Em carta dirigida à procuradora-geral da República, Lucília Gago, o antigo primeiro-ministro José Sócrates apresenta uma queixa contra o Ministério Público (MP) e contra a Caixa Geral de Depósitos (CGD)..De acordo com o teor da missiva, a que o DN teve acesso, Sócrates refere que a mesma representa uma "denúncia formal", uma "denúncia contra desconhecidos", na sequência da notícia da SIC, que dava conta de que o antigo governante foi novamente investigado, já depois de ter sido acusado no processo Operação Marquês..Em causa está uma investigação que foi desencadeada por transferências recebidas pelo antigo primeiro-ministro, a partir de 2020, na sua conta da CGD, no valor de 12.500 euros mensais, segundo avançou o canal de notícias. Transferências justificadas com um contrato de consultoria com a empresa de Adélio Machado, empresário e ex-piloto de automóveis, que já foi à falência em França e em Espanha. O alerta terá chegado ao Ministério Público a partir da CGD..Perante o noticiado, Socrates faz várias acusações na carta datada de 23 de fevereiro. "O Ministério Público parece ter perdido qualquer sentido de decência", referiu o antigo governante. "Desta vez, decidiram divulgar na televisão SIC uma suposta investigação sobre o meu contrato de trabalho com uma empresa internacional. Pouco importa que não haja suspeita nem fundamento para fazer qualquer averiguação", pode ler-se na missiva.."A razão de investigação sou eu - trata-se de perseguir um alvo, não de investigar um crime. Atacar-me desta forma, e atacar todos os que comigo se relacionam socialmente, é uma covardia e uma violência que há muito conheço do processo Marquês. Estes métodos, Senhora Procuradora, são repugnantes", declarou o antigo primeiro-ministro..Sócrates indica que a carta "deve ser considerada como denúncia formal". "Denúncia contra desconhecidos que, no Ministério Público, divulgaram junto do jornalista o meu contrato e a notícia de uma investigação", acrescenta. "Bem sei que as autoridades penais parecem considerar o crime de violação de segredo de justiça como monopólio de Estado. Um crime institucional, por assim dizer. Mas acontece que ainda é crime. E que é usado contra as pessoas que o Ministério Público considera suas inimigas", acrescenta, caracterizando "estes métodos" como "vergonhosos"..Sócrates apresenta também "queixa formal contra os responsáveis do banco Caixa Geral de Depósitos por denúncia caluniosa"..O antigo governante refere que deu "conhecimento ao banco de todas as informações pertinentes sobre o contrato" em causa e explica: "já não sou 'pessoa politicamente exposta"' na medida em que deixei de exercer funções públicas há cerca de doze anos. Assim sendo, tenho todas as razões para suspeitar que a atuação do banco foi politicamente motivada".."Requeiro, portanto, Senhora Procuradora, a abertura do competente inquérito criminal", refere Sócrates na carta.."Tornarei pública esta carta de legitima defesa. Esta é a única forma de me defender da 'guerra suja' que o Ministério Público decidiu fazer contra mim desde que iniciou o processo Marquês, faz agora dez anos", lê-se na carta..José Sócrates termina ao referir que está "enojado" com a situação. "Poder-se-ia pensar que estou já habituado. Mas não, não estou habituado. Estou tão enojado como da primeira vez", declara..De referir que o antigo primeiro-ministro foi acusado no processo Operação Marquês pelo Ministério Público, em 2017, de 31 crimes, designadamente corrupção passiva, branqueamento de capitais, falsificação de documentos e fraude fiscal, mas na decisão instrutória, em 9 de abril de 2021, o juiz Ivo Rosa decidiu ilibar José Sócrates de 25 dos 31 crimes, pronunciando-o para julgamento por três crimes de branqueamento de capitais e três de falsificação de documentos.