a a li a repetir indefinidamente a mesma informação, que em vários casos já se demonstrou ser informação falsa?

Para tirar isso a limpo, a equipa removeu todos os bots da base de dados dos twitts com que trabalhou e, surpresa, os resultados não se alteraram. Mesmo sem bots, a informação falsa continuou a mostrar o mesmo perfil "de disseminação predominante, em relação à informação verdadeira", garante o principal autor do estudo, Souroush Vousoughi.

Era preciso procurar então noutro lugar e para isso, os investigadores tentaram a abordagem da análise emocional associada aos twitts e respetiva informação, e o que descobriram conduz à hipótese que consideram a mais provável: a da própria psicologia humana. "Gostamos de coisas novas", diz Sinan Aral. "Na informação falsa há mais novidade e as pessoas partilham mais facilmente as novidades", explica, sublinhando que as pessoas "conseguem mais atenção se forem as primeiras a partilhar informação que era desconhecida".

Na avaliação das emoções associadas aos tweets, a equipa verificou que, naqueles que veiculam informações falsas (quem twitta ou retweeta não sabe que elas são falsas), as pessoas mostram sobretudo surpresa e indignação. Nas outras (verdadeiras, há principalmente tristeza, expectativa e confiança associadas. Os investigadores não dizem taxativamente que é a novidade que determina tudo nestes resultados, mas, como eles próprios dizem, "é muito provável". E, por isso mesmo, consideram que é preciso fazer mais estudos.

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